A crise que mudará o país: exilados, somos convidados a repensar nossas prioridades, nossos líderes e nosso destino

Sexta-feira, 24 de abril de 2020

                 
Por Ana Cláudia Ribeiro e João Pedro Moreira Costa – mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Gestão Pública e Sociedade da UNIFAL-MG

Albert Camus, em seu livro “A peste”, conta como a epidemia que se alastrava por uma cidade no norte da Argélia, gerava em cada um dos cidadãos uma sensação diferente de exílio e isolamento[1]. Distanciamento das próprias vidas, daqueles que amamos e das fronteiras da cidade.

Sob ataque de uma doença que ignorava fronteiras de qualquer espécie, os moradores sonhavam em acelerar o tempo para alcançar o fim da peste. Alguns resistiram, outros desistiram e outros criaram fantasias aleatórias para manter a razão. Mas, todos enfrentavam a força mordaz da separação que tocava cada um, ao se depararem com o próprio exílio.

A distância social – fundamental – imposta pela pandemia do COVID-19, também nos coloca em exílio e fomenta a reflexão sobre como nosso modus vivendi prenunciou essa crise multifacetada, que impacta sistemas e seres humanos por todo o mundo, e convida-nos a repensar o que verdadeiramente importa: a vida ou os bens materiais? O individualismo ou a solidariedade? Ideologias ou ações concretas? Soberania ou igualdade?[2]

No Brasil, tão submissos quanto estamos ao vírus, estivemos historicamente subalternos a um sistema econômico, político e financeiro que finca raízes na exploração humana e ambiental, fazendo-nos pensar em outra epidemia, que é política e crônica.[3] Seu causador, tal qual o vírus biológico, é metamorfoseado pelo tempo e disseminado pelas elites políticas assintomáticas, provocando seus principais efeitos em nós, sobretudo, aos mais vulneráveis.

Nesse contexto, onde cada grupo tenta conservar aquilo que lhe é mais caro,  experimentamos as consequências da crise e vemos que as práticas da elite político-econômica, tradicionalmente alinhadas à diminuição do Estado, em nome de uma dita “otimização” do dinheiro público e autorregulação do mercado, resultou num sistema de saúde sucateado, tornando a retórica da guerra [4] a principal alternativa para a manutenção do status quo. Com efeito, cidadãos e profissionais da saúde, respectivamente, tornam-se vigilantes do isolamento social e soldados no front de batalha contra o inimigo invisível.

Sua invisibilidade, entretanto, não é compatível com seu poder. O vírus microscópico revela o que insistimos em ignorar e, alguns, a negar: somos reféns do sistema e, na mesma medida, carentes de visões holísticas nos processos decisórios do nosso país. O Sistema de Saúde universal e integral constantemente alvejado, bem como seus profissionais frequentemente desvalorizados são as únicas esperanças diante do caos.

De modo que o antídoto contra ambas as epidemias – biológica e política – não é a segregação e sim a cooperação, seu quadro crítico é uma chamada para uma mudança paradigmática, onde aqueles que reverenciavam a “mão invisível do mercado” passam a demandar a presença do Estado em suas vidas. Situações de iminência do perigo ou da morte, que costumeiramente são atreladas à conversão de céticos em crentes, parece também ter o poder de converter neoliberais ultraconservadores em keynesianos[5].

[1] CAMUS, Albert. A peste. 26. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.

[2] BOFF, Leonardo. Coronavírus desperta o humano em nós. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2020/04/16/opiniao-coronavirus-desperta-o-humano-em-nos-por-leonardo-boff>. Acesso em: 22 abr. 2020.

[3] MIZOGUCHI, Danise Hausen; PASSOS, Eduardo. Epidemiologia Política. Disponível em: <https://n-1edicoes.org/015>. Acesso em: 22 abr. 2020.

[4] AUGUSTO, Acácio. Guerra e pandemia: produção de um inimigo invisível contra a vida livre. Disponível em: <https://n-1edicoes.org/018>. Acesso em: 22 abr. 2020.

[5] SANTANNA, Denise Bernuzzi de. Lavar as mãos, descolonizar o futuro. Disponível em: <https://n-1edicoes.org/006>. Acesso em: 21 abr. 2020.

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