A quem se interesse por livros loucos

Qual foi o livro mais louco que você já leu? Se esta resenha o (a) convencer à leitura de Pescar truta na América (1967), provavelmente essa obra do norte-americano Richard Brautigan (1935-1984) passará a ocupar a posição. É absolutamente desconcertante, tanto que, à primeira vista, é bem difícil alguém conseguir atinar com a razão de ela ser considerada um romance. O mais engraçado é que, no final das contas, é possível achar o denominador comum entre os disparatados 40 capítulos que a compõem. Senão, vejamos.

Começando pelo título: a que se refere? “Pescar truta na América” não denomina a ação que descreve. É, sucessivamente, objetos e fenômenos muito diferentes: pessoas, matéria-prima de uma roupa, nome de um hotel barato em Los Angeles, recurso para “lembrar nomes dos filhos de casamentos anteriores”, nome de uma cidade, posicionamento ideológico (“passeata Pescar Truta na América”). Essa instabilidade gera, logo de início, aquilo que corresponderia ao suspense num romance comum: afinal, quando vou saber o que diabos é Pescar Truta na América?

Os capítulos tendem quase sempre ao nonsense. Mas o nonsense não é, sabemos pelo menos desde Lewis Carroll e Edward Lear, apenas falta de sentido: é uma armadilha para capturar os sentidos escondidos do Real, ou sua falta de sentido expressa no que chamamos “realidade”. Um pouco nesse diapasão é composto o livro, que também às vezes alinhava ao movimento geral do nonsense perfeitos contos realistas, com personagens e cenários perfeitamente caracterizados. Mas como eles se articulam a um tronco principal? Esse tronco existe? Da necessidade de fazer constantemente esse tipo de pergunta é que se alimenta a narrativa, na qual só aos poucos vamos percebendo algumas continuidades. Por exemplo, há em vários capítulos um narrador que viaja com uma mulher e um bebê, mas essas viagens não parecem obedecer a nenhuma lógica senão a de um infindável piquenique nacional em que, por diversos ângulos, apresenta-se o objetivo de pescar trutas em rios do interior dos Estados Unidos.

O diálogo entre continuidade e descontinuidade, expressando-se na sucessão de estilos e gêneros textuais diferentes, por vezes toca as cordas da poesia. É que Brautigan, antes de escrever ficção, foi principalmente poeta, assim como (você já deve ter adivinhado) um acabado louco de pedra, rotulado ainda jovem como esquizofrênico e tratado com eletrochoque nada menos que 12 vezes. Mas era um louco a bordo de certo método, como disse Polonius a respeito de Hamlet, e fazia parte de seu método expressar-se numa linguagem terrivelmente surpreendente. Veja estas amostras:

(1) O sol parecia uma enorme moeda de cinquenta centavos que alguém tivesse banhado em querosene e tocado fogo com um fósforo e pedido, “Segure isto enquanto vou comprar um jornal”, e posto a moeda em minha mão e nunca mais voltado. 

 

(2) A livraria era um estacionamento de cemitérios usados. Milhares de cemitérios arrumadinhos em filas como automóveis. A maioria dos livros eram obras esgotadas, ninguém queria lê-los mais, e as pessoas que os haviam lido tinham morrido ou esquecido deles, mas pelo processo orgânico da música os livros tinham recuperado a virgindade. Ostentavam seu antigos copyrights como novos himens.

Os títulos dos capítulos corroboram a imprevisibilidade e o desconcerto do leitor: “Ki-suco para o Bebum”, “Pescar truta entre tumbas”, “Última referência ao Anão de Pescar Truta na América”. Acrescente à receita o uso frequente de linguagem chula, por meio da qual atos fisiológicos são chamados sempre por seu nomes populares. E, por falar em receita, seremos informados no penúltimo capítulo que o livro devia forçosamente terminar com a palavra “maionese”, o que de fato ocorre.

Ao longo desse percurso enlouquecido, porém, os leitores mais atentos talvez percebam que, passeando por uma América cuja geografia se faz tão caótica quando a mente do narrador – porque existe um, que reaparece de vez em quando e nunca se nomeia –, o que Brautigan mais encontra são ruínas. Livros assim, que o digam os benjaminianos, costumam usar a fragmentação como alegoria; então, Pescar Truta na América talvez deva ser lido como um modo estapafúrdio de expressar, e talvez seja o único modo possível para um louco naquele grau, que não existiam os Estados Unidos oficiais, aqueles em que até hoje acreditam os ignorantes a respeito da “América profunda”, feita também de pobreza e desespero, pois a América “muitas vezes é apenas um lugar na mente”.

Em tempo: uma lista dos livros mais loucos na literatura brasileira seria mais ou menos assim (por ordem decrescente) –  No coração dos boatos (1984), de Uilcon Pereira; Serafim Ponte Grande (1933), de Oswald de Andrade; Panamérica (1967), de José Agrippino de Paula Confissões de Ralfo (1975), de Sérgio Sant’Anna;  A Lua vem da Ásia (1963), de Campos de Carvalho; e Macunaíma (1928), de Mário de Andrade.