O papel da neurociências e educação após a pandemia causada pelo Covid-19

08 de maio de 2020


Mônica Naves Barcelos (doutoranda no Programa de Pós-Graduação de Biociências Aplicada à Saúde da UNIFAL-MG), Priscila de Medeiros (pós-doutoranda em Neurociências na USP), Marcelo Lourenço da Silva (professor no Instituto de Ciências da Motricidade da UNIFAL-MG) e Renato Leonardo de Freitas (professor visitante no Instituto de Ciências Biomédicas da UNIFAL-MG)

No final do ano de 2019, especificadamente no mês de dezembro, em Wuhan, na China começaram a aparecer casos de pneumonia com causa desconhecida. Após realizar avaliações dos pacientes portadores da enfermidade, foi descoberto um novo tipo de Coronavírus (2019-nCoV), RNA vírus envelopado que pode ser encontrado em humanos, outros mamíferos e em aves. Este vírus pode causar doenças respiratórias, hepáticas, entéricas e neurológicas (ZHU et al., 2020). Porém, após a contaminação na China, o vírus tem se espalhado rapidamente por todo mundo, a ponto de vir a ser considerado pandemia pelo Organização Mundial da Saúde (OMS-WHO, 2020). O 2019-nCoV ainda tem evolução viral, patogenicidade, alta transmissibilidade (ZHU et al., 2020).

Crises promovem possibilidades para transformações no âmbito de diversos setores e atividades sociais (HIRSCHFELD, 2020). A situação incomum provocada pela pandemia do Covid-19 acomete e expõe educadores e educandos a fragilidades e potencialidades, de modo à despertarem para a necessidade da procura por critérios que facultem amparo legal para o enfrentamento das novas condições. Especialmente nas últimas décadas, houve um processo importante de evidenciação sobre a relevância da construção de habilidades e capacidades, bem como formulação e implementação de ações científicas à atividade educacional.

Face à pandemia do Covid-19 e após sua passagem, questões referentes à saúde mental de educadores e educandos devem ser consideradas. Neste sentido, “práticas” podem ser, significativamente, conduzidas e apoiadas pela aplicação do conhecimento científico, de modo a se constituírem em fonte de novos progressos. Sobre isso, a abertura de espaços de discussão, para além de conteúdos e disciplina, configura a tríade entre apoio informacional, sócio afetivos e de processamento cognitivo.

Para a prescrição do desenvolvimento integral de educadores e educandos, a conservação equilátera deste triângulo, durante e pós pandemia do Covid-19, vai de encontro à perspectiva multidisciplinar. Assim, diante de uma realidade complexa em que o confinamento é o principal meio profilático como a melhor forma de conter e conviver com a propagação do vírus (BELASCO; FONSECA, 2020; OMS-WHO, 2020), educadores e educandos desenvolvem novos comportamentos necessários à adequação e adaptação.

Novos comportamentos advêm de emoções, sentimentos e humores essencialmente modificados e modulados, de modo a produzirem transformações fisiológicas em resposta às situações, como a pandemia do Covid-19. Assim, do medo à coragem (e vice-versa), o processo de resistência ou “luta” para enfrentamento integra a relação educadores-educandos por meio do conhecimento sobre a atenção cognitiva para a ocorrência e expressão de comportamentos socioafetivos que podem fragilizar ou potencializar o processo ensino-aprendizagem.

Em tempos de coronavírus, além da preservação da vida, um dos desafios consiste, portanto, na (re)organização comportamental, ou seja, de hábitos. De diferentes maneiras, a educação deve comtemplar a perspectiva socioafetiva, de modo a justificar conceitos na prática, buscando transformar as consequências da pandemia do Covid-19 em oportunidades.

A neurociências aplicada à educação apresenta, como um importante mecanismo, a neuroplasticidade, que é uma ferramenta neurocientífica que pode preparar educadores e educandos para confrontos e conflitos desencadeados durante e após a pandemia do Covid-19. O desenvolvimento e prevalecimento de capacidades e habilidades frente às condições adversas que estão sendo expostos, demanda a necessidade de construção da autonomia para a condução dos estudos. Essa é uma excelente oportunidade para moldar, consolidar e ampliar a importância da neuroeducação, assumindo-se e evidenciando um formato científico para o processo ensino-aprendizagem.

Afinal, para que a adaptação e adequação de educadores e educandos que vivenciam a pandemia do Covid-19 não tenha cunho opressor e consequências secundárias, como ansiedade e depressão, um vírus como este não pode se beneficiar de fragilidades, mas ser encarado por meio do despertar de potencialidades, como uma porta de entrada para um novo mundo, cuja evolução humana supere o modo resiliente de sentir, lembrar e tomar decisões. Ou seja, é necessário realizar uma educação científica que possibilite aos educadores e educandos compreenderem a realidade por meio da ciência.

Pelo fato do Covid-19 não ser, ainda, totalmente conhecido, comportamentos socioafetivos, emocionais e cognitivos, como medo, ansiedade, insegurança e até mesmo outras desordens psiquiátricas, podem ser concebidas. Por isso, em meio a esse cenário crítico para a sociedade, a validação do conhecimento se mostra fundamental para criação de melhores metodologias, estratégias e táticas de ensino-aprendizagem na educação.

Tanto os educandos como os educadores se possuírem conhecimento multidisciplinar sobre o atual cenário da pandemia, assim como se basearem suas atividades pedagógicas na neurociências, permitirá um enfrentamento mais eficaz e ao mesmo tempo mais suave. A relação entre educadores e educandos, com compromisso ético e humanitário, pode ser permeado nos valores do pensamento científico. A neurociências aplicada à educação é, portanto, um espaço central nas tomadas de decisões também frente ao Covid-19. Nesse sentido, ressalta-se a importância do desenvolvimento multidisciplinar, envolvendo a sinergia entre as práticas pedagógicas com a neurociências e educação.

REFERÊNCIAS

BELASCO, A. G. S.; FONSECA, C. D. Coronavírus 2020. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, n. 2, e2020n2, 2020.

HIRSCHFELD, K. Microbial insurgency: theorizing global health in the Anthropocene. Anthropocene Review, v. 7, n. 3, p. 3-18, 2020.

World Health Organization. Director-General’s statement on IHR Emergency Committee on Novel Coronavirus (2019-nCoV), Genebra, 2020. https://www.who.int/dg/speeches/detail/who-director-general-s-statement-on-ihr-emergency-committee-on-novel-coronavirus-(2019-ncov) (acessado em 16/Abr/2020).

ZHU, N.; et al. A novel Coronavirus from patients with pneumonia in China, 2019. The New England Journal of Medicine, v. 382, p. 727-733, 2020.

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