A reabilitação no período pós-pandemia da COVID-19

Segunda-feira, 01 de junho de 2020

Por Lucas Emmanuel Teixeira (doutor pela Universidade Federal de São Paulo e professor do Instituto de Ciências da Motricidade da UNIFAL-MG)

A reabilitação terá que lidar com as demandas biopsicossociais do período pós-pandemia da COVID-19.  O profissional terá como desafio lidar com a sobreposição da dor física e da dor afetiva desencadeadas ou agravadas pela pandemia da COVID-19. O processo de retomada das rotinas de educação e saúde no período pós-pandêmico exigirá mais do que adequações sanitárias.

A exposição da população a traumas, como testemunhar e cuidar de pessoas gravemente doentes, ameaça de vida percebida, mortalidade e luto, mortes de profissionais de saúde, podem prejudicar a saúde mental da população, ampliando os riscos de desenvolver sofrimento psíquico e progressão para a psicopatologia, dentre elas o transtorno de estresse pós-traumático (SHULTZ et al., 2015; NERIA et al, 2011).

Com o intuito de lidar e eliminar o estigma associado à epidemia faz-se necessário criar estratégias para lidar com o estresse psicológico do período pós-pandemia (WANG et al, 2020) e identificar suas possíveis implicações na dor e no processo de reabilitação.

Há evidências que mostram aumento dos níveis de angústia a sofrimento em pessoas que vivem em países afetados de maneira significativa pela COVID-19 (WANG et al, 2020; XIANG et al, 2020).

Sugere-se que pacientes com COVID-19, confirmados e suspeitos, possam experimentar o medo das consequências dessa infecção, incluindo morte e incapacidade física grave. Além disso, o tédio, a solidão e a raiva podem ser experimentados por indivíduos em quarentena. Também é sugerido que os sintomas de ansiedade e angústia podem ser agravados nestas pessoas, sintomas que podem ocorrer também nas que estão em isolamento social (ASGHAR et al, 2020).

Estudos mostram que indivíduos com doença grave ou múltiplas comorbidades apresentam níveis mais altos de sintomas psicológicos diante dessa situação de crise. Em pesquisa que avaliou o impacto da pandemia por COVID-19 na Espanha, Santamaria et al, 2020, demonstraram que indivíduos que relataram doenças crônicas apresentaram níveis médios mais altos de estresse, ansiedade e depressão em comparação com os participantes que não relataram tais doença.

Neste sentido, o paciente pós-pandemia pode tornar-se mais vulnerável às frustrações e incapacidades decorrentes da doença e aos seus sintomas físicos, particularmente a dor. A pessoa com dor crônica, como a com patologia ortopédica ou reumática, tende a manifestar com frequência emoções de revolta, raiva, cólera, ansiedade ou até mesmo sintomas depressivos, os quais não só se refletem na interação com os outros, como podem influenciar, de forma negativa, a sintomatologia e a progressão da doença.

A intensidade percebida dos seus sintomas dolorosos é, assim, exacerbada pelos sintomas de incapacidade, ansiedade, depressão, distúrbios do sono, má qualidade de vida e custos com saúde. Da mesma forma, o sofrimento psicológico foi identificado como um caminho potencial pelo qual um episódio de dor influencia o desenvolvimento de sintomas incapacitantes persistentes (PARK et al, 2020).

Assim, a reabilitação poderá encontrar o desafio de lidar com o aumento dos sintomas dolorosos e a dificuldade de reduzir os níveis de incapacidade física dos pacientes. Uma boa maneira de avaliar essa intensidade de percepção da dor é adotar instrumentos de avaliação que avaliem aspectos mais amplos da dor.

 Evidências crescentes têm demonstrado que a educação em ciências da dor afeta positivamente a dor, a incapacidade, a catastrofização da dor, as limitações de movimento e os custos gerais de saúde. Em virtude do foco cada vez maior da fisioterapia nas ciência da dor, é necessário que a avaliação física, tanto subjetiva quanto objetiva, abrace uma abordagem biopsicossocial e não apenas uma abordagem biomédica (HALL et al, 2011).

Pacientes com dor crônica sofrem de vários medos, o que deve nos permitir elaborar uma estratégia de tratamento que atinja diretamente esses medos, melhorando assim o bem-estar físico e psicossocial desses pacientes (DREBENSTEDT et al, 2018).

Dentro de uma estrutura biopsicossocial, acredita-se que fatores psicológicos desempenhem um papel importante no aparecimento e progressão da dor crônica. O modelo cognitivo-comportamental de evitar o medo da dor crônica sugere que o medo relacionado à dor contribui para o desenvolvimento e manutenção da incapacidade relacionada à dor (GEELEN et al, 2017).

Portanto, abordar as crenças, cognições e comportamentos associados a dor dos pacientes tornou-se uma questão importante no tratamento, particularmente na dor crônica, que deve ser observada. Essas construções sobrepostas impactam a vigilância da dor, que por sua vez também pode levar a aumentos na percepção da gravidade da dor.

Outro ponto a ser levado em consideração pelo profissional no pós-pandemia é que o processo de catastrofização da dor, que se agrava frente ao sofrimento psicológico ligado ou não a dor, poderá estar presente ou mesmo aumentado.

Segundo Severeijns et al, 2001, os pacientes com dor crônica que catastrofizam relataram maior intensidade da dor, sentiram-se mais incapacitados pelo seu problema de dor e experimentaram mais sofrimento psicológico. A catastrofização foi um potente preditor de intensidade da dor, incapacidade e sofrimento psicológico, mesmo quando controlado por comprometimento físico. Assim podemos concluir que a catastrofização desempenha um papel crucial na experiência da dor crônica, contribuindo significativamente para a variação da intensidade da dor, incapacidade relacionada à dor e sofrimento psicológico.

A educação em neurociência da dor é cada vez mais usada como parte de um tratamento fisioterapêutico em pacientes com dor crônica. Recomenda-se uma avaliação biopsicossocial clínica completa antes da educação em neurociência da dor para permitir uma explicação adequada da neurofisiologia da dor e das interações biopsicossociais de maneira interativa e centrada no paciente. A análise da dor de forma mais ampla, avaliando os fatores somáticos, cognitivos, emocionais, comportamentais e sociais tentando estabelecer claramente qual é o mecanismo dominante da dor, bem como avaliar os fatores biopsicossociais provocadores e perturbadores em pacientes com dor crônica. O uso dessa abordagem permite que o clínico classifique especificamente os pacientes e adapte o plano de tratament0 (WIJMA et al, 2016). Dentro desta abordagem, o fisioterapeuta poderá compreender os processos da dor no período pós-pandemia, observar suas implicações clínicas, avaliar e traçar as condutas mais assertivas.

Será necessário avaliar os impactos do COVID-19 no em pacientes com dor crônica, baseado em informações multidimensionais e multiprofissionais para a melhor tomada de decisão e condução do processo de reabilitação, porém é possível analisar o fato positivo que o pós-pandemia pode apresentar. A aceleração de processos em curso causados pelas pandemias pode fazer a fisioterapia acelerar também, processos de evolução do entendimento da necessidade de uma conduta baseada no indivíduo e não somente na sintomatologia clínica de sua condição de saúde, entre elas, a dor.

REFERÊNCIAS

  1. Shultz JM, Baingana F, Neria Y. The 2014 Ebola Outbreak and Mental Health: Current Status and Recommended Response.2015;313(6):567-568. doi:10.1001/jama.2014.17934
  2. Neria Y, Sullivan GM. Understanding the Mental Health Effects of Indirect Exposure to Mass Trauma Through the Media. 2011;306(12):1374–1375. doi:10.1001/jama.2011.1358
  3. Wang, C.; Pan, R.; Wan, X.; Tan, Y.; Xu, L.; Ho, C.S.; Ho, R.C. Immediate Psychological Responses and Associated Factors during the Initial Stage of the 2019 Coronavirus Disease (COVID-19) Epidemic among the General Population in China.  J. Environ. Res. Public Health2020, 17, 1729
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  6. Santamaria M. D., Ozamiz-Etxebarria N., Gorrochategui M. P., Mondragon N. I. Stress, anxiety, and depression levels in the initial stage of the COVID-19 outbreak in a population sample in the northern Spain. Saúde Pública vol.36 no.4. Rio de Janeiro  2020  Epub Apr 30, 2020.
  7. Park SC, Park YC. Mental Health Care Measures in Response to the 2019 Novel Coronavirus Outbreak in Korea. Psychiatry Investig. 2020;17(2):85‐ doi:10.30773/pi.2020.0058.
  8. Hall AM, Kamper SJ, Maher CG, Latimer J, Ferreira ML, Nicholas MK. Symptoms of depression and stress mediate the effect of pain on disability. Pain. 2011;152(5):1044–1051. doi:10.1016/j.pain.2011.01.014
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  10. Geelen CC, Smeets RJEM, Schmitz S, van den Bergh JP, Goossens MEJB, Verbunt JA. Anxiety affects disability and quality of life in patients with painful diabetic neuropathy. Eur J Pain. 2017;21(10):1632‐ doi:10.1002/ejp.1067
  11. Severeijns, R, Vlaeyen, J.W.S, van den Hout, Marcel A.W, Wim E.J. Pain Catastrophizing Predicts Pain Intensity, Disability, and Psychological Distress Independent of the Level of Physical Impairment, The Clinical Journal of Pain: June 2001 – Volume 17 – Issue 2 – p 165-172
  12. Wijma AJ, van Wilgen CP, Meeus M, Nijs J. Clinical biopsychosocial physiotherapy assessment of patients with chronic pain: The first step in pain neuroscience education. Physiother Theory Pract. 2016;32(5):368‐ doi:10.1080/09593985.2016.1194651.
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