Existe trampolim no fundo do poço? Algumas anotações sobre a crise da Covid-19 nas economias da América Latina

Terça-feira, 23 de junho de 2020

 

Por Bruno Aidar (doutor em História Econômica pela USP e professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UNIFAL-MG)

O peso das três grandes da América Latina. Depois da China, Europa Ocidental e Estados Unidos, os impactos da pandemia na América Latina, bem como sua capacidade de reagir social e economicamente, serão cruciais para o destino de uma boa parcela do mundo e essencial para a definição de políticas públicas para a semiperiferia e periferia do capitalismo. De especial importância, é a análise das três maiores economias latino-americanas, que também apresentam os maiores contingentes populacionais. Em 2018, o Brasil detinha 35% do PIB da economia da região, seguido bem abaixo pelo México (23%) e Argentina (10%). Em ordem decrescente, Colômbia, Chile e Peru representam juntos 16% da economia latino-americana. Assim, as três maiores economias alcançam 68% do PIB da região, chegando a 84% ao se considerar as seis maiores.[i] Em números de habitantes, as proporções são semelhantes, perfazendo Brasil, México e Argentina 60% da população latino-americana, e atingindo 76% quando se inclui Colômbia, Peru e Chile.[ii] As avaliações recentes das organizações internacionais, como a OCDE, o Banco Mundial e a CEPAL, apresentam algum material para reflexões comparativas sobre os destinos das três grandes economias.

Economias já fragilizadas. A capacidade de resistência às consequências da pandemia depende certamente das trajetórias anteriores desses países na última década. Contudo, a presença de um quadro de declínio acentuado das economias da América Latina e do Caribe antes da eclosão da crise sanitária traz elementos dramáticos às possibilidades de reação aos desafios atuais. Entre 2014 e 2019, as economias da região tiveram o menor crescimento anual do PIB desde a década de 1950, apenas 0,4%. Para se ter um ponto de comparação, no período de 1979 a 1992, sob os efeitos da crise da dívida externa, o PIB da região cresceu entre 2,6% (1979-1985) e 2,2% (1986-1992) (CEPAL, 2020b, p. 8). Dessa forma, o quinquênio antes da pandemia testemunhou um crescimento pífio mesmo face à década considerada “perdida”, agravando o ponto de partida para a realização de políticas anticíclicas de recuperação e sustentação da demanda agregada. Em particular, quando se considera o período posterior a 2013, uma profunda instabilidade caracteriza a evolução das taxas de crescimento no Brasil e na Argentina, enquanto o México mantém uma trajetória relativamente constante até 2018 (ver Gráfico 1).

 

Fonte: OECD Economic Outlook – EO107.

Previsões de redução do PIB. Sem data para terminar, a crise da Covid-19 marcará uma deterioração dessas economias já fragilizadas. Segundo as projeções da CEPAL para a recessão nas economias desses países, estima-se uma redução de -5,2% do PIB para a economia brasileira e de -6,5% tanto para a Argentina quanto para o México (CEPAL, 2020b, p. 15). A OCDE apresenta cifras mais pessimistas para dois cenários em 2020, projetando um decréscimo de -7,4 a -9,1% do PIB para o Brasil, de -8,3% a -10,1% para a Argentina, e de -7,5 a -8,6% para o México (OECD Economic Outlook EO107, 2020). O Banco Mundial, por sua vez, estimou um declínio do PIB real de -8% para o Brasil, de -7,3% para a Argentina e de -7,5% para o México (World Bank, 2020, p. 86). Independente das projeções, trata-se de um momento crítico das economias latino-americanas, um choque externo semelhante à I Guerra Mundial e à Crise de 29, quando houve uma redução de cerca 5% do PIB da América Latina (CEPAL, 2020d, p. 20). Comparado ao período mais recente, a crise atual, na qual se prevê uma redução de 7,2% do PIB latino-americano somente em 2020, é bem pior do que a crise de 2008-2009 (World Bank, 2020, p. 81). Em 2009, sob efeitos dessa última crise, a economia latino-americana sofreu uma recessão de -2% (World Bank, 2012, p. 16).

Impactos heterogêneos na população. Esse declínio acentuado da economia não afeta de maneira idêntica todos os setores da população, pois prevê-se também um aumento na concentração de renda e da pobreza. Somente pelo impacto da pandemia, estima-se um crescimento igual ou superior a 3% no Índice de Gini de Argentina, Brasil e México, o que é considerável em uma variação em tão curto prazo (CEPAL, 2020e, p. 4). Em um cenário médio, ocorreria um crescimento nos três países de 14 a 26% da população pobre e de 37 a 45% da população em extrema pobreza.[iii] Também nesse aspecto deve-se considerar as trajetórias antecedentes de elevada proporção de população pobre no México (42% em 2019), comparado a Argentina (27%) e Brasil (19%). Nos diferentes países da América Latina, os trabalhadores informais, mulheres, jovens, indígenas e negros são os mais afetados pela crise (CEPAL, 2020e, p. 6).

A simbiose necessária. Os programas de transferência monetária, a distribuição de alimentos, medicamentos e produtos de higiene, a suspensão do pagamento de contas de serviços básicos e a proteção social dos trabalhadores formais têm sido medidas implementadas pelos diferentes países, mas sem conseguir alcançar toda a população atingida, já previamente abalada pela situação dos anos anteriores. Essas ações mais econômicas exigem uma coordenação com políticas mais ativas de restrição sanitárias nas diferentes escalas do governo (municipal, estadual e federal), articulação que tem sido notavelmente falha nos casos do Brasil e do México.

Adeus Hayek? As políticas econômicas deverão ser pensadas em dois momentos distintos. Um referente ao período de combate à pandemia e outro relacionado à recuperação dessas economias, aspecto temporal que é obliterado na discussão do trade-off entre combate à pandemia e recuperação da economia. Ilude-se a si próprio ou aos outros quem acredita que é possível reativar a economia sem combater a pandemia, ou pior, que é possível safar-se dessa última tarefa. Independentemente das políticas econômicas a serem adotadas, assim como ocorreu na I Guerra Mundial e na Crise de 29, os fundamentos internacionais da globalização liberal parecem ter sido seriamente atingidos pelo declínio acentuado dos preços das commodities, pela ruptura do comércio internacional, pelo agravamento da instabilidade cambial (mesmo em regimes de câmbio flexível), pela restruturação abrupta das cadeias produtivas globais e pelo declínio de uma ordem mundial em torno de uma única potência. Resta saber se tudo isso se manterá apenas com os instáveis fluxos internacionais de capitais. Em todo caso, não deixa de ser irônico que a dimensão mais imaterial da economia mundial esteja sendo duramente atingida pela sua dimensão mais concreta.

Firmeza, razão e criatividade. Ainda não conhecemos todas as consequências dessas mudanças, mas há indícios de uma alteração profunda do capitalismo mundial tal como desenhado desde os anos 90. Todos os problemas dessa globalização já haviam sido apontados pela crise de 2008-2009, sem, contudo, conduzir a uma nova regulação econômica, o que agora nos pareça talvez inevitável. No caso das grandes economias latino-americanas, o momento exige firmeza no combate à pandemia e, posteriormente, razão e criatividade para a construção de novas políticas econômicas que não estão contidas na receita dos fundamentals, mas estão inseridas dentro da mudança do quadro internacional. Não há trampolim no fundo do poço, é preciso cria-lo.


Referências

Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL). Anuario Estadístico de América Latina y el Caribe, 2019 (LC/PUB.2020/2-P). Santiago: CEPAL, 2020a.

Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL). Informe sobre el impacto económico en América Latina y el Caribe de la enfermedad por coronavirus (COVID-19): estudio elaborado por la Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL) en respuesta a la solicitud realizada por el Gobierno de México en el ejercicio de la  Presidencia Pro Témpore de la Comunidad de Estados Latinoamericanos y Caribeños (CELAC) durante la Reunión Ministerial Virtual sobre Asuntos de Salud para la Atención y el Seguimiento de la Pandemia COVID-19 en América Latina y el Caribe celebrada el 26 de marzo de 2020 (LC/TS.2020/45). Santiago: CEPAL, 2020b.

Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL). Informe Especial COVID-19, n. 1: América Latina y el Caribe ante la pandemia del COVID-19 – efectos económicos y sociales. Santiago: CEPAL, 2020c.

Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL). Informe Especial COVID-19, n. 2: Dimensionar los efectos del COVID-19 para pensar en la reactivación. Santiago: CEPAL, 2020d.

Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL). Informe Especial COVID-19, n. 3: El desafío social en tiempos del COVID-19. Santiago: CEPAL, 2020e.

Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD). OECD Economic Outlook – EO107 – 2 Scenarios in one dataset. Disponível em https://stats.oecd.org/ Acesso em 14 de junho de 2020.

World Bank. Global Economic Prospects, June 2020. Washington, DC: World Bank, 2020.

World Bank. Global Economic Prospects, January 2012: Uncertainties and Vulnerabilities. Washington, DC: World Bank, 2012.


[i] Cálculos com base no PIB em milhões de dólares a preços correntes (CEPAL, 2020a, p. 31).

[ii] Cálculos com base na população total em meados de 2019 (CEPAL, 2020a, p. 13).

[iii] Cálculos próprios com base em CEPAL (2020e, p. 2).

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