Tese defendida por servidora da UNIFAL-MG revela a importância de iniciativas institucionais de promoção de qualidade de vida para a autoeficácia e saúde dos docentes nas instituições brasileiras de ensino superior

Mais de 1.700 docentes de 78 instituições brasileiras de ensino superior participaram de pesquisa desenvolvida pela servidora técnica-administrativa Mayara da Mota Matos da UNIFAL-MG, campus Poços de Caldas, que buscou investigar as relações entre as crenças de autoeficácia de professores universitários, sua percepção de qualidade de vida e do contexto de trabalho, e o acometimento pela Síndrome de Burnout.

Intitulada “Crenças de autoeficácia de professores universitários, qualidade de vida e Síndrome de Burnout”, a tese, desenvolvida para obtenção do título de doutora em Educação pelo Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) de Rio Claro-SP, foi defendida virtualmente no dia 07/05, coroando a pesquisa da servidora.

Os resultados demonstram a importância de iniciativas institucionais de promoção de qualidade de vida, do fortalecimento da percepção de capacidades desses professores, principalmente no que se refere às dimensões de extensão e gestão universitária, bem como do investimento na melhoria das condições de trabalho e de infraestrutura adequada para realização das atividades docentes nas quatro dimensões investigadas: ensino, pesquisa, extensão e gestão universitária”, conta a pesquisadora.

“Nos últimos anos, tenho notado um grande aumento na quantidade de trabalho dos professores universitários, principalmente naqueles credenciados nos programas de pós-graduação e, também, o aumento no número de sintomas físicos e psicológicos nesses professores”, explica a pesquisadora Mayara da Mota Matos, acrescentando que essa observação a fez questionar quais seriam os impactos dessa intensificação do trabalho na saúde e na qualidade de vida desses professores. (Foto: Arquivo Pessoal/Mayara da Mota Matos)

Conforme Mayara, o tema da pesquisa surgiu da confluência entre o referencial teórico estudado durante o mestrado, quando aprofundou conhecimentos sobre as crenças de autoeficácia docente de pós-graduandos em Engenharia, e as atividades profissionais que exerce há mais de uma década, atuando na Coordenadoria de Pesquisa e Pós-Graduação do campus Poços de Caldas da Universidade. “Nos últimos anos, tenho notado um grande aumento na quantidade de trabalho dos professores universitários, principalmente naqueles credenciados nos programas de pós-graduação e, também, o aumento no número de sintomas físicos e psicológicos nesses professores”, explica, acrescentando que essa observação a fez questionar quais seriam os impactos dessa intensificação do trabalho na saúde e na qualidade de vida desses professores.

A pesquisadora partiu da hipótese de que a autoeficácia para a docência universitária poderia ser um fator protetivo para os professores. ”Foi com esse objetivo que iniciei a pesquisa buscando compreender como os níveis de autoeficácia poderiam interferir na interpretação do contexto vivenciado pelos professores”, diz.

Para a coleta de dados, Mayara utilizou um questionário sociodemográfico composto por 64 questões e três escalas de análise. O levantamento foi realizado pela Internet via OnlinePesquisa entre outubro de 2019 e janeiro de 2020. “Nesse período eu estive afastada das minhas atividades profissionais, realizando um doutorado-sanduíche com bolsa CAPES na University of Lincoln, em Lincoln, Lincolnshire, Inglaterra. Durante o período do sanduíche, sob orientação do professor John G. Sharp, eu desenvolvi a análise dos dados, incluindo o processo de validação do instrumento que desenvolvemos para a realização da pesquisa, a Escala de Autoeficácia de Professores Universitários Brasileiros. Quando eu voltei para o país, em abril de 2020, os dados estavam sendo analisados”, conta.

Segundo a pesquisadora, o desenvolvimento da pesquisa e a experiência vivida no doutorado-sanduíche na Inglaterra foi um processo bastante rico, que a proporcionou desenvolver habilidades e análises avançadas como a modelagem de equações estruturais e as análises de agrupamento, que não são muito frequentes na pesquisa em Educação do Brasil, análises que deram outra dimensão aos resultados e foram bastante elogiadas pela banca.

Necessidade de estabelecer processos formativos e uma cultura institucional que favoreça a qualidade de vida

Entre os resultados mais expressivos encontrados, a pesquisadora comenta que dos 1.709 docentes participantes, 65% indicaram ter dificuldades para dormir, 78,2% acreditam que a vida profissional interfere nas atividades de lazer, 61,1% apontam sintomas de ansiedade e 57,1% falta de energia. Além desses números, 92,6% dos participantes entendem ter vivenciado um aumento na quantidade e no ritmo de seu trabalho nos últimos anos e 59,2% entendem que não lidam bem com todas as demandas concorrentes presentes na vida de professores universitários – representadas por atividades de ensino, pesquisa, extensão e, muitas vezes, também de gestão universitária.

“Não faz sentido exigir produtividade de professores ou mesmo querer que eles tenham uma boa qualidade de vida sem se ofertar as condições necessárias a essa produção. Dessa forma, é fundamental discutir o financiamento das universidades, a oferta de apoio técnico e as condições de infraestrutura para a realização de suas atividades, por exemplo”, afirma a pesquisadora

“Na tese, eu analiso essas respostas a partir da formação de grupos de professores com características similares e discuto as implicações de cada um desses grupos para forma de percepção do contexto, a saúde e a qualidade de vida desses participantes”, detalha.

Tais grupos de professores com características semelhantes foram classificados por Mayara em “nível individual”, “nível institucional” e “nível macro”. “A nível individual, os resultados apontam para a possibilidade de que os professores adotem estratégias de autorregulação do comportamento, estabelecendo prioridades e metas profissionais realistas que considerem tanto suas capacidades pessoais quanto o contexto no qual estão inseridos. Aqui, entram iniciativas de autocuidado, como a realização de atividades físicas e a priorização da própria saúde”, explica.

No nível institucional, a pesquisadora afirma ser fundamental que as universidades proporcionem processos formativos que garantam que os docentes tenham possibilidades de reflexão sobre essas questões, incluindo as próprias crenças e a qualidade de vida. “É necessário também ofertar formação para preencher lacunas nas competências docentes, fornecendo o conhecimento necessário para sua atuação, e fortalecendo suas crenças de capacidade. Como exemplo, destaco que o nível mais baixo de autoeficácia dos participantes da pesquisa foi na dimensão de autoeficácia para as atividades de extensão. Dessa forma, se for do interesse da instituição que os professores realizem essas atividades com confiança nas próprias habilidades, há que se investir no fortalecimento dessas crenças, levando-os a acreditar que são capazes de realizar atividades extensionistas diversas”, assegura.

Captura da tela durante a defesa virtual da tese da pesquisadora realizada no dia 07/05. (Foto: Arquivo Pessoal/Mayara da Mota Matos)

Conforme Mayara, é preciso também investir em uma cultura institucional que favoreça a qualidade de vida, para a construção de uma comunidade acadêmica mais saudável, com a criação espaços de convivência, lazer e cultura, a gestão de conflitos, e o investimento na melhoria das relações sociais, domínio no qual os participantes tiveram média abaixo da população brasileira. “Tudo isso é permeado pelo nível macro: não faz sentido exigir produtividade de professores ou mesmo querer que eles tenham uma boa qualidade de vida sem se ofertar as condições necessárias a essa produção. Dessa forma, é fundamental discutir o financiamento das universidades, a oferta de apoio técnico e as condições de infraestrutura para a realização de suas atividades, por exemplo”, reforça.

A pesquisa foi desenvolvida sob orientação do professor Roberto Tadeu Iaochite do Instituto de Biociências da Unesp e a defesa contou com a participação dos seguintes professores: Soely Aparecida Jorge Polydoro (UNICAMP), José Aloyseo Bzuneck (UEL), Ana Paula Porto Noronha Fagundes (USF) e Alessandra de Andrade Lopes (UNESP – Bauru).

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