A cor da Covid-19

Terça-feira, 14 de julho de 2020

Por Jackson Wilke da Cruz Souza (doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar e professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UNIFAL-MG)

Em diferentes momentos na História, percebemos como questões de saúde pública evidenciaram posicionamentos ideológicos no mundo, especialmente no Brasil: nas epidemias de poliomielite (em 1953) e varíola (em 1904), nos surtos de cólera (em 1991) e zika (2015), além da mais recentemente pandemia de Covid-19 (2019).

O país com uma forte e arraigada herança escravista ainda não se superou. Os episódios citados anteriormente, os quais ameaçaram a saúde de todos brasileiros, têm algo em comum: eles seccionaram a população quase que em dois grandes grupos, a saber: aqueles que têm condição e acesso ao tratamento e aqueles que não o têm. Numa observação, chegaremos à conclusão de que esse segundo grupo é formado por uma população majoritariamente negra.

Quando os dados sobre a Covid-19 começaram a chamar a atenção da opinião pública sobre a gravidade da doença, não foi colocado em pauta a variável cor, o que veio acontecer somente em 11 de abril, mais de um mês após a confirmação clínica do primeiro caso, no Brasil. A partir daí, começamos a constatar estatisticamente algo que já percebíamos em hospitais e (infelizmente) necrotérios: de fato, o maior número de acometimentos da doença sobreveio à população negra.

Ainda não há evidências científicas que o atual corona-vírus tenha maior letalidade e incidência em um corpo fenotipicamente preto. Mas a questão que levantamos aqui é o fato de esta doença salientar as desigualdades sociais e econômicas do país. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 75% dos mais pobres são negros, os quais são as maiores vítimas letais da doença. Para se ter uma ideia, os bairros Grajaú e Cidade Tiradentes, na periferia de São Paulo, são compostos por 56,81% e 56,08% de negros, respectivamente, enquanto Moema, região mais próxima ao centro, é de 5,82%. Desde o início da pandemia até junho de 2020, segundo a Secretaria de Saúde de São Paulo, morreram 460 pessoas nos referidos bairros periféricos, enquanto em Moema, 130.

A disparidade socioeconômica exemplificada advém do racismo, marcado discursivamente em enunciados linguísticos. Diante da inexistência de uma vacina, algumas medidas preventivas foram implementadas, dentre as quais destacou-se o imperativo “fique em casa” para os dois grupos populacionais, aqui já caracterizados. As pessoas, então, deveriam manter-se em distanciamento social, convivendo em casa somente com sua família, usando sempre álcool em gel, caso não pudessem lavar as mãos (aqui, precisamente, não entraremos no mérito destas duas últimas medidas, mas que caberiam muitas outras reflexões ideológicas e econômicas).

Com o passar do tempo, percebeu-se que algumas atividades, tidas como “essenciais”, não poderiam entrar em quarentena. Essas atividades são ocupadas e desenvolvidas, na maioria, por negros. Essas mesmas pessoas são aquelas que enfrentam o transporte público lotado, que são expostas ao contato diário com outras tantas pessoas e que retornam aos seus lares também expondo suas respectivas famílias à doença.

Mais tarde, começou a circular o enunciado “fique em casa, se puder”. A inclusão da proposição condicional na frase é mais do que empático, é admitir que aquela sentença, socioeconomicamente determinada, não abarca e não é direcionada a todos. Significa olhar para os dados aqui citados e reconhecer que pessoas pretas são empurradas aos leitos e às valas cotidianamente. Os sentidos construídos a partir desses enunciados não são gratuitos. Eles se constituem de maneiras social, histórica e ideológica. Seria necessário analisar alguns outros fatores que condicionam a construção desses sentidos, como quem diz, como se diz e em que meio se diz, por exemplo (algo que poderemos fazer em outro espaço e/ou momento).

Mas o que chamamos à atenção, mais uma vez, é o fato de mais dos nossos serem afetados e morrerem todos os dias. Mais dos nossos que estão encarcerados são violentados pela força ideológica de “bandido bom é bandido morto”, expostos aos acometimentos da Covid-19 nos presídios, evidenciado pelo aumento de número de casos entre a população carcerária. Mais dos nossos deixam seus lares para trabalharem em postos de gasolina, para entregarem (de moto ou carro) a comida que foi solicitada por meio de aplicativos, para trabalharem em tarefas domésticas, desinfectando a casa de outras pessoas, para darem plantões em funções ligadas direta ou indiretamente à área da Saúde em jornadas de 8 a 12 horas de trabalho e retornarem aos seus lares sob a construção linguística condicional “se puder”.

Mais que mostrar a fragilidade da Vida e das políticas públicas relativas à Saúde, a Covid-19, no Brasil, jogou em nossas caras quais os lugares ocupados pela maioria de nós, negros, e quais os tratamentos (clínico e social) a que somos submetidos. Como resultado, esses lugares aumentam cotidianamente o abismo social entre aqueles grupos citados no início deste texto. Esses lugares nos distanciam socioeconomicamente todos os dias da Vida.

Para “finalizar” essa questão, lembremos de (ou conheçamos) um dos versos de Ellen Oléria, parafraseando um verso bíblico, em que questiona e se reafirma como mulher negra: “Conhece a carne fraca? Eu sou do tipo carne dura”. Endureçamos nossa carne e resistamos, povo preto!

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