Isolamento social, saúde mental e suicídio

Terça-feira, 19 de maio de 2020

Por Daniel Hideki Bando (doutor em Ciências pela USP e professor de Geografia da UNIFAL-MG)

O sentimento de isolamento e falta de apoio social é um fator de risco ao suicídio reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (WHO 2014). Quem teorizou sobre isso foi o pai da sociologia moderna, Émile Durkheim, quando estudou o suicídio na França no final do século XIX. De acordo com Durkheim o suicídio varia inversamente com o grau de integração social que o indivíduo faz parte (Durkheim 1897/2004). Durkheim usou dados e mapas para dar embasamento empírico a sua teoria. Ele observou que a ocorrência do suicídio era maior ao norte da França, e coincidia com áreas onde as famílias eram menores. Notou que as pessoas solteiras apresentavam maior risco ao suicídio, em contraposição aos casados que eram protegidos ao suicídio. No estudo recém publicado “Geographical clusters and social risk factors for suicide in the city of Sao Paulo, 2006-2015” (Bando, Barrozo et al. 2020) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32345084 esse padrão foi confirmado. Pode-se observar que as maiores taxas de suicídio ocorrem nos distritos da região centro-oeste e centro-sul, onde as taxas são acima de 6,3 casos por 100 mil habitantes (Figura 1 A). Foi identificado um agrupamento de risco ao suicídio na região central da cidade, onde o risco é aumentado em 46% (Figura 1 B). Nessa área o percentual de casados também é menor, e essa variável foi identificada como fator de proteção ao suicídio no modelo final de regressão linear múltipla. O percentual de migrantes recentes e de pessoas sem religião compõe as variáveis identificadas como risco ao suicídio no modelo final.

Figura 1 – (A) Suicide crude rates and (B) spatial clusters of suicide in the city of São Paulo (SP)
Fonte: Bando, Barrozo et al. (2020) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32345084

Estudo anterior, com dados de 1996-2005, também identificou a região central como área de risco ao suicídio. Os solteiros e migrantes foram incluídos no modelo final como fatores de risco e casados como proteção (Bando and Barrozo 2010, Bando, Moreira et al. 2012) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22913796. Na cidade de São Paulo, a população solteira tem quase o dobro do risco de cometer suicídio em relação aos casados. Para os divorciados e viúvos o risco ao suicídio é 38% maior (Bando, Brunoni et al. 2012) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23429774. Nesse sentido, no contexto da pandemia do novo coronavírus é preciso ficar atento com o isolamento social, pessoas que moram sozinhas, idosos, migrantes recentes.

Tem-se falado muito também dos impactos da pandemia na saúde das pessoas. O medo de sair na rua pode gerar comportamentos não saudáveis, como evitar a busca de ajuda médica e descumprir medidas importantes da saúde pública como a vacinação. Tem-se reportado também aumento da violência doméstica devido ao confinamento das pessoas durante a quarentena (Pfefferbaum and North 2020). É difícil pensar em estratégias de prevenção e promoção da saúde quando não se pode sair de casa. Quanto à saúde mental, experiências anteriores como a epidemia da SARS e respectiva quarentena no Canadá em 2003 confirmaram o que muitos imaginavam. Foi observada aumento na prevalência do transtorno de estresse pós-traumático e depressão durante o período de quarentena (Hawryluck, Gold et al. 2004, Reynolds, Garay et al. 2008). Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) publicado em 13 de maio de 2020 é voltado para políticas públicas de saúde mental em tempos de pandemia da COVID-19. O documento contextualiza a situação atual com dados mundiais, onde a depressão afeta 264 milhões e o suicídio é a segunda causa de morte para jovens de 15-29 anos. Destaca também que em países de baixa e média renda cerca de 76% a 85% das pessoas com problemas de saúde mental não recebem tratamento adequado (United_Nations 2020) https://www.un.org/sites/un2.un.org/files/un_policy_brief-covid_and_mental_health_final.pdf.

O mapa a seguir mostra a prevalência de transtornos mentais no mundo. Nota-se que o Brasil está no grupo dos países com elevada prevalência de transtornos mentais, acima de 14% (Figura 2). De acordo com a estimativa da Global Burden of Disease (GBD) para 2017, a prevalência de transtornos mentais para  homens e mulheres no Brasil foi de 12,9% e 16,3%, respectivamente (GBD 2017). As doenças que compõem o grupo dos transtornos mentais incluem depressão, transtorno bipolar, transtorno de ansiedade, transtornos alimentares, espectro autista, déficit de atenção, hiperatividade, entre outras. É possível obter esses dados e de outras doenças no site da GBD.

Figura 2 – Prevalência de transtornos mentais (%) no mundo, 2017.

 

De acordo com a ONU, vários países têm reportado aumento dos sintomas ligados à depressão e ansiedade durante a quarentena. Depressão e doenças mentais são fatores de risco importantes do suicídio. Para lidar com o estresse, as pessoas podem recorrer a formas negativas de lidar com a situação, como o uso de álcool e outras drogas ou passar mais tempo com comportamentos potencialmente viciantes, como jogos online. Estatísticas do Canadá relatam que em 20% da população entre 15 e 49 anos houve o aumento do consumo de bebida alcoólica. Outra preocupação é com os profissionais de saúde que atuam na linha de frente do combate à COVID-19, o aumento do estresse devido à sobrecarga de trabalho, tomada de decisões difíceis, risco de ser infectado e infectar a família e lidar com a morte dos pacientes. O quadro é ilustrado com o suicídio de um médico que trabalhava com pacientes da COVID-19 em Nova Iorque (United_Nations 2020). A perda de pessoas queridas (familiares, amigos) pode provocar estresse psicológico e está associada ao aumento do risco de suicídio (WHO 2014). https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/131056/9789241564779_eng.pdf No caso da perda pela COVID-19 o luto tem ocorrido de forma diferenciada. Para evitar o contágio os caixões são lacrados, poucas pessoas comparecem na cerimônia, muitos não se despedem, não há o abraço nem o habitual consolo, o que agrava o sofrimento dos que ficam (Afonso 2020).

Artigos recém publicados nos periódicos Cadernos de Saúde Pública e The New England, discutem os modelos de atenção em saúde mental e estratégias de intervenção para profissionais de saúde diante a pandemia (Ornell, Halpern et al. 2020, Pfefferbaum and North 2020). Os serviços de saúde podem oferecer sugestões para gerenciamento e enfrentamento do estresse, como estruturar atividades e manter rotinas, vincular pacientes a serviços de saúde social e mental e aconselhar os pacientes a procurar assistência profissional em saúde mental, quando necessário. Psicólogos e psiquiatras podem desenvolver estratégias com os demais profissionais da saúde, em unidades básicas de saúde e ambulatórios, como treinamentos para monitorar a saúde mental dos pacientes. Também podem oferecer ajuda de forma remota por telefone, aplicativos de celular. A mídia e o noticiário têm o dever de divulgar informações sobre serviços de apoio psicossocial à população.

O relatório da ONU alerta e lembra os efeitos da crise econômica de 2008 na carga de mortalidade por suicídio de abuso de drogas, devido à perda de esperança, desemprego e aumento da desigualdade social. A crise política e econômica que o Brasil tem passado agrava a situação. O ex-ministro da saúde Mandetta, fazia um bom trabalho alinhado ao SUS e tinha uma ótima equipe técnica. Sua saída foi um desastre, o presidente da República com suas atitudes conflitantes aumenta a tensão e presta um desserviço à sociedade. Mas medidas anteriores já anunciavam o presságio da situação brasileira que sempre sofreu com a desigualdade social. A Proposta de Emenda Constitucional de 2016, a PEC da morte, que limitou o investimento público em saúde e educação não traria efeitos imediatos. No entanto um estudo utilizou modelos de regressão multivariada, e simulou o efeito da redução da cobertura do Programa Bolsa Família e da Estratégia Saúde da Família, em comparação com a manutenção de sua cobertura, considerando-se mudanças demográficas e socioeconômicas em todos municípios brasileiros. As previsões são alarmantes, no período 2017-2030, a taxa de mortalidade infantil poderia aumentar até 8,6%, haveria um excedente de 20 mil mortes e 124 mil internações na infância (Rasella, Basu et al. 2018). Efeitos a curto prazo começam a vir à tona. O Brasil não tem capacidade de produzir e aplicar testes em massa da COVID-19, essencial para as políticas públicas frente a pandemia, o sistema de saúde de municípios e estados estão à beira do colapso. Vivemos em tempos estranhos, com muitas incertezas. Só o tempo nos dirá qual será o verdadeiro impacto da pandemia em nossas vidas.


*** Prof. Daniel Hideki Bando iniciou o contato com a área da saúde pública ainda na graduação em Geografia, realizada na USP,  quando estudou a sazonalidade do suicídio em São Paulo, tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso. No mestrado em Geografia, também na USP, estudou o padrão espacial do suicídio em São Paulo. O trabalho foi publicado no livro “Suicídio na cidade de São Paulo”, disponível na biblioteca da UNIFAL-MG: Bando and Barrozo 2010 e em artigo Bando, Moreira et al. 2012. O atual estudo foi uma atualização do estudo anterior.

Após concluir o doutorado na área de epidemiologia pela Faculdade de Medicina da USP, Prof. Daniel continuou os estudos sobre mortalidade em SP. Depois de trabalhar na Secretaria da Saúde de Guarulhos – SP, ingressou como professor do curso de Geografia da UNIFAL-MG em 2014, no eixo das geotecnologias e cartografia. Também ministra a disciplina optativa “Geografia da saúde”, onde aborda tais temas.

Entre suas orientações de iniciação científica, há um estudo sobre a tendência das taxas de suicídio em Alfenas-MG.

O resultado mostra que há uma tendência de aumento significativo de 1996 a 2012. Também estudou a tendência das taxas de suicídio nas macrorregiões de Minas Gerais, e a maior parte das regiões tem apresentado aumento significativo para ambos os sexo.


Referências

Afonso, P. (2020). “[The Impact of the COVID-19 Pandemic on Mental Health].” Acta Med Port 33(5): 356-357.

Bando, D. H. and L. V. Barrozo (2010). Suicídio na cidade de São Paulo – Uma análise sob a perspectiva da geografia da saúde. São Paulo, Ed. Humanitas.

Bando, D. H., L. V. Barrozo and F. M. Volpe (2020). “Geographical clusters and social risk factors for suicide in the city of Sao Paulo, 2006-2015: An ecologic study.” Int J Soc Psychiatry: 20764020918618.

Bando, D. H., A. Brunoni, T. Fernandes, I. M. Bensenor and P. A. Lotufo (2012). “Suicide rates and trends in São Paulo, Brazil according to gender, age and demographic aspects: a joinpoint regression analysis.” Rev Bras Psiquiatr 34(3): 286-293.

Bando, D. H., R. S. Moreira, J. C. Pereira and L. V. Barrozo (2012). “Spatial clusters of suicide in the municipality of Sao Paulo 1996 – 2005: an ecological study.” BMC Psychiatry 12(1): 124.

Durkheim, E. (1897/2004). O suicídio. São Paulo, Martins Fontes.

GBD. (2017). “Global Burden of Disease.” from http://www.healthdata.org/gbd.

Hawryluck, L., W. L. Gold, S. Robinson, S. Pogorski, S. Galea and R. Styra (2004). “SARS control and psychological effects of quarantine, Toronto, Canada.” Emerg Infect Dis 10(7): 1206-1212.

Ornell, F., S. C. Halpern, F. H. P. Kessler and J. C. M. Narvaez (2020). “The impact of the COVID-19 pandemic on the mental health of healthcare professionals.” Cad Saude Publica 36(4): e00063520.

Pfefferbaum, B. and C. S. North (2020). “Mental Health and the Covid-19 Pandemic.” N Engl J Med.

Rasella, D., S. Basu, T. Hone, R. Paes-Sousa, C. O. Ocke-Reis and C. Millett (2018). “Child morbidity and mortality associated with alternative policy responses to the economic crisis in Brazil: A nationwide microsimulation study.” PLoS Med 15(5): e1002570.

Reynolds, D. L., J. R. Garay, S. L. Deamond, M. K. Moran, W. Gold and R. Styra (2008). “Understanding, compliance and psychological impact of the SARS quarantine experience.” Epidemiol Infect 136(7): 997-1007.

United_Nations. (2020). “Policy Brief: COVID-19 and the Need for Action on Mental Health.” from https://www.un.org/sites/un2.un.org/files/un_policy_brief-covid_and_mental_health_final.pdf.

WHO. (2014). “Preventing suicide: a global imperative.”, from http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/131056/1/9789241564779_eng.pdf?ua=1&ua=1.

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