Dia do Professor: em entrevista especial, docentes falam sobre os desafios da atividade docente em tempos de pandemia

Para marcar o Dia do Professor, comemorado em 15 de outubro, a Diretoria de Comunicação Social da UNIFAL-MG entrevistou três docentes da Universidade que apresentaram pontos de vista sobre os desafios da atividade docente em tempos de pandemia, das oportunidades que a situação ofereceu e, também, sobre Ensino a Distância e Ensino Remoto. E quem fala sobre esses assuntos são as professoras Sandra de Castro de Azevedo, do Instituto de Ciências da Natureza (ICN), Vanessa Cristina Girotto Nery, do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) e o professor  Guilherme Henrique Gomes da Silva, do Instituto de Ciências Exatas (ICEX). Confira a entrevista na íntegra.

Qual o maior desafio para os docentes na educação durante a pandemia? Fale sobre as competências que você precisou desenvolver para conseguir se adaptar ao novo modelo de ensino.

Sandra: O maior desafio para o docente na educação durante a pandemia é pensar em metodologias de ensino com estratégias que contribuam para a mediação do aprendizado, já que a distância é um obstáculo pois diminui a possibilidade de troca. Outro desafio é pensar em como chegar até o aluno que não possui internet e que está excluído ou incluído precariamente no ensino remoto, manter o vínculo aluno e professor é ainda mais essencial neste momento. Ministrar aulas sem a dinâmica da sala de aula, sem a vida da sala de aula é muito desesperador! A sala de aula é muito mais que conteúdo, é relação, é troca, é afeto, tem muita energia envolvida.

Sobre as competências tive que aprender a utilizar ambiente virtuais e suas ferramentas, aprender a usar as ferramentas para reuniões com os alunos. Mas o mais complicado é pensar em atividades assíncronas que possibilitem uma mediação da aprendizagem, como conduzir o processo ensino aprendizagem de forma que motive o aluno, sem ficar limitada a resumo, resenha, lista de exercício etc. Tenho utilizado vídeos curtos, quadrinhos e charges para articular aos textos e problematizar. Outra competência que preciso desenvolver melhor é como organizar o tempo para não trabalhar 18 horas  por dia para atender as demandas do ensino remoto.

Guilherme: O trabalho remoto tem exigido a conciliação simultânea de diversas atividades (profissionais e pessoais) que muitas vezes tornam-se obstáculos para o trabalho docente. Nosso trabalho tem invadido nossas casas, com aulas ao vivo, gravação de aulas, reuniões, atendimento a estudantes de graduação, pós-graduação, participação em bancas de mestrado e doutorado, engajamento em órgãos colegiados, continuidade dos projetos de extensão e de pesquisa, etc. Nosso maior desafio tem sido repensar as práticas avaliativas bem como motivar nossos estudantes, pois não tem sido fácil para eles. Para me adaptar a tudo isso, inicialmente precisei repensar na minha organização de tempo e me aperfeiçoar em plataformas de comunicação, edição e publicação de vídeos e estudar sobre diferentes formas de avaliação de forma remota. Na área das exatas, em particular, esse último ponto é um desafio bastante grande.

Vanessa: Para mim, inicialmente, o maior desafio para os docentes durante a pandemia foi o diálogo com os próprios colegas de trabalho no sentido de propor a suspensão do calendário para pensarmos as ações que poderiam ser realizadas para estudantes em situação de exclusão. Temos estudantes extremamente pobres que não teriam condições de continuar os estudos sem ser em formato presencial, pelo fato de não terem computador e nem mesmo uma rede de internet. Era preciso parar e reelaborar. O desafio foi e ainda é o de pensar na inclusão dos excluídos e qual o papel de uma Instituição Pública de Ensino Superior nesse processo. Uma das competências que precisei ampliar também foi a habilidade de comunicação com estudantes, além de ser preciso disponibilizar horários mais flexíveis para atendê-los por meio de diversos recursos já existentes, porém de forma mais direcionada, como WhatsApp.

“Avalio ainda que precisamos ter muito cuidado com essa questão de ensino híbrido para que não haja nenhuma tentativa de sucateamento dos nossos cursos presenciais” Prof. Guilherme da Silva

Que oportunidades o momento também trouxe para a educação?

Sandra: O momento traz muitas oportunidades, entre elas: ampliar a luta por uma escola com espaço físico adequado e menor quantidade de estudantes em sala de aula, evitando aglomerações e possibilitando ao professor se dedicar mais para cada estudante, respeitando a diversidade de aprender de cada um; valorizar o professor enquanto um profissional essencial para a educação e para a sociedade, pois atua diretamente na formação das pessoas; ressaltar a escola como um espaço essencial de socialização e diversidade, e não apenas o local do aprender conteúdos científicos; repensar metodologias de ensino envolvendo tecnologias, mediação e autonomia do aluno; e reforçar  uma  concepção de educação mais humanizadora e humanizada, superando uma visão conteudista e tecnicista da educação.

Guilherme: O trabalho remoto nos permitiu repensar muitas de nossas práticas corriqueiras na universidade. Por exemplo, penso que muitas das reuniões e orientações que eu participava presencialmente podem agora facilmente ser feitas sempre de forma online. Especificamente no que diz respeito ao ensino, avalio que uma forma híbrida de ensino (presencial e remota) será um caminho sem volta no futuro. Contudo, reforço que nada substitui a interação humana. Avalio ainda que precisamos ter muito cuidado com essa questão de ensino híbrido para que não haja nenhuma tentativa de sucateamento dos nossos cursos presenciais.

Vanessa: A oportunidade é a de refletir e agir sempre. Nesses 7 (sete) meses de isolamento, sem o abraço, sem o olhar nos olhos, vivenciei experiências importantíssimas tanto para minha profissão, como para minha própria experiência pessoal. Participei de dois grupos no WhatsApp que reuniu mais de 100 servidores em cada um. O primeiro, chamado “Pauta IFES”, congrega servidores Públicos de todas as regiões do Brasil e muitos da UNIFAL-MG. Nesse espaço trocamos ideias, nos reunimos de forma virtual, fizemos lives e toda conversa girou em torno de um único objetivo: como reorganizar nossas aulas em meio a pandemia.  O segundo, chamado “Ciclos de Formação Docente”, é resultado da formação oferecida pelo Cead/UNIFAL-MG para apoiar docentes em suas atividades virtuais. Nesse sentido, penso que a união, o diálogo e a troca de experiências que estão sendo realizadas nesses espaços, como exemplos, está sendo um ganho importante nesse momento de isolamento social. Dessas duas experiências algo que ficou marcante foi a palavra EMPATIA, não apenas como palavra, mas como conceito, ou seja, uma união de servidores públicos (docentes e técnicos) em torno de um olhar de superação dos desafios: olhar para os estudantes, olhar para os servidores, olhar para os números de mortos, que tinham nomes, olhar para os desmontes que estamos sofrendo, olhar para o horizonte e caminhar…

“Aprender é um direito humano. Assim, a estratégia continua sendo o diálogo verdadeiro, direcionando conteúdos para o desenvolvimento crítico do sujeito, ou seja, o que ele [estudante] pode fazer com o que eu estou ensinando?” Profa. Vanessa Girotto

De que forma as metodologias adotadas, com a utilização das ferramentas tecnológicas, têm contribuído para o ensino das disciplinas que ministra?

Sandra: Neste momento de ensino remoto a tecnologia é uma importante ferramenta: os ambientes virtuais facilitam o acesso ao material pelo aluno, permitem a realização de fóruns e outras atividades com possibilidades de troca, além de proporcionar encontros on-line para discutir o conteúdo e manter contato com o aluno. No entanto, é essencial que o aluno se planeje para realizar as leituras e fazer as atividades. Antes do ensino remoto, pouco se utilizava a tecnologia no ensino, somente para passar vídeos e músicas, mas agora essa visão mudou.

Guilherme: Nas minhas aulas tenho utilizado a gravação de videoaulas para os momentos assíncronos da disciplina e, semanalmente, fazemos um encontro síncrono, para tirar as dúvidas e aprofundar em alguns conceitos. Tenho percebido que, mesmo com todo apoio institucional, muitos alunos ainda têm dificuldades de conexão. Dessa forma, as aulas assíncronas acabam sendo mais oportunas, uma vez que os estudantes podem assistir várias vezes aos vídeos e não são prejudicados quando seus equipamentos apresentam problemas técnicos. Durante 3 vezes na semana, via Google Meet, eles também participam de rodas de conversa para tirar dúvidas das atividades propostas. Contudo, temos notado dificuldades de acesso a esses momentos síncronos, então, gravamos as monitorias e os estudantes acessam quando podem. Para minha prática, o Moodle tem se mostrado bastante completo e os cursos de capacitação oferecidos pela UNIFAL-MG em julho e agosto deste ano ajudaram bastante.

Vanessa: São muitas as iniciativas oferecidas por nossa Universidade na tentativa de colaborar com o aperfeiçoamento das aulas no formato virtual e tenho muita gratidão por isso. Penso que o uso das tecnologias virtuais de ensino, em especial a plataforma Moodle, tem sido, ao mesmo tempo, um desafio e uma possibilidade. O desafio ainda está na falta de acesso por muitos estudantes, apesar de toda a política institucional realizada, como a distribuição de computadores e pacotes de internet. As descobertas têm sido inúmeras, em especial, com relação à quantidade de recursos educacionais possibilitados pelo Moodle. Eu já trabalho com o ensino híbrido em minhas aulas há um bom tempo e penso que a possibilidade de realizar avaliações e atividades em formato integrativas, por exemplo, tem sido bem aceita pelos estudantes e uma possibilidade de aprendizagem importante e nova para mim. 

“O maior desafio para o docente na educação durante a pandemia é pensar em metodologias de ensino com estratégias que contribuam para a mediação do aprendizado, já que a distância é um obstáculo, pois diminui a possibilidade de troca” Profa. Sandra de Azevedo

Ao se considerar o ensino tradicional e a necessidade de transformá-lo para a formação crítica e social dos alunos, quais seriam as formas de tornar a aula mais interativa e proveitosa na modalidade a distância e remota?

Sandra: A problematização do conteúdo. Ela leva o aluno a construir conhecimento por meio da análise da realidade imediata e distante, já que vivemos em um mundo globalizado em que o local e global estão conectados. Ao problematizar, o interesse do aluno é despertado e a aula passa a ser mais interativa e proveitosa.  Entretanto, a problematização deve envolver conteúdos que buscam uma compreensão que pretenda uma possibilidade de mudança e transformação. Entendo que a problematização é essencial no presencial, no remoto e na EAD.

Guilherme: Essa é uma pergunta que merece uma pesquisa acadêmica para ser respondida. Particularmente, acredito que ainda estamos dando os primeiros passos e temos muito a caminhar e aprender. Tenho tentado utilizar os recursos do Moodle para gerar mais interação nas aulas, mas também tomando todos os cuidados para não fazer a disciplina remota tornar-se mais difícil para os alunos do que seria na modalidade presencial. Por isso, acho essencial ouvirmos os alunos, conhecer suas dificuldades nesse momento e, mais do que tudo, entender que estamos em uma situação de excepcionalidade que a maior parte de nós nunca imaginou que estaríamos passando. Precisamos lembrar que nós ministramos duas ou três disciplinas, mas que os alunos estão participando de dez ou mais. Se não tivermos todo o cuidado, acabamos por perder oportunidades pedagógicas e transformamos nossa disciplina em mais um obstáculo para o aluno do que uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional.

Vanessa: Entendo que o tradicional pode ter vários sentidos e nem sempre o que é tradicional é ruim. Ensinar o conteúdo de forma expositiva pode ser considerado algo tradicional, porém, necessário. Penso que o que deve ser mudada é a forma como esse conteúdo é trabalhado com os estudantes e isso independe da plataforma utilizada, seja ela a lousa de giz ou o computador de última geração. Portanto, independente da aula ser em formato virtual ou presencial, ela precisa trazer conteúdos que promovam a criticidade aos estudantes e isso só será possível se for ancorada em uma boa formação de conteúdo e humana. Penso, também, que o diálogo verdadeiro, o ouvir e considerar as necessidades reais dos estudantes, ainda continua sendo a melhor ferramenta. Lembrando que partir das necessidades dos estudantes não é não ficar nelas, e sim avançar em direção ao estabelecimento de uma educação que não é neutra. Isso significa que é preciso transformar o conceito que está por trás do termo “tradicional”, que, na minha opinião, seu antônimo não é inovação, mas humanização.

Em relação ao ensino superior, quais são as estratégias para facilitar e efetivar o processo de ensino-aprendizagem, considerando, aqui, o bem-estar do discente em formação e do professor?

Sandra: O planejamento é essencial nesse processo: planejamento da disciplina pelo professor e planejamento dos alunos para conseguir acompanhar a disciplina. A relação entre professor e aluno é essencial, deve existir comunicação e evitar dúvidas, os acordos devem ser feitos e respeitados. Os encontros on-line são momentos importantes para aprofundar a temática estudada, tirar dúvidas e dar retorno das atividades que os alunos fazem. Esse retorno valoriza o trabalho do aluno e indica para o professor as fragilidades do processo.

Guilherme: Há muitas estratégias para facilitarmos o processo de ensino e aprendizagem e as pesquisas na área de educação e ensino têm avançado muito nesse sentido. Particularmente, no âmbito da educação matemática, as pesquisas envolvendo o trabalho com cenários para investigação, modelagem matemática e resolução de problemas tem trazido importantes resultados nos últimos 20 anos. A maior dificuldade é fazer com que os resultados dessas pesquisas efetivamente cheguem em sala de aula. Tenho notado que os docentes em nossa universidade possuem cada vez menos tempo, por se engajarem em diversas atividades necessárias para o funcionamento da instituição. Isso faz com que não possamos sentar e discutir, por exemplo, novas metodologias para o ensino de determinadas disciplinas. Por isso, acredito que a instituição deva proporcionar mais espaços para que possamos ter esses momentos. Nesse momento de trabalho remoto que estamos vivendo, isso se mostra ainda mais difícil e tem se mostrado como mais um desafio para enfrentarmos, mas, juntos, acredito que vamos superar essa situação. A maioria dos professores da UNIFAL-MG está trabalhando muito para que a formação acadêmica de nossos estudantes seja o menos afetada possível durante esse momento de isolamento social e trabalho remoto.

Vanessa: Eu defendo que o processo de ensino não resulta necessariamente em processo de aprendizagem, ou seja, são coisas distintas, porém indissociáveis. O processo de ensino envolve tempo, dedicação, estudo, criação, autonomia e o mais importante: o direcionamento para os direitos fundamentais do ser humano. E aprender é um direito humano. Assim, a estratégia continua sendo o diálogo verdadeiro, direcionar conteúdos para o desenvolvimento crítico do sujeito, ou seja, o que ele pode fazer com o que eu estou ensinando? O que ele pode aprender sobre sua própria vida e sobre a vida de outros? Qual a relação entre o que eu ensino e o que eu faço no meu dia a dia? Existe coerência? Quem eu quero formar? Considerando o bem estar como algo realmente essencial para o processo de ensino e de aprendizagem, eu creio que podemos trabalhar em torno de alguns itens possíveis: ensinar tudo o que o estudante tem que saber, baseado, por exemplo, nas obras clássicas da humanidade em diálogo com o cotidiano; promover espaços de reflexões críticas, de perguntas e não apenas dar respostas; reconhecer a amorosidade e a esperança como itens fundamentais do processo educativo; e ser humilde para ensinar tudo o que aprendeu e aprender tudo o que ainda não sabe.

Saiba mais sobre os entrevistados

 

 

 

Sandra de Castro de Azevedo é professora do curso de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UNIFAL-MG com atuação nas áreas de Formação de Professores, Ensino de Geografia e Geografia Urbana. Possui graduação em Geografia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2002), mestrado (2006) e doutorado (2011) em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Atuou na Secretaria Estadual de Ensino de São Paulo como professora de Geografia do ensino fundamental II e médio por dez anos e na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo como professora de geografia do ensino fundamental por dois anos. Um de seus principais objetivos é ressaltar a sala de aula como espaço de transformação.

 

 

 

Guilherme Henrique Gomes da Silva é professor do Instituto de Ciências Exatas e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIFAL-MG. Desenvolve pesquisas sobre as possibilidades de engajamento da educação matemática em questões sociais utilizando a perspectiva da Educação Matemática Crítica. Em 2017, recebeu Menção Honrosa, outorgada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), no Prêmio CAPES de Teses – 2017, na área de Ensino. É especialista em Matemática Universitária e mestre e doutor em Educação Matemática pela Universidade Estadual Paulista. Realizou estágio de doutoramento na Rutgers, the State University of New Jersey, em Newark, Estados Unidos.

 

 

 

Vanessa Cristina Girotto é professora do curso de Pedagogia da UNIFAL-MG, responsável pelas disciplinas de Alfabetização, Educação de Pessoas Jovens e Adultas e Estágio Supervisionado. Nos cursos de licenciatura ministra a disciplina de Didática e atua, ainda, no Programa de Pós-Graduação em Educação. Coordenou o curso de Pedagogia EaD da UNIFAL-MG de 2012 a 2017. Sua formação em Pedagogia (2004), no mestrado (2007) e no doutorado em Educação (2011), foi realizada na Universidade Federal de São Carlos. Desenvolveu doutorado sanduíche em Educação junto ao Centro Especial de Investigação em Teorias e Práticas Superadoras de Desigualdades (CREA), da Universidade de Barcelona (2008).

Colaboração: Milena Favalli Simão, Ana Carolina Araújo e Luciana Costa de Resende

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