Depois, vêm a anta e o curupira

Sorte que não havia, entre os arquitetos do recente surto neofascista brasileiro, ninguém mentalmente apto como Plínio Salgado, líder do movimento integralista, que foi a versão local do fascismo de Mussolini. O escritor modernista (sic), nascido em São Bento do Sapucaí (SP), terminou seus dias como deputado da ARENA, o partido da ditadura militar cujos remanescentes e filhotes (diria o engraçado Brizola) estão hoje espalhados pelo leque de legendas, e botem legenda nisso, da centro-direita fisiológica – mas…

… Plínio Salgado era um sujeito preparado, tanto que conseguiu produzir o romance O estrangeiro (1926), bem razoável e melhor que muita ficção pretensamente esquerdista; deve ser o melhor de seus milhares de textos em defesa de uma paradoxal versão do cristianismo na qual Jesus – ou, mais precisamente, os sucessores católicos de Pedro, os papas – não chicotearia os mercadores do templo, e, bem ao contrário, se uniria a eles num angélico e sublime coro profético anticomunista. Essa concepção político-religiosa, tão afim ao fanatismo atual, feito da convicta negação de evidências, perpassa também o romance, cujo personagem principal é, sintomaticamente, um russo.

O enredo principia com Ivã (nome avulso, sem patronímico) chegando de trem a São Paulo, onde se hospeda numa pensão junto com outros imigrantes. Dali, parte para Mandaguari, imaginariamente situada no interior paulista (mais tarde, esse seria o nome de um município paranaense). Já no caminho, trata de aprender o português por meio da leitura de jornais; contratado como trabalhador de eito numa fazenda de café, logo faz amizade com o pedagogo nacionalista Juvêncio, uma espécie de Policarpo Quaresma a sério, no qual talvez não seja absurdo ver a projeção do próprio ficcionista.

Ivã havia emigrado por conta de certa desilusão amorosa e também por ter-se metido em conspiração contra o czar da Rússia. Não tem aptidão para o trabalho na lavoura, mas logo arranja sócio endinheirado para sua ideia de montar uma indústria (de quê? Se o resenhista não se distraiu, não dá para saber o que o russo fabricava) na capital paulista. Antes da mudança para lá, estabelece relações com a família do italiano Carmine Mondolfi, que, de boia-fria, em poucos anos se tornará um grande fazendeiro graças ao trabalho duro, à sorte e à indispensável esperteza dos vocacionados a enriquecer. Essa trama tem sua graça e não deixa de evocar as embrulhadas financeiras contidas em Memórias sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade. Há também, na fórmula, elementos da sátira de Monteiro Lobato ao atraso mental do caipira paulista.

Fica para leitores menos atarefados pesquisar se a semelhança de certas passagens do livro com a linguagem veloz do texto oswaldiano é emulação ou resultado da influência comum do Futurismo. Plínio Salgado, porém, aderiu ao programa fascista da vanguarda liderada por Filipo Marinetti, ao contrário de Oswald, que levou o ímpeto revolucionário ao ponto de aderir ao Partido Comunista. No quesito estilo, é possível contabilizar a favor de O estrangeiro algumas passagens que flertam com a linguagem poética e uma ou outra expressão irônica de sabor machadiano.

Como convém a uma obra de ficção, a narrativa é pontilhada por dramas cujos personagens lutam e sofrem como gente de carne e osso. Existem nela amores proibidos, injustiça social e uma quantidade desproporcional de enterros – quatro, sem contar o de Maria de Lourdes, mulher do poeta parnasiano Lulu, para o qual o leitor não é convidado; ela aborta um filho de Ivã e morre em decorrência do procedimento desastrado feito por uma parteira. É curiosa, por sinal, a referência – sem discurseira moralista – ao aborto por um escritor católico naquela época, assim como à homossexualidade de um dos rapazes desocupados na noite paulistana, filhos de famílias recém-enriquecidas ou com falência engatilhada.

Enquanto os Mondolfi prosperam no interior, Ivã vai-se tornando um bem-sucedido industrial em São Paulo, apesar de repartir os lucros de sua empresa com os operários. Essa atitude é coerente com o passado do russo em sua pátria, mas o narrador não perde a chance de tascar no comunismo, numa nota de rodapé, a pecha de “Anticristo”. Haveria muito o que debater a respeito da qualidade filosófico-religiosa da imputação, pois está claro no Apocalipse que o Anticristo será uma pessoa, não um fenômeno político-social. Bem, isso importa menos.

Importa mais que, se fosse possível excluir do romance suas incursões manifestamente doutrinárias, ele poderia ser boa leitura. Tal operação, porém, é inviável, pois escritores assim, sejam de esquerda ou de direita, e mesmo quando capazes de opiniões lúcidas (nem em tudo os extremistas estão errados), escrevem para pregar ideias e não apenas para representar no mundo imaginário a condição humana. A crítica de Plínio Salgado ao materialismo se espelha coerentemente no comportamento de seus personagens, e não faltam o coronelão que morre insolvente por esbanjar sua fortuna em esbórnias nem os filhinhos de papai combinando um “racha” na rodovia para Mogi das Cruzes, a ver qual deles conseguia superar a marca espantosa de 70 quilômetros por hora.

Importa ainda mais o desfecho que quase estraga por completo a obra. Como preparação para ele, Ivã resolve envenenar todos os seus empregados e a si mesmo na celebração do Ano Novo. Nesse quase genocídio se alista, chegada de última hora e num lance muitíssimo inverossímil, a antiga namorada russa do industrial. De repente, o autor parece dar-se conta de quão improvável era aparecer por ali uma tal Ana Petrovna, e justamente a pedir emprego na fábrica de Ivã; então, pouco antes de expirar, a mulher protesta que Ivã havia cometido um engano, ela não era a tal ex-namorada.

Coroando o desastrado arremate, vem o narrador esclarecer que havia estado a transcrever uma obra escrita pelo próprio Juvêncio – ah, disso já desconfiávamos… – e que Ivã não passava de um personagem inventado pelo outro. Felizmente, também nos informa que Juvêncio, ao reler o capítulo final do romance, havia-o considerado “patético”, e por fim adita a explicação muito necessária de que “o criador de Ivã pode muito bem ter sido uma mera criação”.

No ano seguinte à publicação de O estrangeiro, Plínio Salgado escreveu o manifesto estético-político A anta e o curupira, destinado a contrapor-se à tônica esquerdista da Semana de Arte Moderna. Fazia muito sentido.