17 mulheres notáveis

É a própria autora quem diz, na conclusão de Histórias de mulheres (1996), não ter pretendido fazer hagiografias, e sim pequenos estudos sobre mulheres notáveis. Seu conceito de notabilidade é muito pessoal, e, no caso das 16 biografadas pela espanhola Rosa Montero nesse livro, ser uma mulher notável significou, em geral, ser infeliz. Como as existências originais também foram acompanhadas, em alguns casos, de traços de caráter muito duvidoso, já se pode descartar, de saída, um panegírico da feminilidade à moda idealista do costumeiro xadrez de palavras ideológico a que certa militância estreita reduz a luta histórica das mulheres pela dignidade.

Rosa Montero é uma escritora brilhante. Sua obra inclui o ótimo romance A filha do canibal (1997) e o excelente ensaio autobiográfico A louca da casa (2003), muito esclarecedor do papel existencial da literatura. Ambos estão disponíveis em português e merecem muito ser conhecidos. O mesmo vale para Histórias de mulheres, que resulta de uma série de artigos publicada no jornal El País, o mais importante da Espanha. As personagens retratadas foram todas, de algum modo, “anormais” se considerados os padrões de suas épocas, e cada texto evidencia que a autora leu tudo o que de importante se escreveu a respeito de suas vidas. Quando trata de escritoras, Rosa Montero demonstra ter lido também suas obras, de maneira que os textos são profundos, abrangentes e isentos da tola pretensão de esgotar o tema. A própria interrupção do projeto, diz Montero, foi motivada pelo cansaço, pois haveria muito mais personagens que mereceriam ser retratadas.

Quanto a Simone de Beauvoir, por exemplo, a pesquisa da espanhola apurou fatos um pouco embaraçosos para essa “madroeira” do feminismo, além de ter levado à conclusão de que sua ficção era pouco original, pois, de acordo com Montero, Beauvoir nada criava de propriamente ficcional, versando o tempo todo sua própria vida. É a quarta das personagens do livro, e a imagem que Montero nos transmite é a de uma mulher cheia de energia para tomar a seu cargo o próprio destino, porém capaz de atitudes desprezíveis como divulgar detalhes íntimos de suas relações amorosas, uma lista que inclui homens e mulheres. Isso para não falar da subserviência ao egocêntrico Sartre e de um padrão de comportamento que seria quase elogioso chamar de hipócrita.

Beauvoir é a quarta biografada, mas é possível perceber que a autora teve especial atenção a seu “caso”. A palavra aspeada não foi escolhida sem motivo, pois a maior parte das histórias poderia figurar num mostruário de casos psicanalíticos, algumas delas chegando a lembrar capítulos do livro Os grandes casos de psicose (2001), de Juan-David Nasio. Se a filósofa francesa conseguiu passar aos incautos, durante toda a vida, como pessoa sábia e equilibrada, o mesmo não se dá, por exemplo, com biografadas menos conhecidas, como Isabelle Eberhardt e Aurora Rodríguez. A primeira delas foi uma escritora suíça de médio talento que se fazia passar por rapaz muçulmano e morreu aos 27 anos; a segunda, uma mãe absolutamente paranoica que tiranizava sua talentosa filha e, na iminência de perder o controle sobre o destino desta, vigiou seu sono durante uma noite inteira para, de madrugada, matá-la com quatro tiros.

Há também as escritoras de talento muito superior, embora nem por isso mais felizes. É o caso das primeiras biografadas, Agatha Christie e Mary Wollstonecraft. Christie é por demais conhecida, mas os leitores de seus romances policiais geralmente ignoram como foi triste sua vida. Wollstonecraft, grande pioneira da reinvidicação feminista, foi muito mais do que a mãe de Mary Shelley, a criadora, aos 18 anos, da fábula moderna Frankenstein (1818), cuja atualidade o mundo moderno não se cansa de confirmar: escreveu uma obra literária e filosófica relevante, porém passou inicialmente à História por seu estilo de vida pouco convencional, marcado por aventuras amorosas e por ser mãe antes de se casar. Ainda bem infelizes foram as irmãs Brontë, das quais Charlotte e Emily, filhas de um pastor protestante que viveram encafuadas nos confins da Inglaterra, conseguiram ser autoras de duas obras-primas da ficção romântica, respectivamente Jane Eyre e O morro dos ventos uivantes, ambas publicadas pela primeira vez em 1847.

As Brontë destoam da maioria das biografadas num quesito: não tiveram amante nenhum, muito menos uma penca deles. A vida amorosa livre e aventurosa faz parte, no caso de várias personagens do livro, dos ingredientes que as levaram tanto à condição de pioneiras quanto à infelicidade. Uma exceção a isso foi outra escritora, George Sand, que precisou assinar suas obras como homem, mas chegou aos 70 anos cercada de respeito por sua obra, sendo amiga de figurões da literatura francesa como Alexandre Dumas Filho e Gustave Flaubert, este o exigentíssimo autor de Madame Bovary (1857), romance inaugural da literatura programaticamente realista. Essa senhora que nasceu Aurore Dupin e desde criança se vestia como menino, demonstra Rosa Montero, foi um exemplo de liberdade intelectual e energia revolucionária.

No extremo oposto estão as perversas Irene de Constantinopla, imperatriz do império bizantino, e Laura Riding, escritora americana que parece uma versão feminina de Charles Manson: enfeitiçava seus amantes por meio de um encantamento maléfico que passou, para muitos, por manifestação de poderes ocultos. Irene, considerada santa pela Igreja Ortodoxa, mandou arrancar os olhos do próprio filho, que lhe havia usurpado o trono mas caiu na bobeira de chamá-la de volta de um exílio na ilha de Lesbos.

Alma Mahler e Camille Claudel, por suas vezes, entram no livro como exemplos de artistas de talento que se deixaram anular por homens doentes de egocentrismo, apesar de (ou talvez por isso mesmo) criadores de grandes obras. A mulher de Gustav Mahler, em todo caso, morreu aos 85 anos em Nova York, apesar de ter-se tornado alcoólatra ainda jovem. A irmã do poeta Paul Claudel teve o azar de incorrer no desagrado da própria mãe, que parece ter sido a principal responsável por sua internação durante 30 anos em um hospício, de onde saiu para o túmulo.

Faltam algumas vidas, entre elas a de Frida Kahlo, pintora cuja existência foi torturante já desde seus terríveis problemas físicos. Em homenagem à energia feminina que Rosa Montero pretendeu celebrar – talvez suas pesquisas a tenham conduzido numa direção oposta à intenção inicial, mas isso é só uma hipótese –, convém terminarmos com María Lejárraga. Montero começa esse capítulo com a afirmação de que “ignoramos tudo sobre ela”, apesar de estar tratando de uma espanhola que viveu no século XX.

Lejárraga foi casada com o dramaturgo Gregório Martínez Sierra, que simplesmente vampirizou-a durante a vida inteira: ela é a verdadeira autora de toda a obra desse celebrado escritor, tendo, além de tudo, aceitado viver em companhia do marido e da amante que ele arranjou. Para cúmulo do absurdo (até aqui, sua história não é mais melancólica que as das outras artistas exploradas por seus homens), no final das contas Sierra tornou-se, a partir de 1917, “autor” de inúmeros artigos e conferências em defesa do feminismo, tudo escrito por María Lejárraga. Apesar de tanta humilhação, ela chegou a publicar livros importantes com seu próprio nome e a eleger-se deputada, consagrando-se como ativista dos direitos da mulher numa Espanha “faminta e dilacerada”, à beira da guerra civil – infelizmente, para ser, depois, novamente silenciada e esquecida. Talvez, em meio a tantas personagens surpreendentes ou até assustadoras, María Lejárraga seja a mais fascinante, pois de algum modo sua vida lembra a de uma santa.

 

Título: Historias De Mujeres
Autora: Rosa Montero
Gênero: Biografias
Ano da edição: 1996
Selo: Santillana Usa Publishing Company

Eloésio Paulo é professor da UNIFAL-MG e autor dos livros: Teatro às escuras — uma introdução ao romance de Uilcon Pereira (1988), Os 10 pecados de Paulo Coelho (2008), Loucura e ideologia em dois romances dos anos 1970 (2014) e Questões abertas sobre O Alienista, de Machado de Assis (2020). Desde 2021, colabora com a coluna “UNIFAL-MG Indica” do Jornal UNIFAL-MG e atualmente assina, no mesmo jornal, essa coluna exclusiva semanal sobre produções literárias. “Montra” significa vitrine ou espaço onde artigos ficam em exposição.

 

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