Ouro ao sul das Minas

Pouca gente sabe, mas boa porção do que hoje conhecemos como o Sul de Minas pertenceu, até meados do século XVIII, à capitania de São Paulo. Essa época, e a igualmente esquecida exploração de jazidas de ouro na região demarcada pelos vales do Rio Verde e do Sapucaí, constituem a matéria do romance Catas (1956), do pouso-alegrense Amadeu de Queiroz, falecido no ano anterior à publicação da obra. Do mesmo escritor, já abordamos nesta coluna o livro de memórias dos 7 aos 7, também dado ao prelo em 1956.

Catas foi reeditado há dez anos pela administração municipal de Silvianópolis, cidade que originalmente se chamou Santana do Sapucaí, tendo sido fundada em 1745 (como “Arraial de Santana”) justamente para oficializar o “descoberto” de veios auríferos naquela zona. Foi a mineração que deu origem ao povoado, o qual foi, durante certo tempo, objeto de disputa entre os governos de Minas Gerais e de São Paulo, num tempo em que a corrida do ouro era a principal atividade da colônia brasileira como um todo. O substantivo que intitula a obra deriva do verbo catar, denotando, como nas “Catas Altas da Noruega” – nome da cidadezinha situada não muito longe de Ouro Preto –, a ação de procurar ouro.

Há mais história do que ficção nessa narrativa. Mesmo assim, o autor demonstra grande talento para representar grupos humanos, como neste trecho:

Não os afligia o desconforto em que viviam. As mulheres nunca mostravam as

preocupações feminis, seus cuidados pessoais eram elementares como os próprios

utensílios de asseio, que se resumiam na gamela em que se lavavam; as abastadas ou ricas

não tinham hábitos diferentes. As vestimentas é que, às vezes, as distinguiam, quando

passavam do traje comum a inesperadas roupas de luxo: sedas e veludos de alto preço;

mas, o trato íntimo era o mesmo: o escasso sabão e uma bacia de cobre rebatido,

substituindo a gamela. Aos domingos, de manhã cedo, os homens se lavavam nos

córregos vizinhos ou no tanque e, depois deles, os negros. O banho, porém, não se tornara

em hábito de asseio, era apenas a necessidade de remover do corpo o pó da areia e o joça

do mato.

Neste outro, evidencia o lastro realista de sua ficção que informa a capacidade de imaginar cenas tão longínquas no tempo:

Os compradores se aproximavam e quedavam examinando com atenção os pretos animalizados. O valor deles dependia
da figura e da procedência de cada um, e os preços variavam, subindo e descendo, como os das mulas e dos cavalos. Os mineradores
experimentados tinham o instinto das qualidades utilizáveis dos pretos e sabiam escolher
e comprar. Por muito que trapaceasse o negreiro para impingir a sua mercadoria, eles
jamais se deixavam enganar comprando cabinda por mina, benguela por angola.
Os negros do maneta apresentavam todos o mesmo aspecto: a fisionomia carregada,
A grenha espessa e endurecida, desbarbados, os pés cascudos, as mãos semi-fechadas
e as unhas recurvadas, raspadas pelo uso como a garra dos animais. Seu olhar
não tinha expressão, parava ora por apatia, ora de medo, porque eles
traziam a convicção de que na nova terra seriam devorados por canibais.
Um comprador indagou:
– São batizados?
– São.

Amadeu de Queiroz pesquisou a fundo a história das lavras sul-mineiras para empreender essa transposição imaginária. Sua escrita fluente atinge a maior densidade nas descrições da natureza, onde com frequência toca o registro poético. E, como transparece no trecho citado, seria um duplo anacronismo exigir-lhe postumamente o abrandamento de modos de dizer considerados “politicamente incorretos”.

No aspecto ficcional é que falta algo. Apesar de haver criado personagens verossímeis e até concretos na sua rudeza de bandeirantes, o autor raramente os faz moverem-se em cenas capazes de gerar empatia dramática. Há um episódio, por exemplo, em que um desses pioneiros esconde num oco de árvore as maiores pepitas de ouro encontradas em sua primeira incursão ao terreno a ser explorado; dias depois, ele vai procurá-las e, sumiram! Nas mãos de um José de Alencar – cujo estilo, porém, é muito pesado em comparação com o de Amadeu Queiroz –, esse episódio causaria uma cascata de ações dramáticas capazes de fazer o enredo mover-se em direção a um desfecho catártico; na sequência da narrativa de Catas, termina sem consequência nenhuma além da frustração do personagem, que, com tal desperdício, termina um tanto desbotado.

É verdade que Amadeu de Queiroz, numa “nota preâmbulo”, adverte nada haver encontrado “de realmente heroico ou tormentoso na penetração dos exploradores nos sertões daqueles rios”, mesmo empenhando-se em compreender “a história e a lenda”. Tendo estudado a exploração do ouro nos vales do rio Verde e do Sapucaí, explica, limitou seu relato ao Arraial de Santana porque neste a mineração foi “a mais intensa e produtiva da região, e também porque naquele lugar ocorreram, ao mesmo tempo, as primeiras contendas políticas e pessoais entre paulistas e mineiros”. A ausência de dramas humanos individualizados, os quais nem sempre transpiram espontaneamente dos documentos históricos, prejudica um pouco o interesse do romance para típicos leitores de ficção. Em contrapartida, é abundante a colheita para interessados nos aspectos mais factuais da narrativa, de que aqui vai mais um exemplo:

Estavam os paulistas, mais ou menos organizados, tratando em paz as minas, quando, nos

princípios do inverno de 1746, foram surpreendidos com a chegada de um enviado da

Câmara do Rio das Mortes, notificando que ela se achava incorporada, no Arraial de

Santo Antônio, com o propósito de tomar posse do novo Descoberto, por ser da sua

Jurisdição. E, assim, intimava ao Guarda-mor LUSTOSA que, da parte do Rei, lhe

Mandasse canoas a “fim de passarem o rio para administrar justiça no continente”.

Há, sim, um nervo ficcional que dá certa unidade ao romance. Ele é constituído pelas ações de Bento Soeiro, que logo nas primeiras páginas se engaja como tropeiro a serviço de um dos exploradores. O rapaz não tem qualquer interesse pelo ouro: antes, considera a cobiça pelo metal precioso uma espécie de maldição. Sua vontade é comprar umas terrinhas e viver da agricultura. Mais adiante, encontra aquela que seria sua companheira, a pouco graciosa Josefa, filha do ferreiro Tio Pimentel, de quem se fizera amigo logo que este chegara ao arraial. O malogro dos planos de Bento, no desfecho, não chega a ser um conflito capaz de gerar empatia.

Aquele nervo ficcional, pois, não basta para conferir ao enredo a necessária carga dramática. Ficam faltando os embates passionais que o autor não vislumbrou nos dados históricos e não quis ou não pôde inventar. O mesmo se diga do elemento feminino, que costuma ser a faísca geratriz da maioria dos dramas em ficção; Josefa é personagem um tanto inerte, e nenhuma outra mulher tem participação minimamente destacada na ação.

O que sobra mesmo é a mencionada capacidade do autor de reconstituir a atmosfera psicológica de uma coletividade, assim como o ambiente físico propriamente dito. Assim, Catas é um livro cuja importância se prende mais a História do que à ficção, ficando a dever bastante, no aspecto literário, a outras obras do escritor. Ainda assim, é leitura agradável e seus elementos especificamente ficcionais, não sendo suficientes para fazê-lo um ótimo romance, iluminam com a graça do estilo a revelação de um episódio ainda menos estudado do que merece.

 

Título: Catas
Autor: Amadeu de Queiroz
Gênero: Romance
Ano da edição: 2014
Selo: Anauá

Eloésio Paulo é professor titular da UNIFAL-MG e autor dos livros: Teatro às escuras — uma introdução ao romance de Uilcon Pereira (1988), Os 10 pecados de Paulo Coelho (2008), Loucura e ideologia em dois romances dos anos 1970 (2014) e Questões abertas sobre O Alienista, de Machado de Assis (2020). Desde 2021, colabora com a coluna “UNIFAL-MG Indica” do Jornal UNIFAL-MG e atualmente assina, no mesmo jornal, essa coluna exclusiva semanal sobre produções literárias. “Montra” significa vitrine ou espaço onde artigos ficam em exposição.

 

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