A conta chegou em Minas Gerais

Quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

A conta chegou em Minas Gerais e ela é alta. O estado apresentou em janeiro recordes diários de números de casos de COVID-19. Consequentemente, houve alta nos números de mortes pela doença que superam as estatísticas de meados de 2020 (quando o país e o Estado alcançaram os mais elevados números de casos e mortes).

Hoje Minas Gerais é o segundo estado em número de casos, são 811.742[2] pessoas contaminadas, só perdendo para São Paulo, e o terceiro em número de óbitos absolutos 16.903[3]. Pode-se ver nas tabelas abaixo as curvas indicativas de novos casos. Nessas fica claro como o número de novos casos aumenta visivelmente de patamar em Minas no fim de 2020 e no começo de 2021

Gráfico 1. Evolução de novos casos em Minas Gerais[4]

Fonte: https://covid19br.wcota.me/#graficos

 

Além disso, no gráfico abaixo é saliente o crescimento do registro de novos óbitos em MG.

Gráfico 2.  Evolução de novos óbitos em Minas Gerais[5]

Fonte: https://covid19br.wcota.me/#graficos

Pensando nas vinte maiores cidades mineiras e o avanço da Covid destacam-se pelo aumento do número de novos casos as cidades de Belo Horizonte, Juiz de Fora e Varginha.

Gráfico 3.  Evolução do número de novos casos nos vinte maiores municípios de Minas Gerais[6]

Fonte: https://covid19br.wcota.me/#graficos

 

Em relação ao número de novos óbitos em 2021 destacam-se as cidades de Belo Horizonte, Juiz de Fora, Varginha e Ipatinga.

 Gráfico 4.  Evolução do número de novos óbitos nos vinte maiores municípios de Minas Gerais[7]

Fonte: https://covid19br.wcota.me/#graficos

Em boa medida, os números apresentados no início deste ano no estado acompanham uma tendência de alta observada no país. Um dos fatores que explica a alta dos números está relacionado ao comportamento de cidadãs e cidadãos que ignoraram as recomendações científicas de manter isolamento social e usos de máscaras. Imagens de brasileiros comemorando a virada do ano correram o mundo e causaram perplexidade e espanto. Contudo, muito do modo de agir percebido na população é reflexo de políticas públicas no nível federal e estadual pouco assertivas e claras na indicação à sociedade de quais os riscos do vírus, a evolução dos dados acerca de contágios e óbitos e quais os procedimentos adequados para se proteger do Novo Coronavírus.

Dentro das políticas públicas afrouxadas produzidas está a flexibilização das medidas de isolamento social em vários estados e cidades do país.

Além disso, outros fatores relacionados à adoção ou não de políticas públicas de enfrentamento da pandemia em MG podem ser acionados para explicar o atual cenário observado no estado.

Em artigos anteriores, apontamos uma série de pontos que dificultava o enfrentamento da doença no estado. Retomemos alguns deles. O primeiro, é o alinhamento do governador Romeu Zema (NOVO) ao presidente Bolsonaro e seu desalinhamento em relação ao prefeito de Belo Horizonte. Alexandre Kalil (PSD). Zema se mantém, como Bolsonaro, um contumaz sabotador das medidas de enfrentamento à pandemia com sua postura negacionista em relação à ciência[8], enquanto Kalil vem adotando medidas de restrição de circulação de pessoas e de fechamento do comércio sempre que os indicadores sanitários alcançam números críticos. O resultado destes desencontros é a falta de uma ação coordenada para o enfrentamento da pandemia no Estado.

Um segundo ponto a destacar são ações equivocadas do governo de MG em relação à pandemia. Destacamos a subnotificação de casos, a ineficiente política de testagem no estado, a montagem de um hospital de campanha que não recebeu sequer um paciente. Por fim, temos a ineficiência comunicativa e operacional do programa “Minas Consciente”. Seu foco é a atividade econômica e não a adoção de medidas sanitárias que possibilitem o controle da doença no Estado.

Assim sendo, o governo de MG não veiculou nenhuma peça publicitária voltada para a população do estado recomendando o distanciamento social, adoção de medidas de higiene e uso de máscaras em público. O foco recai nas atividades econômicas.

Finalmente, temos a ineficiência da administração de Zema em não usar o aparato existente em Minas Gerais para atender a população, inclusive na produção de vacinas para a Covid-19. Lembrando da sofrível entrevista pré-eleição em que ele admite não saber o que é a Fundação Ezequiel Dias (FUNED), o governo de Zema não somente isolou uma instituição que trabalha há 113 com medicamentos incluindo produção de vacinas, mas propositalmente destruiu relações comerciais e diplomáticas durante negociação para aquisição direta de vacinas para o estado[9].

Em relação à vacinação, o estado de MG não criou nenhum plano específico e vai seguir o Plano estipulado pelo governo federal evidenciando mais uma vez seu alinhamento ao governo Bolsonaro[10]. A imunização no estado começou no dia 19 de janeiro. Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde de MG (SES-MG) relativos ao dia 17 de fevereiro foram distribuídas 1.033.023 doses de vacinas para os municípios mineiros e aplicadas 396.116 primeiras doses e 120.887 segundas doses[11].O estado já recebeu três remessas de vacinas do governo federal, totalizando 855.888 vacinas (Quadro 1).

Quadro 1. Quantidade de vacinas recebidas pelo governo de MG.

Fonte: Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais (SES-MG). Dados disponíveis em:<https://vacinaminas.mg.gov.br/ >. Acessado em 17 de fevereiro 2021. *Expectativa da cobertura de indivíduos vacinados.

O Plano Nacional de Imunização (PNI) brasileiro é reconhecido internacionalmente pela sua capacidade de cobertura e alcance – considerando o tamanho continental do país. Contudo, em função da descoordenação da política de imunização nacional contra o coronavírus, caracterizada pela incerteza em relação à aquisição de vacinas disponíveis no mercado e da sua distribuição equitativa para os entes federados, vários governadores de estado e prefeitos criaram seus próprios planos de vacinação e passaram a negociar com laboratórios e farmacêuticas a aquisição dos imunizantes. Ao se alinhar a Bolsonaro, o estado de MG fica refém da incerteza e sem saber ao certo quando teremos vacinas em quantidade suficiente para imunizar um percentual suficiente de pessoas para se criar um cordão sanitário capaz de conter a epidemia.

Enquanto isso, o prefeito da capital luta contra associações comerciais para tentar diminuir aberturas de espaços públicos, especificamente, comércio não-essencial, na cidade com o maior número de bares e botecos per capita do país. O exemplo de Manaus parece não sensibilizar os comerciantes da capital mineira e muito menos o governador do estado. O apoio do governo do estado seria chave para manter uma das maiores cidades do país organizada no sentido de contornar a pandemia, mas o empresário-governador parece não saber que existe a Fundação João Pinheiro também, onde poderia ter algumas aulas sobre administração pública. Diante do cenário aqui exposto a conta chegou e é cara. Ela é paga com a vida de cidadãs e cidadãos mineiros.

Notas e referências

[1] Este artigo faz parte de SANTANA, Luciana (org). V Série especial ABCP: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia no Brasil. Site Associação Brasileira de Ciência Política: 08 a 12 de fevereiro de 2021.

[2] Dados de 17 de fevereiro de 2021. Fonte: https://covid19br.wcota.me/

[3] Dados de 17 de fevereiro de 2021. Fonte: https://covid19br.wcota.me/

[4] Acesso em 29 de janeiro de 2021.  https://covid19br.wcota.me/

[5] Acesso em 29 de janeiro de 2021. https://covid19br.wcota.me/

[6] Acesso em 29 de janeiro de 2021. https://covid19br.wcota.me/

[7] Acesso em 29 de janeiro de 2021. https://covid19br.wcota.me/

[8] Em estudo realizado pelo Lowy Institute de Sydney que avalia a forma como países enfrentaram a pandemia de COVID-19 o Brasil apresentou o pior desempenho. Foram avaliados 98 países. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2021/01/28/interna_nacional,1233008/brasil-e-o-pior-do-mundo-no-combate-a-covid-aponta-estudo.shtml. Acessado em 28 jan. 2021.

[9]Acerca da aquisição de vacinas pelo governo de MG a matéria disponível no link é ilustrativa da incompetência do atual governo.

<https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2021/01/28/interna_politica,1232967/governo-de-mg-perdeu-vacina-chinesa-apos-gafe-diplomatica-e-dialogo-lento.shtml>. Acessado em 28 jan. 2021.

[10]Disponível em <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/12/08/vacina-em-tom-alinhado-ao-governo-zema-diz-que-vacinacao-deve-ser-federal.htm . Acessado em 28 jan. 2021

[11] No link https://vacinaminas.mg.gov.br/wp-content/uploads/2021/01/distribuicao-doses.pdf disponibilizado pela SES-MG é possível verificar o quantitativo de doses destinadas para cada Regional de Saúde no Estado. Acessado em 28 jan. 2021.

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Autores: Larissa Peixoto Gomes (UFMG)
Thiago Rodrigues Silame (Instituto de Ciências Humanas e Letras/UNIFAL-MG)
e Helga do Nascimento de Almeida (Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF)

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