Cruéis e esquisitos

Entre as misérias incalculáveis do mercado editorial brasileiro, cujo oportunismo financista tem relação com a decadência do ensino básico e o aviltamento da comunicação social nos últimos trinta e poucos anos, está o fato de ainda não contarmos com uma tradução decente dos Contos cruéis (1883). Falamos de um dos livros mais representativos do estilo decadentista e no qual estão reunidas algumas obras-primas da narrativa curta.

A única tradução disponível no Brasil data de 1987 e é incompleta: faltam alguns dos melhores contos. Pior ainda, foi feita de modo extremamente descuidado, às vezes dando a impressão de que a tradutora sabia muito bem o francês, mas ignorava o português a ponto de não conhecer uma palavra tão comum como “réprobo”. A revisão, também, é um horror, registrando absurdos como “conversar esperanças” (o certo seria, obviamente, “conservar”). Mesmo com tantos defeitos, o livro vale como amostra da inventiva e do “clima” da obra de Villiers de L’Isle-Adam, escritor que foi amigo de Charles Baudelaire e de Richard Wagner – a quem, por sinal, dedica o último texto do volume. “Diz-me com quem andas” etc.

Contos cruéis, à primeira leitura, pode parecer uma simples manifestação do Romantismo tardio. Esse julgamento é justo para um conto como “Véra”, que não passa de fantasia mórbida típica da vertente mais doentia do estilo predominante na literatura europeia do início do século XIX. E, de fato, o Decadentismo é, em certos aspectos, uma radicalização da tendência romântica ao escapismo por meio do devaneio, do sonho, da viagem no tempo e no espaço. Lidos com mais vagar, porém, alguns dos contos de Villiers expressam um grau mais elevado do mesmo fenômeno, pois o desalento dos escritores mais lúcidos do fim do século repercutia uma consciência muito mais aguda do destino da civilização burguesa do que certos desvarios fáceis de atribuir ao mero desajuste existencial, por exemplo, de uma nobreza que havia perdido sua razão de ser, embora conservasse suas enormes posses.

Esse talvez tenha sido o caso de Byron (descontadas as altas qualidades de sua poesia), mas de modo algum podia ser o de Villiers. Ele também era um aristocrata, mas de família arruinada pela Revolução Francesa, a ponto de seu pai ter-se tornado um trambiqueiro que vendia títulos de nobreza falsificados. Sua aristocracia, como a de muitos decadentistas que cabem perfeitamente na expressão “poetas malditos”, era muito mais uma aristocracia do espírito, pautada pelo desespero de viver num tempo em que intelecto e sensibilidade começavam, sob o novo império do utilitarismo burguês, a perder totalmente o sentido. É nessa chave que ler os Contos cruéis, ou As flores do mal (1857), do precursor Baudelaire, ou o meio chato mas importante Às avessas (1884), de Joris-Karl Huysmans, ou O retrato de Dorian Gray (1890), do irlandês Oscar Wilde, pode revelar-se de uma atualidade surpreendente: as mutações do mundo atual, que tanto desorientam a maioria das pessoas, são apenas o resultado final de um processo marcado pela submissão de todos os valores ao imperativo do lucro.

O melhor conto dessa edição é “O intersigno”, narrado por um jovem barão. Ele conta a estranha experiência de visitar seu antigo professor, um frade retirado para certa aldeia nos confins da França. Durante a visita, um episódio alucinatório o deixa intrigado, e o fenômeno se repete quando ele precisa voltar às pressas para Paris devido a uma questão judicial, a respeito da qual precisava tomar urgentes providências. O enredo culmina com a notícia da morte do religioso, explicada por aquelas alucinações, que são reinterpretadas como visões premonitórias. “Intersigno”, termo criado por um padre francês em 1825, era isso mesmo: o anúncio da morte de alguém, feito a outra pessoa. O enredo é conduzido, nessa narrativa, com uma mestria difícil de igualar – somente por ela, o autor já poderia ser considerado um mestre da contística.

Em geral, os narradores de Villiers são nobres que, enfarados da vida social, resolvem retirar-se para lugares isolados. Há variações disso, como “O desejo de ser um homem”, em que Esprit de Chadval, ator decadente, resolve provocar um incêndio de enormes proporções a fim de causar em si mesmo as fortes emoções que espera obter sentindo remorsos. Algo semelhante (excluído o remorso) seria criado por Sartre em “Eróstrato”, um dos contos que integram sua coletânea O muro (1939). Essa tentativa do protagonista de assumir uma crueldade superlativa exemplifica outra tendência decadentista: forçar os limites da moral cristã-burguesa em busca da verdadeira natureza humana, que seria marcada pela crueldade expressa no título da coletânea. Ainda no Romantismo, essa prospecção dos avessos humanos começou a ser feita em livros como Do assassinato considerado com uma das belas artes (1827), de Thomas De Quincey, e na obra de Edgar Allan Poe, que pode ser considerada a principal matriz de grande parte das ficções esquisitas que povoariam a literatura moderna.

O último conto “cruel” – mas “A rainha Ysabeau” também mereceria um comentário à parte – é “O segredo da música antiga”, uma espécie de parábola com ingredientes nonsense: a orquestra da Ópera de Paris recebe uma partitura de Wagner contendo um solo para chapéu-chinês, antigo instrumento militar já em desuso na época; encontrado o último solista capaz de tocar essa relíquia sonora, começa o ensaio; mas o velhinho se declara inapto para a tarefa, pois o seu solo consistia em silêncios, e ele não considerava possível tocar aquilo no chapéu-chinês. Com essa história desconcertante, Villiers antecipa de mais de meio século o beco sem saída a que conduziria o experimentalismo da música moderna – ninguém menos que o norte-americano John Cage, considerado um dos compositores mais radicais do século XX, concluiu que a música ocidental “precisava de um pouco de silêncio” e, entre outras composições cheias desse ingrediente que parece estranho (pois toda música contém pausas), criou em 1952 a partitura intitulada 4’33’’, cuja execução consistia em que, durante quatro minutos e 33 segundos, os músicos de uma orquestra empunhassem seus instrumentos, mas não executassem nenhuma nota.

Restará, aos leitores que conseguirem encontrar um exemplar ou o PDF dos Contos cruéis, começar a torcer para que alguma editora brasileira lhes apresente a tradução integral, e feita de modo mais zeloso, dessa obra tão significativa e surpreendente. Ou, então, “morrer” nos 17 euros (mais despesas de frete) que custa a edição da Penguin disponível em Portugal. Bem mais barato que isso, a gente compra na Amazon, frete grátis, a biografia de Van Gogh, um volume com mais de mil páginas, ilustrações em cores, capa dura.

Título: Contos Cruéis
Autor: Villiers de L’Isle-Adam
Tradução: Pauline Alphen
Gênero: Contos | Literatura Francesa
Ano da edição: 1987
Selo: Iluminuras

Eloésio Paulo é professor da UNIFAL-MG e autor dos livros: Teatro às escuras — uma introdução ao romance de Uilcon Pereira (1988), Os 10 pecados de Paulo Coelho (2008), Loucura e ideologia em dois romances dos anos 1970 (2014) e Questões abertas sobre O Alienista, de Machado de Assis (2020). Desde 2021, colabora com a coluna “UNIFAL-MG Indica” do Jornal UNIFAL-MG e atualmente assina, no mesmo jornal, essa coluna exclusiva semanal sobre produções literárias. “Montra” significa vitrine ou espaço onde artigos ficam em exposição.

 

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