Minicurso inédito na Universidade analisa o “travestismo discursivo” identificado em trabalhos de escritoras latino-americanas divulgados na mídia

“Travestismo discursivo” foi tema de minicurso inédito promovido na UNIFAL-MG pelo grupo de pesquisa “Literatura, Linguagem e Outros Saberes” nos dias 13 e 14/05. O objetivo da atividade foi proporcionar um espaço para discutir as relações entre literatura e jornalismo, a partir da linguagem e estratégias discursivas empregadas pelas escritoras latino-americanas Alfonsina Storni, Clarice Lispector e María Moreno, em seus trabalhos na mídia, em diferentes momentos históricos.

O minicurso se baseou no livro “Crônicas travestis” da professora Mariela Méndez, da Universidade de Richmond, Virgínia, Estados Unidos, convidada para a atividade na UNIFAL-MG, que em sua obra mostra como Storni, Lispector e Moreno trans-vestem a “coluna/página feminina”, transformando-a em um espaço incômodo. “Trata-se de três escritoras incômodas com a seção feminina e dispostas a incomodar o público leitor feminino que por sua vez interroga os modos prescritivos de ser mulher na América Latina”, conta Profa. Mariela.

A palestrante, convidada pela professora Aparecida Maria Nunes do Instituto de Ciências Humanas e Letras da UNIFAL-MG, ministrou o minicurso para cerca de 100 participantes.

Segundo Profa. Aparecida, que é pesquisadora da produção jornalística de Clarice Lispector desde 1983, a proposta do minicurso foi percorrer uma possível genealogia entre as escritoras Alfonsina Storni (Argentina, 1892-1938), Clarice Lispector (Brasil, 1920-1977) e María Moreno (Argentina, 1947-) por meio de análise das “páginas femininas” compostas por elas para jornais e revistas. “As três escritoras subvertem a página dirigida às mulheres em três momentos históricos, sociais e políticos fundamentais na Argentina e no Brasil”, afirma, citando a modernização da Argentina decorrente em parte dos fluxos migratórios, o desenvolvimentismo brasileiro e a pós-ditadura argentina como os períodos  os períodos de produção das escritoras.

Quem participou do minicurso, logo no primeiro dia identificou as páginas destinadas às mulheres, criadas pela escritora argentina Alfonsina Stornipara a revista literária La Nota e o jornal La Nación entre 1919 e 1921, e pela escritora Clarice Lispector nos jornais Correio da Manhã e Diário da Noite entre 1959 e 1961. Conforme Profa. Aparecida, as páginas compostas pelo escritor cubano Alejo Carpentier, sob o pseudônimo Jacqueline, para o jornal Cubano Social entre 1925 e 1927 ajudam a entender os gestos transgressores das duas escritoras. “Utilizando pseudônimos ou heterônimos, Lispector e Storni realizam uma intervenção discursiva e retórica que questiona as categorias de sexo e gênero, enquanto Carpentier fica atrelado ao binarismo feminino-masculino”, comenta.

No segundo dia, a aula se concentrou no trabalho da cronista argentina María Moreno e a sua intervenção no suplemento La Mujer” no jornal Tiempo Argentino e no jornal Alfonsina nos anos 1980. “Após leitura dessas duas seções dirigidas às mulheres, o jornal El Teje: Primer periódico travesti latinoamericano ofereceu uma lupa ou lente de aumento que fez com que pudéssemos ver de perto as fraturas dos corpos nas colunas claricianas e stornianas”, metaforiza Profa. Aparecida.

Ao comentar a importância de ministrar atividades que abordam questões de gênero aos discentes da UNIFAL-MG, Profa. Aparecida afirma que, pelo fato de o foco ser o jornalismo, pode encorajar os estudantes a pensar na presença dessas questões na mídia a que estão expostos, ao mesmo tempo que pode ser uma leitura útil para outras áreas como comunicação social, história e sociologia, bem como para estudantes com interesse em questões de gêneros e sexualidades.

A polêmica do termo “travestismo”

Profa. Mariela desmistificou a polêmica que existe em torno do termo “travestismo”, sobretudo, para quem não participou do minicurso. Para a palestrante convidada, o travestismo aponta para um terceiro espaço de possibilidade que vai além do binarismo. “Na minha pesquisa, o travestismo é um conceito que faz com que possamos articular a transgressão discursiva e retórica das colunas e seções analisadas. Esses espaços apresentam o travestismo através do uso de pseudônimos e heterônimos, a sobreposição e exacerbação de gestos, acessórios e poses ligados ao culturalmente construído como feminino, a mistura e reciclagem de materiais, de assinaturas, de conteúdos e de formas, a criação de uma linguagem e de um estilo excessivos e barrocos, e a performance excessiva da feminidade e seus atributos”, esclarece. Segundo ela, os códigos da coluna, o repertório prescrito de receitas, instruções e conselhos espelha a retórica do vestir, nomear e atuar presente no gesto travesti.

Sobre a participação como ministrante do curso na Universidade, a convidada destacou ter sido um momento muito rico pela oportunidade de dialogar com os discentes e colegas docentes que se dedicam a explorar outras visões sobre a temática. “Foi uma experiência incrível. O diálogo com estudantes e colegas tão engajados em procurar outros olhares sobre os conceitos de classe, gênero e sexualidade e tão interessados em novos autores e novas escritas foi bem enriquecedor, até o ponto de afirmar que para mim foi a culminância de um processo de pesquisa que começou faz mais de 10 anos e que foi inspirado pela professora Aparecida Maria Nunes. Jamais vou esquecer essa experiência”, finalizou.

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