Em entrevista sobre a dengue, pesquisador da UNIFAL-MG fala sobre o controle do mosquito e as alternativas vacinais desenvolvidas na UNIFAL-MG

O levantamento do Ministério da Saúde sobre a dengue, zika e chikungunya, divulgado no dia 13 de abril, mostra que foram registrados 451.685 casos prováveis (casos confirmados + suspeitos) de dengue no Brasil, um aumento de 339,9% em relação ao mesmo período do ano passado. Em Minas Gerais, o registro foi de 247.602 casos prováveis de dengue em 2019. Até o momento, foram confirmados 38 óbitos por dengue, sendo um deles em Passos, na região sul-mineira. Esse aumento supera a média nacional e coloca Minas Gerais em 4º lugar entre os estados brasileiros com alta incidência da doença – incidência maior que 100 casos por 100 mil habitantes.

Para conter o avanço dos casos no estado, há uma série de medidas orientadas para enfrentamento do mosquito Aedes aegypti e estruturação de serviços de atendimento às pessoas infectadas pelo vírus causador da doença. A fim de repercutir o tema, a Diretoria de Comunicação Social (Dicom) da UNIFAL-MG conversou com o professor de Ciências Biológicas, Luiz Felipe Leomil Coelho, pesquisador da área de Microbiologia que desde 2006 estuda a dengue e alternativas vacinais, em parceria com o professor Luiz Cosme Cotta Malaquias, acadêmicos e outras instituições. Na entrevista, o pesquisador fala sobre o controle do mosquito e como é desenvolvido o estudo com vacinas no Laboratório da Universidade.

1- Prof. Luiz Felipe, os dados divulgados recentemente pelo Ministério da Educação e pela Secretaria de Estado de Minas Gerais reforçam cada vez mais a necessidade de contarmos com o desenvolvimento de vacina contra a dengue. Você poderia explicar a proposta dos estudos da vacina contra a dengue na UNIFAL-MG e quais são os avanços desses estudos?
Prof. Luiz – A dengue é uma arbovirose transmitida por mosquitos fêmeas infectadas do gênero Aedes. Até o presente momento, a atual estratégia de combate à doença se baseia no controle da população do mosquito transmissor (vetor). Dados históricos têm mostrado que esta estratégia é ineficaz, pois temos ainda em nosso país, anos em que o número de casos aumenta de forma exponencial. Este número de casos de pessoas com dengue é reflexo direto da falha de controle da população de mosquitos nas cidades, especialmente, nos grandes centros urbanos. Desta forma, uma estratégia para combate à doença seria a vacinação. Um indivíduo imunizado, não é infectado ou se for, ocorre uma baixa multiplicação do vírus em seu corpo, impedindo assim, a transmissão do vírus a outros mosquitos. Se o vírus tem dificuldade de se multiplicar no ser humano, novos mosquitos não são infectados e, com isso, os números de casos tendem a diminuir. Baseado neste princípio, o Laboratório de Vacinas da UNIFAL-MG tem buscado desenvolver novas alternativas vacinais para a prevenção da dengue. Entre as abordagens estudadas, estão as vacinas compostas por peptídeos (biomoléculas formadas pela ligação de dois ou mais aminoácidos) através de ligações peptídicas, estabelecidas entre um grupo amina de um aminoácido, e um grupo carboxilo do outro aminoácido e as vacinas compostas por nanopartículas de albumina sérica bovina. A intenção destas duas plataformas é induzir uma resposta imune protetora que seja capaz de induzir imunidade protetora contra os quatro sorotipos de dengue, ao mesmo tempo.

“Este número de casos de pessoas com dengue é reflexo direto da falha de controle da população de mosquitos nas cidades, especialmente, nos grandes centros urbanos. Desta forma, uma estratégia para combate à doença seria a vacinação. Um indivíduo imunizado, não é infectado ou se for, ocorre uma baixa multiplicação do vírus em seu corpo, impedindo assim, a transmissão do vírus a outros mosquitos.”

2- Quando esses estudos foram iniciados?
Prof. Luiz – Essa linha de pesquisa se iniciou em 2012 e se encontra em atividade até o momento. Além da pesquisa de vacinas para a dengue, foram incluídas pesquisas para o desenvolvimento de vacinas para o vírus do zika e para infecções causadas pela bactéria Pseudomonas aeruginosa (um importante patógeno causador de infecções hospitalares).

3- Além de você e do professor Luiz Cosme, há outros pesquisadores envolvidos nesses projetos? Quem são? Estudantes de quais cursos também participam dessas pesquisas?
Prof. Luiz – Vários alunos dos cursos de Farmácia, Biotecnologia e Ciências Biológicas estiveram envolvidos no desenvolvimento desses projetos. Além disso, alunos do curso de Pós-Graduação em Ciências Biológicas também desenvolveram suas dissertações baseadas neste tema. Existe colaboração com professores de outras instituições, tais como USP, UFOP e UFMG.

4- Existe alguma analogia ou forma fácil de explicar quais são os métodos aplicados no desenvolvimento desses estudos?
Prof. Luiz – Nós trabalhamos com proteínas extraídas ou sintetizadas destes patógenos e inserimos estas dentro de algumas nanopartículas. Nanopartículas são estruturas bem pequenas (cem mil vezes menor do que 1 milímetro). Estas nanopartículas irão conter as proteínas de interesse e o que a gente faz depois é injetar estas formulações vacinais em um animal de laboratório. Após a vacinação destes animais, realizamos uma série de experimentos para verificar se ele produziu anticorpos protetores, ou seja, se o animal vacinado pode combater a infecção pelos quatro sorotipos da dengue.

5- Como a população pode entender a maneira com que esses estudos são feitos no laboratório da Universidade?
Prof. Luiz – São estudos importantes, pois um resultado positivo poderá gerar uma tecnologia nova, uma nova vacina. Esta poderá ser utilizada no SUS e ser disponibilizada para toda a população brasileira. Se isso se concretizar, teremos uma redução drástica no número de casos de dengue clássica e dengue hemorrágica.

6- Em relação aos resultados já encontrados, o que podemos destacar?
Prof. Luiz – O desenvolvimento de uma vacina tetravalente para a dengue é muito difícil. Conseguimos mostrar que a nossa vacina induz muitos anticorpos, porém, ainda é necessário melhorar a ação destes. Apesar de os animais imunizados produzirem uma elevada produção de anticorpos para o vírus da dengue, esses anticorpos não foram capazes de gerar proteção. Estamos modificando as formulações para verificar se conseguimos contornar este resultado e obter uma vacina mais eficaz.

7- Sabemos que somente esperar pela vacina não vai impedir que o vírus circule, portanto, quais são as alternativas que podemos buscar?
Prof. Luiz – O que podemos fazer no atual momento é o que é sempre vinculado na mídia. Tentar eliminar os criadouros do mosquito é a melhor opção.

8- O que você, como pesquisador da área, acha importante ressaltar para a população a respeito do ciclo de vida do mosquito Aedes aegypti a fim de orientar sobre os hábitos que são necessários adotar no dia a dia?
Prof. Luiz – O mosquito vem se adaptando ao nosso modo de vida. Antigamente, os mosquitos eram capazes de colocar seus ovos somente em água parada e limpa. Hoje inúmeros trabalhos mostram que os mosquitos podem se reproduzir em água suja e até no esgoto. O que devemos fazer é sempre ficar de olho nos possíveis criadouros e tentar eliminá-los. Caso encontre algum foco do mosquito, temos que eliminar e avisar as autoridades competentes.

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