A Ciência e o Anticientificismo

Terça-feira, 02 de junho de 2020

 


Por Robson Vitor Freitas Reis (mestre em Direito pela UFMG e técnico administrativo do campus Varginha da UNIFAL-MG)

Ô menina vai ver nesse almanaque
como é que isso tudo começou […] Diz quem foi que fez o primeiro teto
Que o projeto não desmoronou
Quem foi esse pedreiro esse arquiteto
E o valente primeiro morador
Me diz, me diz, um morador
Diz quem foi que inventou o analfabeto
E ensinou o alfabeto ao professor
Me diz, me diz
Me responde por favor

(Almanaque – Chico Buarque)

 

Introdução

O presente trabalho, através de uma perspectiva filosófica e epistemológica, tem como objetivo tentar conscientizar não só a comunidade científica, mas principalmente o público leigo em geral, sobre importância do conhecimento científico. Assim, tentaremos nas próximas linhas explicar como o conhecimento científico surge e se expande, os problemas oriundos dessa expansão, bem como possíveis soluções para esses problemas. Para tanto, dividiremos nossa explicação em três partes. Na primeira delas abordaremos como, através da filosofia, nasce o conhecimento científico, bem como a forma como ele se modifica e evolui ao longo dos séculos. Na segunda falaremos da expansão do conhecimento humano e dos meios responsáveis por armazenar e propagar esse conhecimento, dando um especial enfoque para os problemas advindos desse processo de expansão. É aqui que falaremos dos movimentos anticientificistas contemporâneos onde abordaremos, dentre outros pontos, o movimento antivacinas e o desrespeito que alguns governos estão tendo pelas orientações das principais organizações científicas do mundo em relação a melhor forma de se lidar com a presente pandemia. Por fim, na terceira parte, tentaremos apontar algumas possíveis direções que poderiam ser tomadas para ajudar a administra esse conhecimento, minimizando os efeitos negativos oriundos desse grande crescimento.

1. O nascimento e a evolução do conhecimento filosófico e científico

A palavra filosofia é uma palavra de origem grega sendo composta pela união de duas outras philo e sophia. Philo significa amizade, amor fraterno e sophia, por sua vez, sabedoria. Assim, filosofia significa amizade pela sabedoria e o filósofo seria aquele tenta nutrir essa amizade, que busca, no correr de sua existência, sempre se aprimorar e aprender.

Quanto à sua origem, apesar da palavra filosofia ter sido empregada pela primeira vez por Pitágoras, para maioria dos historiadores ela nasce na cidade de Mileto, através de Tales que, segundo este entendimento, teria sido o primeiro filósofo. Sendo importante esclarecer que, apesar de sua origem ocidental, ela teria tido à época forte influência oriental (CHAUÍ, 2019).

Feitos esses esclarecimentos, tentemos agora entender em que consiste a filosofia e como a diferenciá-la das demais formas de conhecimento. Na Grécia o saber filosófico nasce em oposição ao saber mitológico. Mito vem do grego mythos, que deriva dos verbos mytheyo e mytheo, que significam cantar, narrar, anunciar etc. Assim, para os gregos, um mito seria um discurso proferido para enunciar uma verdade, sendo a autoridade daquele que o pronuncia o fundamento dessa verdade. Tais verdades eram proferidas pelos chamados poetas-rapsodo, pessoas ditas escolhidas e inspiradas pelos deuses para revelar a origem dos seres e das coisas (CHAUÍ, 2019). Neste contexto, a filosofia nasce em oposição à esta ideia, ou seja, como conhecimento racional, que deve ser aceito pela lógica do seu fundamento e não pela autoridade de quem proferiu. Segundo Sócrates (apud PLATÃO, 2001), todos poderiam ter acesso a essas verdades, ou seja, não seria um privilégio de poucos escolhidos e/ou inspirados[1]. Aqui a autoridade não provém de quem fala, mas do fato de a proposição ser racional, fazer sentido. Portanto, o ponto central do saber filosófico é a racionalidade e não a autoridade.

A filosofia grega é uma das matrizes de todo conhecimento ocidental, sendo sem dúvida um dos principais pilares da cultura ocidental. E a partir dos pilares fincados pela filosofia é que, mais tarde, nascerá a chamada ciência. Tendo a filosofia aristotélica como sua pedra fundamental, em especial no que diz respeito a sua concepção empirista, a ciência também terá como característica intrínseca a presença da razão, mas possuirá um foco de estudo mais específico e, principalmente a partir da concepção moderna de ciência, terá como característica intrínseca a presença de uma metodologia. Na modernidade o conhecimento científico passou a ser cada vez mais um conhecimento específico e percebeu-se que cada área de conhecimento necessitaria de uma metodologia própria, devido às suas especificidades (DOMINGUES, 2010). Nesse contexto, a oposição de metodologia empregada pelas ciências exatas e pelas ciências humanas talvez seja a mais evidente que, em razão das diferenças de seus respectivos objetos de estudo, estruturaram métodos bastante distintos. Além disso, a partir de século XX, especificamente a partir do fenômeno da globalização, a filosofia ocidental voltou a receber grande influência da filosofia oriental, e a ciência ocidental da sabedoria oriental. O processo de globalização aumentou na ciência ocidental o poder da influência externa, principalmente quando passou, através do desenvolvimento dos meios de comunicação, a dar voz a uma gama muito maior de atores provenientes das mais diferentes culturas.

É importante esclarecer que a ciência moderna nasce mais centrada no empirismo e nas chamadas ciências exatas e que, pelo menos incialmente, a metodologia empregada pelas ciências humanas recebeu forte influência da metodologia das ciências exatas. A concepção empirista de ciência (CHAUÍ, 2019), que vai até o final do século XIX, acredita que a ciência é única e exclusivamente a interpretação de fatos através de experimentos. É importante perceber que nessa época havia uma forte cisão entre os chamados juízos de fato e juízos de valor, sendo estes últimos não abarcados pelo conceito estrito de racionalidade presente até então (PUTNAM, 2008). Contudo, principalmente a partir do século XX, assistimos a um grande florescer do conhecimento científico em termos gerais e, sem sobra de dúvidas, uma sedimentação das ciências humanas como uma ciência autônoma que necessitaria de uma metodologia própria[2].

No século XX houve um romper de várias barreiras científicas e, por consequência, também houve uma expansão do conceito de racionalidade. Até mesmo na física, que seria uma área mais ortodoxa, vimos, com a relatividade de Einstein e com a mecânica quântica, a superação das concepções newtonianas mais tradicionais. Quanto às demais mudanças ocorridas durante o correr do século passado no âmbito do pensamento científico, Ivan Domingues (2010) destaca os seguintes pontos:  mudanças de paradigmas; diversidades metodológicas; surgimentos de experiências Multi, Inter e Transdisciplinares; aparecimentos de ciências hifenizadas (biofísica, sociobiologia, etno-música etc.); aproximação da ciência, tecnologia, arte e filosofia; surgimentos de nova base de saber que, apesar de ainda ter as disciplinas como unidade focal e ponto de partida, a supera através dessa multi, inter e transdisciplinaridade.

Paralelamente a isso, no mesmo período, ocorreu uma verdadeira explosão da produção científica, “cabe observar que nunca houve uma época em que se produziu tanto conhecimento quanto no século XX” (DOMINGUES, 2010, p. 4). Em contraste com o que havia na antiguidade, idade média, renascença e no início dos tempos modernos, hoje não é mais possível falar em uma mente enciclopédica, como a de Aristóteles, por exemplo, que “dominava virtualmente todo o saber de sua época, acumulado em algumas centenas de livros reunidos em sua biblioteca, que era a maior da antiguidade” (DOMINGUES, 2010, p. 5). No início da Idade Moderna figuras como “Descartes, Hobbes, Leibniz e Newton conheciam tudo que era importante e digno de ser conhecido em sua época, facilitados pelo número ainda pequeno de livros” (DOMINGUES, 2010, p. 5). Contudo, a realidade hoje é drasticamente diferente:

Assim, comenta Kanitz, se alguém “ler três livros por mês, dos 20 aos 50 anos, serão 1.000 livros numa vida, que não chegam nem perto dos 40.000 publicados todo ano só no Brasil. Comparado com os 40 milhões de livros catalogados pelo mundo afora, mais 4 bilhões de home pages na Internet, teses de doutorado, artigos e documentos espalhados por aí, provavelmente seu conhecimento não passa de 0,0000000000025% do total existente”. Ou seja: na casa da fração de 12 zeros 25% = 25 bilionésimos % (DOMINGUES, 2010, p. 6 – grifo acrescido).

Em resumo, podemos afirmar que durante o correr do século XX houve na ciência mundial uma profunda alteração: 1) qualitativa: mudanças de paradigma, surgimentos de novas metodologias, expansão do conceito de racionalidade etc. e; 2) quantitativa: aumento exponencial na quantidade da produção do conhecimento científico. Em meio a todas essas mudanças, em meio a essa grande diversidade de vozes e locais de fala que passaram a tentar tomar para si a autoridade da ciência, cresceu bastante a importância de uma zona de interseção ente a filosofia e a ciência chamada epistemologia das ciências. A epistemologia é o ramo mais crítico do saber científico, é a parte da filosofia responsável por tentar compreender os limites da razão humana. Até onde é possível ao homem conhecer? A epistemologia das ciências é então a área do saber científico que irá sempre questionar a si própria, seus dogmas/pressupostos e métodos, para com isso poder aperfeiçoar-se.

2.  Os problemas advindos da expansão do saber científico

Podemos afirmar com certa tranquilidade que nos últimos 100 anos passamos por verdadeira revolução tecnológica em termos de comunicação. As mudanças que ocorreram neste campo foram grandes e rápidas. Começamos o século XX aqui no Brasil com o rádio e o findamos com a internet cada vez mais fazendo parte do cotidiano de nós brasileiros. E esta, a internet, merece um especial destaque, pois foi responsável por verdadeira revolução no processo de transmissão de informação, o que refletiu diretamente em significativas mudanças, até mesmo no modo como as pessoas vivem.

E hoje, início do século XXI, através de um pequeno smartphone qualquer pessoa com acesso à internet pode se comunicar com quase qualquer parte do mundo e, caso queira, ter acesso aos sites e partes do acervo das principais bibliotecas. Algo que seria completamente impensável a menos de um século atrás.

Para demostrar como registro do conhecimento se expandiu desde a invenção da imprensa até os dias de hoje, atentem-se aos seguintes dados apresentados pelo professor Ivan Domingues:

[…] a escala do acervo das grandes bibliotecas do mundo saltou do milhar para milhões de volumes. Em fins da Idade Média, em 1427, Cambridge na Inglaterra tinha 122 livros: hoje são mais de 7.000.000 de itens, distribuídos em 150 km de prateleiras. E mais: a Biblioteca do Congresso, sediada em Washington (EUA), que é a maior do mundo, tem 23 milhões; são 16 milhões na Biblioteca Nacional da China, sediada em Pequim; 14,5 milhões na Biblioteca Nacional do Canadá, com sede em Otawa; 14,4 milhões na Biblioteca Alemã, com sede em Frankfurt; 13 milhões na Biblioteca Britânica, com sede em Londres: 12 milhões (ou mais) na Biblioteca Nacional da França, sediada em Paris; e cerca de 9 milhões de volumes no caso da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a maior do Brasil (DOMINGUES, 2010, p. 5-6).

Valendo esclarecer que esses números se referem apenas às bibliotecas. Assim, caso acrescentarmos a eles os dados provenientes do armazenamento online feitos por revistas científicas ou por meio de banco de dados de grandes instituições ligadas a pesquisa, os valores são ainda maiores.

Não existe dúvida que a expansão do pensamento filosófico e científico trouxe bem mais vantagens do que desvantagens para as sociedades em termos gerais. Contudo, não devemos menosprezar o fato de que administrar de forma coordenada todas essas informações não é algo fácil. Principalmente durante o correr do século passado, o conhecimento tornou-se cada vez mais especializado, não sendo mais possível a um único indivíduo/cientista deter sozinho todo a conhecimentos que a humanidade possui hoje, fato que, como apontou Domingues (2010), fez com que se emergissem, para conter um pouco toda essa especialização, as experiências Multi, Inter e Transdisciplinares.

Assim, os grandes centros de conhecimento no mundo multiplicaram-se bastante e passaram a ser responsáveis por áreas específicas do saber. Por exemplo, não necessariamente uma Universidade ou Centro de pesquisa que possui grande prestígio em determinada área possui também nas demais. Paralelamente a isso, cresceu muito o próprio número de universidades, ficando mais difícil realizar um controle da qualidade do ensino oferecido em cada uma delas.

Além disso, com processo de globalização conectado a esse contexto de acesso mais amplo ao público leigo a esses novos maios de comunicação através das chamadas redes sociais, emergiu-se, através dessas novas plataformas, dessa nessa nova esfera pública, um aumento de um debate dito público e completamente desregrado dos mais variados temas, o que fez com que se potencializasse as chamadas notícias falsas, ou fake news (KLEIN; WUELLER, 2017). Veja que a existência de notícias falsas não é um privilégio da presente contemporaneidade (LIMA, 2012), mas com certeza foi e é algo que, devido a tudo que foi mencionado, potencializou-se bastante através dos avanços tecnológicos ocorridos nos meios de comunicação.

A informação (ou o acesso à informação) se popularizou (no bom e no mau sentido do termo) e, por conta disso, talvez, o grande desafio das universidades hoje não seja mais fornecer aos seus alunos o acesso aos livros e as fontes mais tradicionais de saber em termos gerais, talvez, hoje, o grande desafio das universidades seja, em meio a esse grande oceano de informações, formar pessoas com capacidade de saber diferenciar quais são as fontes mais confiáveis do conhecimento. Cremos que, para o século XXI, esse seja o grande desafio de toda e qualquer instituição de ensino, capacitar as pessoas a serem aptas a, por elas mesmas, caminhar por esse grande universo de informações sem se perderem[3].

Note que esse processo de expansão do conhecimento, que ocorreu conjuntamente com o processo de expansão da racionalidade, bem como com uma necessária crítica dialética e epistemológica, ocasionou e ocasiona constantes atritos/embates, não só entre as ciências si, mas também entre as ciência e o público leigo em geral que, diante de um conhecimento tão especializado, via-se muitas vezes tão alheio a tudo que passou a ser cada vez mais incapaz de mensurar a própria ignorância acerca das coisas, o que tem gerado o chamado efeito dunning-kruger, fenômeno no qual nossa falta de capacidade ou conhecimento sobre algo gera uma superestimação de nossas habilidades reais (ARAUJO, 2020).

Devido a isso, estamos assistindo novamente um crescimento dos chamados movimentos anticientificistas, movimentos que, apensar de também não serem uma exclusividade dos tempos presentes[4], estão agora ganhando contornos bem específicos. Dentro dos chamados movimento anticientificista podemos encontrar várias vertentes. Por exemplo, existem aqueles grupos de pessoas que sacralizam tudo que seria por eles classificados como natural, como se o que viesse da natureza não fosse igualmente composto por substâncias químicas. E, ao dizer isso, não queremos menosprezar possíveis críticas a lógica excessivamente capitalista da indústria farmacêutica, não é esse o nosso ponto. Acreditamos que a sabedoria popular pode sim, por vezes, dar alguns nortes na busca de possíveis substância com efeitos medicinais, mas isso não irá dispensar a necessária comprovação científica posterior daquela sabedoria. Além disso, é importante as pessoas terem consciência de que a natureza produz tanto aquilo que cura quanto aquilo que mata. Existem venenos naturais tão eficientes quanto os artificiais, e não é porque algo é dito natural que aquilo é necessariamente saudável.

Uma outra corrente anticientificista que julgamos ser um pouco mais perigosa que a primeira, devido aos possíveis danos que podem causar, são os chamados movimentos antivacinas. Os movimentos antivacinas são grupo de pessoas que optam por não tomar vacina e não vacinarem seus filhos, o que pode prejudicar não só eles mesmos, mas a sociedade como um todo, ao contribuir para proliferação de doenças que poderiam estar sendo erradicadas.

Ainda a título de exemplo (talvez o mais bizarro deles) estão os chamados terraplanistas, pessoas que em pleno século XXI ainda acreditam que a terra é plana, algo, no mínimo, se levarmos em conta o nível do avanço científico existente hoje, muito sui generis.

Por fim, devido ao contexto pandêmico que estamos atravessando agora em 2020, não podemos deixar de mencionar a forma irresponsável como algumas pessoas e até mesmo alguns líderes de Estado estão lidando com a COVID – 19, desrespeitando as orientações provenientes dos mais renomados órgãos responsáveis por pesquisas na área de saúde do mundo.

E esses são apenas alguns exemplos dos chamados movimentos anticientificistas, não sendo o objetivo deste presente artigo enumerar de forma exaustiva todos eles.

Paralelamente, e conectado com os movimentos anticientificistas, agora estão em voga as chamadas pós-verdades. Mas o que seriam essas pós-verdades?

A definição do Dicionário Oxford aponta que a expressão está relacionada com “circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal” (McINTYRE, 2018, p. 34, tradução nossa). Essa definição tem uma série de implicações. A primeira delas é que cabe entender, inicialmente, qual o sentido do “pós” na expressão, que “pretende indicar não tanto a ideia de que ‘deixamos para trás’ a verdade em um sentido temporal (como em ‘pós-guerra’), mas no sentido de que a verdade foi ofuscada: que é irrelevante” (McINTYRE, 2018, p. 34, tradução nossa). Portanto, pós-verdade se relaciona com um desinteresse pela verdade. Em sua relação com as informações (ao buscar informações para tomar decisões, ao compartilhar informações para divulgar uma ideia ou convencer outras pessoas), o fato de serem essas informações verdadeiras ou não tornou-se algo irrelevante – mesmo, no contexto tecnológico atual, com muita facilidade e possibilidade de checagem da veracidade das informações a partir de consultas de alguns segundos na internet. A expressão se relaciona também com um certo declínio da razão, de atitudes racionais, em detrimento de ações dirigidas pelo emocional ou por crenças, preconceitos, visões de mundo pré-concebidas e estanques. Tais dimensões acabam por se desdobrar em outros fenômenos e aspectos, tendo implicações para a prática da democracia e da tolerância, estando relacionada a questões como populismo, autoritarismo e cultura do ódio (ARAÚJO, 2020, p. 3 – grifos acrescidos).

Assim, em resumo, para finalizar o presente tópico, podemos afirmar que todo esse crescimento na produção do conhecimento humano, bem como o maior acesso a esse conhecimento, apensar de todos os benefícios[5], gera igualmente empecilhos que exigem uma análise minuciosa para um correto enfrentamento.

3. Alguns caminhos possíveis

No presente tópico tentaremos propor alguns caminhos que a sociedade atual, levando em consideração seu nível de evolução e complexidade, poderia/deveria seguir para tentar atenuar esses problemas surgidos na contemporaneidade devido ao acúmulo e a popularização do conhecimento.

Para iniciar nossa argumentação, iremos trazer uma pequena proposição de Wilhelm Von Humboldt no capítulo II de seu livro The Limits of State Action (1969):

Todo ser humano, então, pode agir com apenas uma faculdade dominante de cada vez: ou, melhor dizendo, toda a natureza dispõe-nos a selecionar em um dado momento uma única forma de atividade espontânea. Portanto, parece seguir-se daí que o homem está inevitavelmente destinado a um cultivo parcial, uma vez que só debilita suas energias ao dirigi-las para uma multiplicidade de objetos. Mas o homem tem o poder de evitar a unilateralidade, tratando de unir as faculdades de sua natureza, tentando unir as faculdades distintas e geralmente exercidas separadamente de sua natureza, fazendo com que convirjam para uma cooperação espontânea, em cada período de sua vida, as centelhas agonizantes de uma atividade e aquelas que o futuro fará eclodir, e procurando aumentar e diversificar as faculdades com as quais trabalha combinando-as harmoniosamente, em vez de buscar a mera variedade de objetos para seu exercício em separado. O que se consegue no caso do indivíduo, pela união do passado e do futuro com o presente, se produz na sociedade pela cooperação mútua de seus diferentes membros; porque, em todos os estágios de sua vida, cada indivíduo pode atingir apenas uma daquelas perfeições, que representam as feições possíveis do caráter humano. E pela união social, portanto, baseada nas necessidades e capacidades internas de seus membros, que cada qual tem condições de participar dos preciosos recursos coletivos de todos os outro[6] (HUMBOLDT, 1969, p. 16-17 – grifo acrescido e tradução nossa).

A partir desse pequeno trecho de Humboldt, o filósofo político John Rawls (1993) percebe que uma sociedade, quando bem-ordenada, se tornaria a união social de uniões sociais e que essa sociedade, quando trabalha de forma coordenada, pode contribuir não só para o cumprimento de seus objetivos gerais enquanto sociedade como também para o cumprimento dos objetivos individuais de cada cidadão. Como exemplo concreto de sua proposição, cita o caso de uma orquestra que, para funcionar, todos precisaram por anos se habilitar na aprendizagem de um ou alguns instrumentos, mas que somente na atividade coordenada de todos que o bem individual de cada um e o bem coletivo de todos de fato se realizará. Sua ideia geral é que a atividade coletiva quando exercida de forma coordenada tem um potencial maior que a atividade individual exercida separadamente ou uma atividade coletiva descoordenada.

Contudo, Rawls (1993 e 2001) vai para mais além que uma mera atividade coordenada. Para Rawls, uma sociedade democrática deve trabalhar não só de forma coordenada, mas de forma cooperada, uma sociedade deve ser um sistema equitativo de cooperação social, fazendo-se agora necessário esclarecer o que seria esse sistema equitativo de cooperação social. Rawls enumera três característica. Em primeiro lugar, para diferenciar da atividade meramente coordenada, ele afirma que esta permitiria uma ordem emanada de uma autoridade central absoluta que a atividade cooperada não permitiria. Para ele, uma atividade cooperada exigiria procedimentos públicos aceitos por aqueles que cooperam. Em segundo lugar, Rawls coloca a ideia de termos equitativos de cooperação, ou seja, incluiriam a ideia de mutualidade e reciprocidade. Por fim, ele acrescenta que a cooperação social exigiria a ideia de vantagem ou bem racional de cada um dos participantes.

Veja que o que estamos propondo aqui é que a ideia mais geral de sociedade democrática do filósofo político John Rawls seja aplicada à comunidade científica. Como foi colocado nos tópicos anteriores, no último século a produção de conhecimento cresceu vultuosamente, não sendo possível, tal como foi até a idade moderna, pessoas com conhecimentos enciclopédicos, pois o conhecimento especializado passou a ser uma condição inevitável. Nesse contexto, as experiências Multi, Inter e Transdisciplinares já vieram, como dissemos, para tentar abrandar os excessos de especializações ao criar pontes entre essas as áreas do conhecimento. Contudo, é preciso ir além, os estados democráticos e a comunidade científica internacional devem tentar se estruturar melhor, garantindo uma cooperação mais eficiente, já que, se isso não ocorrer, se não conseguimos coordenar melhor essa nossa estrutura, pelo seu tamanho e pelo atual descompasso, teremos muito a perder.

Não obstante, devido principalmente a forma com que os movimentos anticientificista e com que os governos antidemocráticos têm ganhado força nessa segunda década do século XXI, achamos oportuno enfatizar aqui uma recomendação feita por Sócrates e relatada por Platão na sua obra Apologia de Sócrates (2013). Começamos essa nossa analisa com a filosofia grega e vamos terminar com ela.

Em seu discurso de defesa perante os cidadãos atenienses, Sócrates destaca a importância da consciência da própria ignorância, e é exatamente isso que queremos destacar. Como dissemos acima ao tratarmos do efeito dunning-kruger, quando alguém tem muito pouco conhecimento sobre algo, ele não tem ciência nem mesmo da sua própria ignorância, o que faz com que muitas vezes seja levado a crer que sabe algo que não sabe. E a apologia de Sócrates perante seus pares é exatamente uma grande e eloquente explicação da importância de se ter consciência da própria ignorância. O que a partir de agora, tentaremos detalhar um pouco mais.

Dentre outras questões, em seu discurso de defesa, Sócrates narra sua saga após receber a informação de que a Pitonisa do Templo de Apolo havia dito que ele, Sócrates, seria a pessoa mais sábia de toda Grécia. Ao deparar-se com tal assertiva a seu respeito, Sócrates se estupefata e inquire-se sobre o que é que o deus estaria querendo dizer por meio deste enigma, haja vista que não se considerava um sábio “nem muito nem pouco” (PLATÃO, 2013, p. 73). Então, após ficar por algum tempo refletindo a respeito da afirmação, decidiu ir até àqueles que aparentavam sabedoria, já que, se efetivamente encontra-se alguém mais sábio, poderia leva-lo ao oráculo para refutar sua assertiva.

Primeiramente se dirige a alguém envolvido com a política e, ao dialogar com esta figura política, lhe pareceu que ela aparentava “ser sábio para muitos outros homens e principalmente para si próprio, mas que não era” (PLATÃO, 2013, p. 73). Assim, ao terminar a conversa, percebeu ser sim mais sábio que aquele homem em um simples ponto: ele Sócrates tinha consciência de sua própria ignorância, ao passo que aquele sujeito não possuía tal conhecimento.

[…] indo embora, fiquei então raciocinando comigo mesmo – “Sou sim mais sábio que esse homem; pois correndo risco de não saber, nenhum dos dois, nada de belo nem de bom, mas enquanto ele pensa saber algo, não sabendo, eu, assim como não sei mesmo também não penso saber… É provável, portanto, que eu seja mais sábio que ele em uma pequena coisa, precisamente nesta: porque aquilo que não sei, também não penso saber.” (PLATÃO, 2013, p. 73-74).

Assim, após dialogar com algumas figuras políticas, Sócrates se dirige aos poetas. A estes Sócrates inquiri acerca de seus próprios poemas e ao fazê-lo percebe grande ignorância sobre assuntos que eles mesmos haviam escritos. O que fez com que concluísse que “não era por sabedoria que poetavam o que poetavam, mas por uma certa natureza e inspirados, tal como os adivinhos divinos e os proferidores de oráculos, pois esses dizem muitas e belas coisas, mas nada sabem do que dizem” (PLATÃO, 2013, p. 75). Sócrates pôde perceber ainda que, por causa da sua poesia, aqueles homens pensavam ser “mais sábios dos homens também nas demais coisas – nas quais não eram!” (PLATÃO, 2013, p. 75). O que fez com que ele conclui-se ser ele, igualmente, mais sábio que os poetas pela mesma “singela” razão que o era em relação aos políticos, qual seja, ao contrário destes, possuía consciência de sua própria ignorância.

Depois disto se dirigiu aos técnicos. Quanto a esses, a situação foi um pouco diferente. Notou que eles possuíam sim um conhecimento que ele – Sócrates – não tinha. Não obstante a isso, lhe pareceu que também estes pecavam no mesmo ponto que os poetas, “por efetuar belamente sua arte, cada um também se achava o mais sábio nas demais coisas (nas mais importantes!), e esta desmedida deles ocultava aquela sabedoria”. (PLATÃO, 2013, p. 76). Diante desta situação, Sócrates se propôs a seguinte indagação: preferiria ele ser assim como é, “nem sábio na sabedoria deles nem ignorante na ignorância, ou possuir estas duas coisas que eles possuem” (PLATÃO, 2013, p. 76)? Ao que Sócrates percebe ser sua sabedoria (consciência da própria ignorância) mais valorosa que a dos técnicos.

 Então, pôde concluir que talvez o deus, através do Oráculo, tenha apenas utilizado a sua figura como um modelo, ou seja, como se estivesse afirmando “Entre vocês homens o mais sábio é qualquer um que, como Sócrates, tenha reconhecido que, na verdade, em sabedoria não vale nada” (PLATÃO, 2013, p. 76).

Em termos mais gerais, podemos depreender dessa história narrada por Sócrates que o homem, quando detém perante a sociedade algum poder associado a um possível conhecimento que tem, ou seja, quando a sociedade, por alguma razão qualquer, reverencia algum elemento de saber que provenha daquele sujeito, esse sujeito, por vaidade, se é que podemos usar esse termo, pode vir a achar que também possui conhecimento em outros domínios que, em verdade, não possui. Por exemplo, um médico muito famoso e respeitado pela sociedade e pelos seus pares, tanto pela qualidade de seu trabalho, quanto pelo saber que possui na sua área de conhecimento, pode vir a se envaidecer e acabar se iludindo, achando que também domina os saberes de outras áreas, o que pode ser um grande equívoco, já que, como foi demostrado, hoje em dia o conhecimento está muito especializado e, para que a comunidade científica realmente funcione de forma cooperada, cada área de saber deve respeitar as demais.

Conclusão

Assim, a título de conclusão, queremos dizer que para esse sistema equitativo de cooperação social, tal como acima explicamos, realmente funcionar é preciso que haja um mínimo de respeito e confiança quanto boa e correta execução da parte da tarefa que cabe ao outro. Nesse sentido, por exemplo, é de bom tom que, em uma pesquisa conjunta entre cientistas de diversas áreas, as pessoas envolvidas neste projeto coletivo minimamente confiem no trabalho dos seus parceiros. É preciso haver uma harmonia na execução desta grande tarefa coletiva que se tornou a ciência contemporânea. Ou, no que diz respeito ao movimento anticientificista, é importante que exista, por parte daqueles que trabalham fora do âmbito da pesquisa, um mínimo de respeito pelo produto do ofício daqueles que dedicam sua vida a tentar, com empenho e trabalho duro, colocar um tijolo a mais neste grande edifício do conhecimento humano.  E, com isso, não queremos propor uma presunção absoluta de veracidade do conhecimento técnico frente à sabedoria popular, tal como uma redução ao absurdo de nosso argumento poderia levar. Não é isso. O que estamos querendo dizer é que a sociedade científica e sociedade em geral atingiu hoje tamanho nível de complexidade que, para que ela possa funcionar de forma harmônica, é imprescindível que organização divida tarefas e faça com que todos trabalhem de forma coordenada, ou melhor, cooperada, com bem destacamos acima. Só assim poderemos, em meio a este milênio que se inicia, continuarmos caminhando, ampliando cada vez mais nossos saberes éticos, filosóficos e científicos.

A ciência é e será sempre um projeto inacabado. Um projeto em constante aprimoramento que sempre terá algo para ser mudado, para ser acrescido. Contudo, apesar disso, apesar das possíveis críticas que sempre faremos e sempre deveremos fazer, é preciso respeitá-la, respeitar aquilo que já adquirimos. Não obstante o fato que esse respeito não deve impedir os filósofos, cientistas e pesquisadores em geral de sempre buscar, como colocado por Sócrates, conhecer as próprias limitações, questionando a si mesmos e os dogmas que por ventura tenham aceito como certo, ou seja, com respeito, questionar tanto seus predecessores quanto a si próprios, ao estarem abertos a serem questionados. A partir daí é que poderemos, por meio de um esforço coletivo, continuar caminhando para, de uma forma cooperada, aprimorar cada vez mais o conhecimento humano. Assim, como colocado por Popper (1972), apesar da verdade não ser evidente, apesar do caminho para fora da caverna platônica ser duro, diferentemente do que poderiam propor alguns céticos, ele é possível, e devemos com trabalho e seriedade fazer a parte que nos cabe desse grande projeto coletivo.

Referências Bibliográficas

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PLATÃO. Apologia de Sócrates: precedido de Êutifron (Sobre a piedade) e seguido de Críton (Sobre o dever). Porto Alegre, RS: L&PM, 2013, p. 63-110.

PLATÃO. Mênon. Texto estabelecido e anotado por John Burnet. Tradução de Maura Iglésias. Rio de Janeiro: Editoras PUC-Rio e Loyola, 2001.

POPPER, Karl Raymund. Conjecturas e Refutações. Tradução de Sérgio Bath. 4ª Edição. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1972.

PUTNAM, Hilary. O Colapso da Verdade: e outros ensaios. Tadução Pablo Rubén Mariconda e Sylvia Gemignari Garcia. Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2008.

RAWLS, John. A Theory of Justice. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1999.

RAWLS, John. Justice as Fairness: a restatement. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2001.

RAWLS, John. Political Liberalism. New York: Columbia University Press, 1993.

 

[1] Sócrates demonstra isso em Mênon (PLATÃO, 2001) quando, ao inquirir um escravo utilizando de seu método maiêutico, demostra que ele também pode ter acesso ao conhecimento e as verdades filosóficas.

[2] Essa sedimentação se iniciou no final do século XIX com Durkheim, Marx e Weber através da fundação das chamadas ciências sociais.

[3] Essa interessante ideia nos foi apresenta em palestra de recepção aos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora, proferida pelo professor Marcos Vinício Chein Feres, por volta do ano de 2004.  

[4] Tais movimentos reacionários nasceram conjuntamente com a própria ciência em si. Ou seja, desde passou a existir um saber dito científico, surgiram aqueles que, em um movimento dialéticos passaram a negar esse saber.

[5] Que cremos indubitavelmente superar a quantidade de problemas.

[6] No original “Every human being, then, can act with only one dominant faculty at a time; or rather, our whole nature disposes us at any given time to some single form of spontaneous activity. It would therefore seem to follow from this, that man is inevitably destined to a partial cultivation, since he only enfeebles his energies by directing them to a multiplicity of objects. But man has it in his power to avoid this one-sidedness, by attempting to unite the distinct and generally separately exercised faculties of his nature, by bringing into spontaneous cooperation, at each period of his life, the dying sparks of one activity, and those which the future will kindle, and endeavouring to increase and diversify the powers with which he works, by harmoniously combining them, instead of looking for a mere variety of objects for their separate exercise. What is achieved, in the case of the individual, by the union of the past and future with the present, is produced in society by the mutual cooperation of its different members; for, in all the stages of his life, each individual can achieve only one of those perfections, which represent the possible features of human character. It is through a social union, therefore, based on the internal wants and capacities of its members, that each is enabled to participate in the rich collective resources of all the others”.

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