Abordagens inovadoras no ensino de Geografia durante a pandemia ganham repercussão em eventos científicos; atividades realizadas pelos acadêmicos do Pibid incluem realidades socioespaciais marginalizadas

A pandemia da Covid-19 transformou a vida de professores e alunos. Educadores tiveram que se reinventar na construção de propostas de ensino-aprendizagem para levar a escola até os estudantes. Na UNIFAL-MG, os acadêmicos do curso de Geografia, que integram o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), adaptaram as atividades realizadas em parceria com as escolas de Alfenas para o ensino remoto. O resultado dos trabalhos de 2020 foi relatado em artigos científicos, os quais foram aprovados para apresentação em congresso internacional.

Pibidianos da Geografia. (Foto: Arquivo/Pibid-Geografia)

De acordo com a professora Sandra de Castro de Azevedo, coordenadora do Pibid-Geografia, as atividades realizadas pelos pibidianos envolveram acompanhamento das aulas on-line nas escolas estaduais parceiras – Professor Levindo Lambert e Padre José Grimminck -, bem como momento de formação com análise de material didático, disponibilizado pelo estado de Minas Gerais, e elaboração das atividades. As atividades foram realizadas sob a supervisão dos professores Franciny Oliveira de Deus, na Escola Levindo Lambert, e Luís Fernando Borges Silva, da Escola Padre Grimminck.

“Mesmo em um momento crítico que a sociedade vive, a universidade pública, em articulação com escolas públicas da educação básica e com apoio financeiro da CAPES, tem conseguido contribuir para o processo de ensino-aprendizagem dos alunos da educação básica e dos alunos da Universidade”, afirma. Segundo Profa. Sandra, a equipe, formada por acadêmicos do 3º e 5º períodos do curso de Geografia-Licenciatura, conseguiu desenvolver atividades que foram refletidas e teorizadas, e tiveram como produtos os textos submetidos e aprovados no 1º Congresso Latino-Americano de Ensino de Geografia.

Foram três trabalhos aprovados para apresentação e publicação no congresso, realizado virtualmente, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), entre os dias 14 e 17 de junho; e um submetido ao 18º Encontro de Geografias da América Latina (EGAL), que ocorrerá no formato virtual entre os dias 30 de novembro a 4 de dezembro de 2021.

O ensino da Geografia como ferramenta para a compreensão das dinâmicas socioespaciais complexas

“A formação inicial em Geografia e a educação étnico-racial: análise de um subprojeto do Pibid”

Captura de tela de post no Instagram do Pibid-Geografia que destacou o mês da Consciência Negra. (Foto: Arquivo/Pibid-Geografia)

O primeiro trabalho aprovado no congresso teve como proposta desenvolver uma pré-construção do ideal do ensino antirracista nas escolas, apresentando os trabalhos realizados dentro do ensino fundamental e médio das escolas parceiras, durante o Mês da Consciência Negra.

Segundo os autores Evellyn Gomes Tristão, Guilherme Alburqueque de Oliveira Souza, Luan Pedro do Nascimento Ribeiro e Karine Justino Pimenta, o trabalho consistiu em análises bibliográficas e na observação das experiências adquiridas com os projetos desenvolvidos na Escola Estadual Levindo Lambert.

“Enviamos um vídeo para uma chamada para o projeto, no qual os alunos teriam que enviar pelo WhatsApp um texto, poema ou desenho que representasse a seguinte pergunta exposta no vídeo: ‘Como você enxerga as pessoas negras no seu cotidiano’. O intuito era fazer com esses alunos pensassem nas suas relações cotidianas e onde esse grupo estava, como pai, mãe, parente, ou até mesmo como professor, colega, amigo, ou alguém famoso que também o influenciava”, explicam os autores.

O grupo também usou o recurso do IOS para abordar a beleza preta e a sua representatividade na nossa cultura, ao incentivar que os alunos desenhassem um avatar para apresentação no mês da Consciência Negra, via Google Meet.

“A dificuldade que mais encontramos foi devido à ausência de contato com a sala de aula e da devolutiva dos alunos para agregar em nossa escrita. Os detalhes de um cotidiano escolar que o presencial proporcionaria acabou sendo interrompido ou reorganizado por conta do baixo contato. Ademais, por ser o primeiro artigo que meu grupo elaborou, tínhamos uma apreensão sobre como realmente funcionava e como deveríamos fazer, mas  as orientações da professora coordenadora de área foram essenciais para conseguirmos esse resultado muito positivo e é edificante ver a contribuição em nossa formação”, compartilhou a acadêmica Karine.

“Regime de estudos não presenciais (Reanp) do estado de Minas Gerais: o desenvolvimento de atividades do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência”

Captura de tela de post do Pibid-Geografia que destacou o mês da Consciência Negra. (Foto: Arquivo/Pibid-Geografia)

A proposta do trabalho foi abordar a possibilidade de desenvolvimento de atividades do programa Pibid no formato remoto. Utilizando a descrição e a análise reflexiva da implementação e desenvolvimento das atividades do Pibid, análise documental dos cadernos de Plano de Estudos Tutorados (PET) e pesquisa bibliográfica, os autores Rayssa Cristina Vieira Domingues, Gustavo de Oliveira Alexandre, Milena Tereza Barbosa e Sandra de Castro Azevedo conseguiram ampliar a análise e reflexão sobre a formação inicial docente e a importância de programas como o Pibid, para o fortalecimento dessa formação.

“Por conta do contexto de pandemia também analisamos as experiências de uso das redes sociais e tecnologias no ensino e no suporte às atividades para os alunos e analisamos as políticas educacionais para o ensino remoto do estado de Minas Gerais”, relataram os autores.

Segundo o grupo, o desenvolvimento do trabalho no formato remoto foi um desafio pela impossibilidade de encontros presenciais, o que limitou o processo de troca. “As dificuldades foram sanadas com as orientações frequentes da coordenadora de área, que também contribuiu com a escrita do artigo”, narrou o grupo.

“As histórias em quadrinhos no ensino da Geografia: temática étnico-racial”

Captura de tela de post no Instagram do Pibid-Geografia que destacou o mês da Consciência Negra. (Foto: Arquivo/Pibid-Geografia)

Desenvolvido pelos acadêmicos Giovanna Deodoro da Costa, Pablo César Serafim e Pedro Henrique Rangel, o trabalho tem como proposta fomentar a importância de ferramentas lúdicas no ensino, com ênfase nas histórias em quadrinhos, com objetivo de trabalhar a  temática étnico-racial de uma forma que exaltasse a importância da representatividade negra dentro de sala de aula e chamar atenção dos alunos do ensino fundamental para a importância do assunto.

Sobre os resultados, os autores assinalam: “Um dos principais resultados encontrados foi a dinamização da aplicação de conteúdos no cenário escolar, com o uso das HQ’s, os professores conseguem instigar a participação do aluno, correlacionando o espaço deles ao conteúdo da disciplina e com as histórias em quadrinhos.”

“O desafio mais impactante presente no ensino on-line é a presença dos alunos, que geralmente é baixa. Outro fator é a participação dos alunos durante a aplicação de projetos, pois sempre é preciso ficar instigando os alunos a interagirem. A escrita do artigo foi muito gratificante, pois conseguimos aprender a refletir sobre as atividades pedagógicas realizadas, teorizar e organizar as ideias em uma escrita científica”, acrescentam os autores.

“Lei 10.639/03 e as interseccionalidades no ensino de Geografia: uma experiência a partir do Pibid”

Captura de tela do vídeo que destacou a história ficcional “O perigo da história única”. (Foto: Arquivo/Pibid-Geografia)

De autoria de Brenda Leticia de Paula Muniz, José Luiz Alves Neto, Flávia Vieira Lourenço e Sandra de Castro de Azevedo, a pesquisa foi pautada em um relato de experiência de uma atividade desenvolvida no subprojeto do Pibid-Geografia, para o qual foi construída uma história ficcional a partir do livro “O perigo de uma história única” da autora Chimamanda Ngozi Adichie (2009), com histórias de personagens femininas negras importantes para a historiografia brasileira.

“O texto ficcional foi declamado em formato de vídeo e apresentado para os alunos e alunas da escola parceira”, relatam, informando que a atividades está disponível neste link. Os participantes da atividade realizaram também um debate sobre as ideias centrais do trabalho via Google Meet.

Ao comentar os resultados, o acadêmico José Luiz afirma que o ensino de Geografia a partir da intersecção dos marcadores sociais serve de ferramenta para a compreensão das dinâmicas socioespaciais complexas, além de problematizar o modelo de ciência universal que tem como base o homem branco, cisgênero, hétero, burguês. “O ensino a partir da diferença pode despertar maior interesse em sala de aula dos sujeitos-alunos e sujeitos-alunas e que é necessário inserir essas temáticas na formação inicial de professores e conseguimos fazer isso por meio do Pibid”, diz.

“Um desafio que é marcante para mim – acredito, também, que para outras pessoas que se propõem a escrever sobre temas marginais dentro do modelo hegemônico da ciência geográfica –, seria o acesso a referências teóricos que levem em conta a complexidade dos marcadores sociais da diferença na construção do espaço geográfico”, comenta.

Segundo José Luiz, o desafio seria propor um referencial dentro do trabalho científico que não só leve em conta a raça, gênero, sexualidade, ciclo geracional ou outros marcadores sociais da diferença, mas, que, “desestabilize pretensas certezas dentro do conhecimento já produzido e que, ao mesmo tempo, ofereça possibilidades de vislumbrar outros espaços a partir dessas realidades socioespaciais marginalizadas.”

O trabalho foi submetido ao 18º Encontro de Geografias da América Latina (EGAL) que ocorrerá no final de 2021.

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