Pesquisador explica em entrevista como ocorre o desmatamento na Amazônia, as chances de recuperação e os principais impactos ambientais da degradação da floresta

O desmatamento na Amazônia vem crescendo nos últimos anos e tem sido destaque constante nos noticiários. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), somente no mês de agosto foram desmatados mais de 1.700 km² de floresta. Um aumento de 222% em comparação com o mês de agosto de 2018, quando o registro de desmatamento foi de 526 km². Para comentar o tema, a equipe da Diretoria de Comunicação Social (Dicom) conversou com o professor Romero Francisco Vieira Carneiro, pesquisador da área de recuperação de áreas degradadas, ciência do solo e produção vegetal do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT), campus Poços de Caldas. Na entrevista, o pesquisador explica como ocorre o desmatamento da floresta, analisa as chances de recuperação das áreas e esclarece quais são os principais impactos ambientais do desmatamento, inclusive, para outras regiões do país.

Prof. Romero Cardoso, pesquisador da área de recuperação de áreas degradadas da UNIFAL-MG, campus Poços de Caldas (Foto: arquivo do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais)

1- Prof. Romero, quais são as chances de recuperação das áreas desmatadas da Amazônia do seu ponto de vista como especialista em recuperação de áreas? 
Prof. Romero: No desmatamento clássico realizado lá, retira-se a madeira e depois vem com o fogo para limpeza da área e posterior formação de pastagens para criação de gado. O que tem sido observado, é que essas áreas de pastagens têm se transformado em pastagens com baixa produtividade ao longo do tempo, por vezes levando à sua própria degradação. A recuperação dessas áreas deveria estar pautada em estratégias de recuperação aplicadas nessas áreas de pastagens, até mesmo integrando-se com agricultura, para que as mesmas voltem a prestar serviço ambiental, sobretudo, no sequestro de carbono e reverta o estágio de degradação.

2- Quais as áreas do solo mais afetadas pelo desmatamento?
Prof. Romero:
A riqueza em fertilidade do solo, concentra-se na camada superficial, que a floresta se encarregou de formar durante anos. Esta é responsável pela ciclagem dos nutrientes essenciais para as plantas. O desmatamento acelera a decomposição do estoque de carbono superficial, levando a perda de fertilidade solo, trazendo como consequência  um dos maiores problemas ambientais que é a emissão de gases de efeito estufa.

3- Nessas áreas há possibilidades de recomposição de vegetação original?
Prof. Romero:
Possibilidade técnica existe, mas dependeria de uma política governamental para planejar e viabilizar isso no aspecto econômico. Particularmente acho muito difícil isso acontecer. Mais factível seria a recuperação de pastagens degradadas como mencionei anteriormente, com vistas à recuperação da prestação de alguns serviços ambientais específicos, dentre estes, o sequestro de carbono. Temos instituições de pesquisas que poderiam auxiliar nesse planejamento e monitoramento.

“A floresta amazônica influencia o estado da atmosfera, com efeito direto no regime hídrico, por exemplo, da região Sudeste do Brasil. Trata-se de um Bioma que além da biodiversidade que mantém, da importância no ciclo biogeoquímico de nutrientes, ainda atua como um regulador climático. Assim, várias regiões sofreriam o impacto do desmatamento devido a redução das chuvas.”

4- Quais são os principais impactos ambientais que podem ser observados em outras regiões do país, a partir da poluição gerada pelas queimadas na Amazônia?
Prof. Romero: É sabido, que a floresta amazônica influencia o estado da atmosfera, com efeito direto no regime hídrico, por exemplo, da região Sudeste do Brasil. Trata-se de um Bioma que além da biodiversidade que mantém, da importância no ciclo biogeoquímico de nutrientes, ainda atua como um regulador climático. Assim, várias regiões sofreriam o impacto do desmatamento devido a redução das chuvas.

5-  De que maneira você analisa o argumento de que o desmatamento da Amazônia é necessário para aumentar a produção agropecuária?
Prof. Romero:  O aumento da produção agropecuária se dará por aumento da adoção de tecnologias de produção nas áreas já estabelecidas, e minimamente se dará devido a expansão territorial. Em outras palavras, o aumento da produção agropecuária depende de melhoramento genético de plantas e animais, manejos eficientes, uso eficiente das tecnologias de aplicação de insumos agrícolas e da biotecnologia. O desmatamento é um argumento para aumento de produção, lá do Brasil colonial na época do descobrimento. Não dos dias atuais.

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