No Dia Nacional da Astronomia, astrofísico fala sobre as pesquisas e projetos desenvolvidos no Observatório Astronômico da UNIFAL-MG e sobre o fascínio dessa ciência nos seres humanos

Se fizermos a pergunta “o que você quer ser quando crescer?” para um grupo de crianças, é quase certo que, pelo menos, uma delas vai dizer: astronauta! E as bases para esse encanto, muitas vezes ampliado pela ficção científica no cinema e na literatura, é uma ciência com data comemorativa nacional reconhecida por lei: a Astronomia, comemorada no dia 2/12.

Galáxia Sombreiro: a primeira luz captada pelo Observatório Astronômico da UNIFAL-MG. (Foto: Arquivo/Observatório Astronômico)

Na UNIFAL-MG, a Astronomia é estudada no curso de Física, em nível de graduação e pós-graduação e, um dos principais apoios acadêmicos para o desenvolvimento de atividades de ensino, pesquisa e extensão é o Observatório Astronômico, localizado na Unidade Santa Clara, em Alfenas. O observatório foi criado com recursos institucionais e de projetos aprovados na FAPEMIG e no CNPq pelo professor Artur Justiniano Roberto Júnior, do Instituto de Ciências Exatas (Icex), a partir de 2009.

A “inauguração” do observatório da UNIFAL-MG foi em 2014 e a primeira luz captada foi da galáxia do Sombreiro, localizada a mais de 29 milhões de anos-luz de distância da Terra. De acordo com Prof. Artur Justiniano, coordenador, pelos instrumentos do observatório é possível observar os astros do sistema solar, galáxias próximas e aglomerados de estrelas.

O local também é utilizado no desenvolvimento de atividades vinculadas ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) e à Residência Pedagógica. Conforme o professor, duas dissertações de mestrado foram defendidas com dados coletados no observatório e, atualmente, o mestrando José Carlos Silva e o graduando João Carlos Pereira Alves coletam dados sobre o trânsito de exoplanetas para suas pesquisas.

 

Uma das atividades do “Projeto Minas for Science” foi realizada no Observatório Astronômico da UNIFAL-MG, em 2019.  A atividade envolveu 38 pessoas na equipe de organização e atendeu 380 estudantes de escolas da região.  A oficina foi coordenada pelo professor Artur Justiniano com participação de discentes do 7º período de Física e abordou observação do céu, utilização do Simulador do Movimento dos Astros (SMA) no aplicativo Astro 3D desenvolvido na UNIFAL-MG, conceitos de Astronomia em contraposição à Astrologia e “construção” de constelações com miçangas e outros produtos. De acordo com a professora Márcia Cordeiro, coordenadora do “Minas for Science”,  a atividade foi muito positiva mostrando a integração entre ensino, pesquisa e extensão. Ela conta que a atividade gerou trabalhos científicos entre os estudantes, mas destaca a decisão da estudante T.C., de uma escola de ensino médio de Alfenas, em cursar Astronomia ou Física na UNIFAL-MG, após ter participado da oficina.

“Na pesquisa, fazemos acompanhamento regular de estrelas hospedeiras de exoplanetas. Dessas observações nós detectamos o trânsito do exoplaneta WASP 76b e desenvolvemos uma rotina para observação desse fenômeno com telescópios de pequena abertura. Somos pioneiros no Brasil nesse tipo de observação com telescópios pequenos, como os inúmeros espalhados nas universidades públicas. Isso nos permite participar de projetos maiores de monitoramento de estrelas hospedeiras de exoplanetas”, explicou Artur Justiniano. Parte da pesquisa foi publicada no artigo “Detecção do trânsito planetário de um exoplaneta com um telescópio de pequena abertura”, disponível para leitura e download na plataforma Scielo.

Visitação Pública

Além de espaço para atividades acadêmicas universitárias, o Observatório Astronômico da UNIFAL-MG recebe visitas de escolas da cidade e região e de famílias interessadas na observação dos astros. “O observatório está aberto de abril a setembro para a visitação pública. Geralmente, na quarta-feira. Mas também é possível agendar visitas para escolas e grupos de pessoas”, destacou o professor.

A família do servidor Marcel Silva visitou o Observatório Astronômico em duas ocasiões. (Foto: Arquivo Pessoal/Marcel Silva)

O servidor público Marcel Pereira da Silva, do campus Varginha, é um dos visitantes do observatório. Em duas ocasiões, ele visitou o local com a família. “A observação astronômica é algo fabuloso, mas ainda é um mundo um pouco distante para a maioria das pessoas. E ter uma visita/observação guiada é excelente para a divulgação desse conhecimento”, relatou.

O estudante Aram Lara Resende Silva, de 11 anos, é o principal companheiro de Marcel na visita ao observatório. De acordo com o pai, ele tem interesse nesse assunto. “Achei que seria uma forma de estimular mais. Acho que esse conhecimento é fundamental para crianças, pois leva a um ‘mundo novo’, além de estimular a imaginação e curiosidade”. Para Marcel da Silva, que é doutor em História, além de incentivar a curiosidade do filho, o equipamento é outro atrativo do observatório. “Conferir de perto um telescópio eletrônico, por exemplo, é algo ainda mais difícil de ver”, concluiu.  Para ver o telescópio em movimento, assista o vídeo.

 

O “Céu” e seus fascínios

Para receber o público, o Observatório Astronômico realiza ações para observação de astros específicos e eventos astronômicos, entre eles, a noite de observação da Lua, observação dos planetas, eclipse e até um evento temático no Dia dos Namorados. “A investigação do céu foi uma das primeiras atividades realizadas pelos nossos ancestrais. No início eles viam no céu a morada dos deuses e isso independe da cultura. Americanos, assírios, chineses, africanos, entre outros povos, todos possuem uma mitologia sobre o Céu e o seu poder sobre a nossa vida aqui na Terra”.

Imagens captadas pelo Observatório Astronômico da UNIFAL-MG: Galáxia M8, popularmente chamada Cata-vento do Sul (1), eclipse (2), lua (3). (Crédito: Arquivo/Observatório Astronômico)

A explicação desse “fascínio”,  para o Prof. Artur, ocorre no fato de o céu se parecer como imutável, perfeito e incorruptível para os seres humanos. “Ou seja, é a morada de tudo aquilo que não sofre transformações: deuses. Diferente da Terra onde tudo se transforma, nasce, cresce e morre. Por isso, eles acreditavam que nossa vida era controlada pelos deuses, como o Sol, a Lua e os Planetas”. Conforme o professor Artur, essa percepção durou até o início do século XVII e, com advento da revolução copernicana e as descobertas de Tycho Brahe, Johannes Kepler, Galileu Galilei e Isaac Newton, começou a nascer a Astronomia como é estudada hoje.

A Astronomia, como estudada hoje, nasceu com os estudos de Tycho Brahe (1), Johannes Kepler (2), Galileu Galilei (3) e Isaac Newton (4). (Fotos: Reprodução)

Ao falar sobre a importância do estudo da Astronomia, o astrofísico relata: “Ao longo da história a nossa espécie tem usado o céu para navegar nos vastos oceanos, para decidir quando plantar suas safras e responder perguntas sobre ‘de onde viemos e como chegamos aqui’. A Astronomia nos ajuda a entender o nosso lugar no Universo e a forma como vemos o mundo”.

Ele confessa que ainda há muitas perguntas sem resposta. “As pesquisas atuais buscam respostas sobre a origem do universo, sobre como será o seu fim, se há vida em outras partes da galáxia, se existe planetas semelhantes à Terra com condições de ter vida, sobre a natureza dos buracos negros, ondas gravitacionais, entre outras. Não podemos esquecer que o século XXI deve ser marcado pela ocupação da Lua e de Marte e pelo começo da exploração de asteroides. Esses corpos celestes possuem grandes quantidades de elementos químicos valiosos para a nossa sociedade tecnológica como ferro, ouro, níquel, nitrogênio, hidrogênio e fartas reservas de água”, ressaltou.

Astronomia x Astrologia

Prof. Artur Justiniano Roberto Jr.: docente da UNIFAL-MG, astrofísico e coordenador do Observatório Astronômico. (Foto: Arquivo pessoal/Artur Justiniano)

Uma confusão frequente de algumas pessoas é a relação entre Astronomia e Astrologia. Para uma breve definição e diferenciação, recorremos ao Dicionário Michaelis:  Astronomia é a “ciência que estuda a constituição e o movimento dos astros, suas posições relativas e as leis dos seus movimentos” e Astrologia é o “estudo e prática de prever e revelar a influência dos astros no destino dos homens, nos acontecimentos terrestres e nos fenômenos atmosféricos”.

Sobre essa “confusão”, o professor Artur Justiniano confirma a recorrência. Ele mesmo teve que explicar várias vezes. “Diferente da Astronomia, a astrologia não é uma ciência. Ambas nasceram na Mesopotâmia, há cerca de 3000 a.C, no vale dos rios Tigre e Eufrates, no atual Iraque, muito antes da formulação das teorias gravitacional e eletromagnética e da Teoria da Relatividade. Com essas teorias ficou comprovado que o efeito dos astros nas pessoas é completamente desprezível, insignificante perto dos efeitos dos outros corpos na própria Terra, por exemplo. A característica fundamental da ciência é basear-se na observação da natureza e na experimentação. Os efeitos das posições dos planetas e da Lua em qualquer pessoa na Terra nunca foram demonstrados em qualquer estudo sistemático, por isso não podemos considerar a astrologia como uma ciência, mas sim uma pseudociência”.

 

Dia Nacional da Astronomia e as contribuições da ciência

A comemoração do Dia Nacional da Astronomia em 2/12 é uma homenagem ao nascimento de Dom Pedro II. O imperador era um entusiasta da Astronomia e foi responsável por equipar o Observatório Nacional, fundado por Dom Pedro I, em 1827, no Rio de Janeiro. A data foi oficializada pela Lei  Nº 13.556, de 21 de dezembro de 2017.

O Dia da Astronomia Nacional é comemorada em 2/12 em homenagem ao nascimento de Dom Pedro II. (Foto: Reprodução/Retrato por Mathew Brady, 1876)

O Brasil possui pesquisas relevantes na área e integra consórcios internacionais importantes, entre eles, os telescópios Gemini (Gêmeos) de 8 metros,  instalados a 2700 metros de altitude no Deserto do Atacama, no Chile e à 4220 metros em Mauna Kea, no Havaí.  O CFHT (Canada, França, Havaí Telescope) também instalado em Mauna Kea. O telescópio SOAR (Southern Astrophysical Research), de 4.1 metros, instalado no Chile. Outro centro de destaque é o observatório do Pico dos Dias (OPD), do Laboratório Nacional de Astrofísica, sediado em Itajubá.

Conforme o professor Artur Justiniano, as pesquisas em Astronomia estão na vanguarda da ciência, da tecnologia e impulsionam a inovação por exercer uma “pressão constante” por novos instrumentos, processos e softwares cada mais precisos. Algumas das contribuições estão nas áreas de óptica e eletrônica que chegaram à sociedade em computadores pessoais, celulares, GPS, painéis solares, scanners de imagem por ressonância magnética e satélites de comunicação. “Em 2009, Willard S. Boyle e George E. Smith receberam o Prêmio Nobel de Física pelo desenvolvimento de um dispositivo que hoje é amplamente utilizado na indústria. Os sensores para captura de imagens astronômicas, conhecido como Charge Coupled Devices (CCDs). Eles foram usados pela primeira vez na Astronomia em 1976. Em poucos anos eles substituíram as placas fotográficas não apenas em telescópios, mas também em câmeras pessoais, webcams e dispositivos móveis”, concluiu o coordenador do Observatório Astronômico da UNIFAL-MG.

Serviço: Observatório Astronômico da UNIFAL-MG
Endereço: Unidade Santa Clara – Prédio “F” (Icex) Av. Jovino Fernandes Sales, 2600, Bairro Santa Clara, Alfenas/MG.
Visitação: suspensas devido à pandemia de Covid-19
Informações por e-mail: observatorio@unifal-mg.edu.br ou artur.roberto@unifal-mg.edu.br

Colaboração: Professor Artur Justiniano Roberto Jr., docente do Instituto de Ciências Exatas (Icex), da UNIFAL-MG.

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