Minas Gerais e Covid-19: Depois da “bonança” veio a tempestade

Quinta-feira, 16 de julho de 2020


Por Thiago Rodrigues Silame (doutor em Ciência Política pela UFMG e professor da UNIFAL-MG) e Helga do Nascimento de Almeida (doutora em Ciência Política pela UFMG e professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF)

Região: Sudeste
Estado: MInas Gerais
Governador(Partido): Romeu Zema (NOVO)
População: 21.168.791 (IBGE,2019)
Número de municípios: 853
Casos confirmados em 10/07/2020: 70.086
Óbitos confirmados em 10/07/2020: 1504
Casos por mil habitantes: 331,08[1]
Óbitos por 100 mil habitantes: 7,10[2]

Se desde o começo da pandemia de Covid-19 havia um sentimento truncado de bonança no estado de Minas Gerais (MG)[3] [4], no mês de julho chegou a tempestade.

A situação de MG vem se complicando a olhos vistos e isso pode ser notado fazendo a comparação com os dados de nosso último artigo, “Minas Gerais: subnotificação e des(coordenação) entre estado, União e municípios no enfrentamento à Covid-19” [5], publicado no compêndio de trabalhos contidos no dossiê “Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia no Brasil”, organizado pela pesquisadora Luciana Santana e pela Associação Brasileira de Ciência Política. Os primeiros dados foram coletados em 6 de junho de 2020 e os dados deste artigo foram coletados em 10 de julho de 2020.

Como se vê na tabela a seguir, há um quadruplicar de todas as medidas observadas sobre o avançado da Covid-19 em MG entre os meses de junho e julho de 2020. Em julho o número absoluto de casos em Minas Gerais quadruplicou em pouco mais de 1 mês passando para 70.086 casos, assim avançando 4 posições, de 12º para 8º, na listagem comparada dos estados brasileiros. O número de óbitos também seguiu a mesma tendência e quadruplicou em Minas Gerais e chegou a 1504 mortes, fazendo que MG avançasse 3 posições, de 13º para 10º na listagem de óbitos comparados entre estados brasileiros. Quando a métrica é o número de contaminações por 100 mil habitantes e o número de óbitos por 100 mil habitantes também se observa um quadruplicar dos valores.

 

Fonte: Elaborado pelos autores através dos dados de https://raw.githubusercontent.com/wcota/covid19br/master/cases-brazil-states.csv

 

            Nos gráficos dispostos a seguir se pode visualizar melhor o avanço da contaminação em Minas Gerais. Desde março os casos de Covid-19 vêm trilhando uma curva ascendente, no entanto foi em meados do mês de junho que a curva tornou-se mais oblíqua. Sendo que a cada cinco casos de Covid-19 em MG, quatro foram registrados no mês de junho[6].

 

Fonte: Elaborado pelos autores através dos dados extraídos em 10/07/2020 de https://raw.githubusercontent.com/wcota/covid19br/master/cases-brazil-states.csv

 

            A comparação do registro de novos casos de contaminação diária por Covid-19 no gráfico abaixo também é relevante, já que indica que, em relação à MG, não se pode falar de forma nenhuma em estabilidade no espalhamento da doença. A curva de contágio, como pode se observar, vem em uma crescente diária de casos. Dois marcos aqui são importantes, o primeiro no dia 3 de junho, data em que se registrou pela primeira vez o patamar de mais de 1000 pessoas contaminadas em único dia em MG e um segundo marco em 24 de junho,  data em que o patamar de 1000 pessoas contaminadas por dia se fortaleceu e não mais decresceu, chegando em 26 de junho ao ápice de 6122 contaminados em um dia.

 

Fonte: Elaborado pelos autores através dos dados extraídos em 10/07/2020 de https://raw.githubusercontent.com/wcota/covid19br/master/cases-brazil-states.csv

 

            A curva de óbitos em MG também segue em forte crescimento, como aponta o gráfico abaixo. Sendo que ela ganha uma inclinação maior em meados de junho de 2020.

 

Fonte: Elaborado pelos autores através dos dados extraídos em 10/07/2020 de https://raw.githubusercontent.com/wcota/covid19br/master/cases-brazil-states.csv

            Em relação aos registros de morte por Covid-19 no estado fica visível no gráfico abaixo que os números vêm trilhando uma crescente. A média de mortes diárias por Covid-19 em MG no mês de maio era de 6,1, em junho passa para 23,1 e nos 10 primeiros dias de julho é de 53,9, com um pico de 90 óbitos de mineiras(os) no dia 9 de julho de 2020.

Fonte: Elaborado pelos autores através dos dados extraídos em 10/07/2020 de https://raw.githubusercontent.com/wcota/covid19br/master/cases-brazil-states.csv

            Nessa toada a interiorização da doença no estado vem ocorrendo à passos largos, dos 853 municípios mineiros, 756 tem registros de pessoas contaminadas por Covid-19[7], o que corresponde a 88,6% das cidades de MG. Além disso, 34,9% dos municípios, o que corresponde a 298 cidades, registraram mortes por Covid-19[8] [9].

Governo de MG: Entre críticas ao governo federal e aos governos municipais.

 

            Romeu Zema, o governador de Minas, permaneceu até o dia 16 de junho alinhado com o presidente da república Jair Bolsonaro[10] nas questões relativas ao enfrentamento do Covid-19 no Brasil.

            Nos meses de março e abril, Zema se contrapôs ao Fórum de Governadores e não subscreveu cartas que cobravam respostas mais precisas da União em relação à pandemia de Covid-19. Também em abril o governador mineiro chegou a visitar o presidente da república para discutir a situação fiscal de Minas, a resultante dessa conversa foi, entre outras, a construção de um protocolo de reabertura dos municípios mineiros pelo governo estadual, o “Programa Minas Consciente”.

            Contudo, a falsa sensação de calmaria vivida por MG e insistentemente publicizada pelo governador mineiro, que salientamos em artigo para o Estadão em 18 de junho de 2020[11], parece ter passado.

Diante de uma situação próxima ao colapso em Minas, em 17 de junho o governador mineiro reclamou da falta de coordenação nacional ao combate na COVID-19, declarou que fazia falta um protocolo único para todos os estados e municípios e colocou que as sucessivas trocas de ministros da saúde ao longo da pandemia prejudicaram as ações de combate ao Coronavírus[12].

            Ao mesmo tempo Zema segue o ataque político ao prefeito da capital mineira. Alexandre Kalil (PSD), que tem se distanciado das sugestões da União e do governo estadual em relação à Covid-19, mantendo Belo Horizonte sob medidas mais rígidas durante a pandemia, tem sido criticado por Zema desde o início da pandemia por diversos motivos, se antes pela rigidez das medidas, agora por supostamente não abrir leitos de UTI suficientes.

            Fato é que Zema, diante da situação de caos pandêmico sentida em Minas Gerais a partir de junho, vem tentando que a culpa política da situação que o estado começa a viver não recaia sobre si, para isso tem tensionado a crítica aos inimigos, como Alexandre Kalil e também a seus aliados, como Jair Bolsonaro.


[1] Levantamento realizado pelo site https://covid19br.wcota.me/, de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa sob coordenação do pesquisador Dr. Wesley Costa, a partir de dados das secretarias de saúde estaduais. Acesso em 10/07/2020.

[2] Fonte: https://covid19br.wcota.me/

[3] https://www.nexojornal.com.br/especial/2020/05/10/Como-os-governos-estaduais-lidam-com-a-pandemia

[4] https://cienciapolitica.org.br/noticias/2020/06/especial-abcp-acoes-minas-gerais-enfrentamento-pandemia

[5] https://cienciapolitica.org.br/noticias/2020/06/especial-abcp-acoes-minas-gerais-enfrentamento-pandemia

[6] https://www.otempo.com.br/cidades/quase-quatro-a-cada-cinco-casos-de-covid-19-em-minas-foram-registrados-em-junho-1.2355336

[7] Boletim Epidemiológico. Secretaria de Saúde de Minas Gerais. 11 de julho de 2020. http://coronavirus.saude.mg.gov.br/images/boletim/07-julho/Boletim_Epidemiologico_COVID-19_11.07.2020.pdf

[8] Boletim Epidemiológico. Secretaria de Saúde de Minas Gerais. 11 de julho de 2020.http://coronavirus.saude.mg.gov.br/images/boletim/07-julho/Boletim_Epidemiologico_COVID-19_11.07.2020.pdf

[9] Em 06 de julho de 2020 a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais modificou o procedimento para o registro de leitos ocupados no estado. O que reduziu quase em 20% as taxas de ocupação registradas. https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/07/06/ampliacao-de-leitos-e-mudanca-em-calculo-reduzem-taxa-de-ocupacao-hospitalar-em-mg-diz-governo.ghtml

[10] https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/minas-gerais-subnotificacao-baixa-testagem-e-descoordenacao-entre-estado-municipios-e-uniao-no-enfrentamento-a-covid-19i/

[11] A falsa calmaria se devia principalmente a três elementos: i) mudanças na forma de registro de casos; ii) subnotificação de sintomáticos e óbitos e; iii) baixa testagem https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/minas-gerais-subnotificacao-baixa-testagem-e-descoordenacao-entre-estado-municipios-e-uniao-no-enfrentamento-a-covid-19i/

[12] https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/06/17/interna_politica,1157428/zema-reclama-por-falta-de-coordenacao-nacional-para-combate-a-covid.shtml

 

* Publicado originalmente no jornal Estadão em 13 de julho de 2020, neste link, o artigo faz parte do projeto em parceria com a ABCP organizado pela professora Luciana Santana (Ufal)  intitulado: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia de Covid-19 no Brasil.

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