Por que é falso o dilema entre salvar vidas ou ajudar a economia?

“Simples”: Porque a quarentena e o isolamento horizontal (total) protegem a saúde dos seres humanos, minimizam o total de mortos resultantes da COVID-19 e, também, diminuem as perdas de recursos humanos na economia.

Quarta-feira, 15 de abril de 2020


Por Lora dos Anjos Rodrigues, André Luiz da Silva Teixeira, Fernando Pereira e Cirlene Maria de Matos –
professores de Economia do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UNIFAL-MG

Quando uma pandemia se instala e avança, a incerteza nos mercados corre à sua frente. Empresas e consumidores tornam-se mais cautelosos e adiam suas decisões de investimento, produção e consumo para se protegerem do desconhecido. Inevitavelmente, a atividade econômica diminui e a crise chega, mais cedo ou mais tarde… Mais cedo (!), se depender do humor de especuladores no mercado financeiro. Em pronunciamento, Kristalina Georgieva, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), afirma que mais de US$ 100 bilhões já deixaram os mercados emergentes, como o Brasil, em apenas dois meses [1].

Frente à crise, o governo pode implementar a política de isolamento horizontal recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), reduzindo, assim, a mortalidade e os danos para a economia no longo prazo. A opção alternativa seria adotar o isolamento vertical (moderado) e nos conduzir pela crise econômica com um “ingrediente” a mais de colapso no sistema de saúde e uma “pitada” de pânico generalizado.

Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e do Federal Reserve System (o Banco Central dos Estados Unidos) divulgaram, nos últimos dias, resultados preliminares de um estudo que buscou averiguar quais os efeitos de uma pandemia sobre a economia e se estes podem ser agravados ou amenizados pela política de distanciamento social [2]. Utilizando dados de cidades estadunidenses, encontraram evidências de que aquelas que foram mais atingidas pela pandemia da gripe espanhola de 1918[1] tiveram uma queda mais aguda e persistente na atividade econômica. Enquanto isso, aquelas que optaram mais cedo e por mais tempo pelas políticas de isolamento, além de evitar ruptura brusca na atividade, viram sua economia se recuperar relativamente mais rápido pós-crise. Portanto, a política de distanciamento social, além de reduzir o pico da taxa de mortalidade [3], pode gerar benefícios econômicos.

Mesmo que possamos levantar inúmeras diferenças entre as formas de produzir ou de se comunicar hoje em comparação com o período da gripe espanhola[2], não há evidências de que essas diferenças piorem os efeitos do distanciamento social sobre a economia. É possível imaginar, inclusive, que esses efeitos sejam até menores hoje em dia, uma vez que podemos utilizar a internetsmartphones, aplicativos, etc. para realizar diversas transações e possibilitar que muitas pessoas continuem trabalhando de casa. De toda forma, podemos sempre aprender com a história.

Paralelamente à política de isolamento horizontal que mitigue a crise gerada pela COVID-19, são necessárias políticas que intervenham mais diretamente na economia com o objetivo de garantir bem-estar aos grupos sociais mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, minimizar o desemprego e as falências das pequenas e médias empresas. A OMS e o FMI recomendam transferências de renda à população, subsídio de salários e o fortalecimento de seguros-desemprego, como exemplos [4].

Se compararmos o custo destas políticas ao custo que a perda de milhares de vidas implica para a economia no longo prazo, escolheremos a adoção do isolamento horizontal.

Pesquisadores da Universidade de Chicago divulgaram, nos últimos dias, resultados do estudo em que desenvolvem e aplicam um método para estimar o benefício econômico do distanciamento social [5]. Para tanto, eles multiplicam o número total de mortes que seriam evitadas em cada faixa etária nos Estados Unidos, decorrente da política de isolamento mais moderado, [6] pelo valor estatístico da vida[3] em cada faixa etária. Ou seja, o benefício da política é medido pelo valor econômico das vidas que serão poupadas, em relação a uma situação sem distanciamento social.

Os autores projetam, para um cenário de seis meses, uma redução de 1,76 milhões de mortos da COVID-19 resultante de um isolamento moderado nos Estados Unidos. O benefício econômico dessa política seria em torno de US$ 7,9 trilhões. Ou seja, quatro vezes o valor que o governo dos Estados Unidos pretende gastar para subsidiar a política de isolamento horizontal (mais restritivo) [7], que salva ainda mais vidas do que a política de isolamento utilizada no estudo.

Apesar de, moralmente e filosoficamente, não ser possível avaliar e mensurar o valor humano da vida, nas ciências econômicas, o valor estatístico da vida é importante para mensurar o preço de contratação de um seguro de vida, de carro ou de um plano de saúde (ou seja, para mercados que precisam mensurar o risco de perder a vida) [8].

Mesmo que o valor humano da vida seja infinitamente superior ao valor estatístico da vida, na prática, esta estimativa ainda corrobora com a ideia de que priorizar o controle do vírus e salvar vidas são pré-requisitos para salvar a atividade econômica, que afinal é um meio de subsistência.

Lembra daquele “Simples” no início do texto? Não parece tão inapropriado agora. Portanto, tenha bem claro para si: Não é a política de isolamento horizontal adotada pela maioria dos governadores (e confrontada muitas vezes pelo nosso próprio presidente) que gerou a crise econômica no Brasil. Pandemias, sim, geram crise na economia mundial! Negar este fato é negar a própria ciência e estimular a polarização da sociedade.

[1] Esta foi a última pandemia comparável com a da COVID-19.

[2] Os autores ressalvam que, embora seus resultados tenham paralelo em alguns países durante o surto da COVID-19, importantes fatores para entender os efeitos macroeconômicos do novo coronavírus (como a maior participação do setor de serviços na economia) não puderam ser captados em sua análise.

[3] Este valor revela a disposição a pagar do estadunidense para reduzir a probabilidade de morrer em 1% frente a problemas de saúde (em tempos sem pandemia).

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