Economia e meio ambiente: uma relação atualmente conflitante evidenciada pela pandemia do Coronavírus

Quinta-feira, 16 de abril de 2020

Por Kellen Rocha de Souza – professora do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UNIFAL-MG

De toda situação na vida podemos aprender uma lição ou ainda, melhor dizendo, podemos incorporar alguns hábitos – praticados esporadicamente – como permanentes. No que se refere à saúde, por exemplo, que nosso cuidado constante com a higienização das mãos e o uso de máscaras por causa do Coronavírus (Covid-19) se torne um hábito constante em nossas vidas, o que evitaria, por sua vez, a contaminação de outras doenças, como a gripe.

Além da reflexão sobre os cuidados com a nossa saúde, que esse momento também nos deixe uma lição sobre a nossa relação com o meio ambiente e a importância de se estudar formas de tornar essa relação cooperativa, harmoniosa e possível.

Por mais que, em alguns momentos, insistamos em negar, a nossa sobrevivência depende da coletividade, sendo que os impactos gerados em uma região podem facilmente se espalhar para outras. Isso é válido não somente no caso de uma pandemia como a atual, mas também quando falamos do meio ambiente. Agora que muitos países adotaram o isolamento social, o nível de poluição no mundo, por exemplo, reduziu drasticamente.

A China, epicentro da epidemia da Covid-19, um país onde em alguns dias do ano o próprio governo recomenda à sua população não sair de casa ou sair somente com máscara por causa da poluição atmosférica, nos dias de isolamento social passou a ter um ar bem mais puro. Na Itália, país grandemente afetado pela atual pandemia, os canais da cidade de Veneza, que normalmente possuem águas turvas, passaram a ser frequentados, após o isolamento social, por peixes, cisnes e golfinhos devido à limpidez de suas águas. Pavões e javalis passearam pelas ruas desertas da Espanha.

Situação similar também já se observa na cidade de São Paulo, onde após o isolamento social reduziram-se expressivamente as emissões de poluentes como o monóxido de carbono, o dióxido de nitrogênio e o material particulado. Segundo o diretor executivo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), André Luís Ferreira, “se alguns poluentes continuarem diminuindo em São Paulo, podemos chegar próximo aos níveis de qualidade do ar recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o que mostra o tamanho do desafio que é atender ao padrão da OMS”[1] e o quanto ainda estamos longe desse padrão.

Ainda que visível principalmente em grandes cidades, mas não somente, a poluição do ar tem vários impactos na saúde da população. De acordo com pesquisa de Vormittag e Saldiva (2017) do Instituto Saúde e Sustentabilidade[2], por exemplo, duas horas de exposição ao trânsito da cidade de São Paulo correspondem ao consumo de um cigarro por dia. Além disso, em 2015, a poluição do ar foi responsável por 31 óbitos precoces por dia no estado de São Paulo, valor este mais que o dobro de mortes por acidentes de trânsito, quase cinco vezes superior ao de óbitos de câncer de mama e quase 6,5 vezes maior do que as mortes pela síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS, da sigla em inglês), tal como ressaltado pelo Instituto supracitado.

A contradição vista em nossa sociedade hoje é que animais que muitos de nós costumavam somente ver em zoológicos agora são vistos nas ruas, enquanto nós estamos dentro das casas. O que podemos perceber com toda essa mudança provocada em nossas vidas pela pandemia da Covid-19 é que, apesar de tudo que o ser humano foi capaz de criar até hoje, inegavelmente nós causamos perversos, e talvez irreparáveis, danos ao meio ambiente. Além disso, é importante lembrarmos que o planeta sobrevive, e bem melhor, sem o ser humano, mas nós não sobrevivemos em ele.

De acordo com pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a atual pandemia causada pela Covid-19 é reflexo da degradação ambiental e as doenças transmitidas de animais para seres humanos, como foi no caso do novo coronavírus, devem aumentar e piorar à medida em que habitats selvagens são destruídos pelo ser humano. Ademais, vários cientistas têm alertado para o surgimento de distintos vírus desconhecidos, devido ao derretimento das geleiras no mundo. No noroeste do Tibete, na China, por exemplo, foram recentemente descobertos 28 grupos de vírus desconhecidos, congelados há 15 mil anos.

Além disso, infelizmente o interesse econômico se sobrepõe ao desenvolvimento da ciência, por exemplo, no caso das vacinas. Segundo Navas (2020)[3] pesquisadores de Houston, nos Estados Unidos, tinham uma vacina pronta contra um tipo de coronavírus em 2016, mas o projeto foi abandonado porque o Instituto Nacional de Saúde dos EUA alegou que não estava mais interessado. De fato, porque tem mercado para isso, há vacinas para alguns tipos de coronavírus hoje no mundo, mas voltados para animais, como porcos, galinhas, vacas, etc.

Mesmo depois de tanta evolução da espécie humana, o que inclui logicamente os fantásticos avanços já conquistados pela Ciência, ainda somos muito vulneráveis quando se trata de algo desconhecido, como o novo coronavírus. Isso evidencia, por sua vez, a grande necessidade de investimentos cada vez maiores nas áreas de pesquisa e desenvolvimento em todo o mundo, visto que só conseguiremos propor possíveis soluções mais rapidamente, tanto nas áreas biológicas quanto nas humanas e exatas, quando mais pesquisadores estiverem trabalhando nos mesmos problemas. Umas das grandes preocupações dos impactos de pandemias como a atual é o aumento da desigualdade social, visto que isso já ocorreu em outras pandemias. Para um país como o Brasil, que está entre os dez países mais desigualdades do mundo – atrás apenas de alguns países africanos, esse assunto, bem como seus impactos sociais e econômicos, deve ser objeto de análise por distintas áreas de pesquisa.

Em um cenário, infelizmente, de descrédito à ciência por parte de alguns, a atual pandemia veio demonstrar o quando dependemos das pesquisas científicas, feitas principalmente nas universidades e institutos de pesquisa públicos.

Talvez o momento atual nos demonstre também que alguns trabalhos podem ser realizados eficazmente em casa, o que, por sua vez, diminuiria a necessidade do uso de veículos automotores terrestres e, consequentemente, poderíamos ter menos trânsito nas cidades.

Por fim, que o isolamento social que vivemos atualmente nos sirva para, além de avaliarmos nossas relações sociais e o quanto estas são importantes para nós, também para refletirmos como nossas ações são tão prejudiciais ao meio ambiente e o que podemos fazer para mudar essa realidade a partir de então.

[1] AMARAL, A. C. São Paulo já tem melhora na qualidade do ar, diz especialista. Jornal Folha de São Paulo. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/sao-paulo-ja-tem-melhora-na-qualidade-do-ar-diz-especialista.shtml?origin=folha>. Acesso em: 15 Abr. 2020.

[2] VORMITTAG, E. M. P. A; SALDIVA, P. H. N. Qualidade do ar no estado de São Paulo 2105 sob a visão da saúde. Instituto Saúde e Sustentabilidade. São Paulo, 2017. 151p. Disponível em: <http://www.saudeesustentabilidade.org.br/wpcontent/uploads/2017/08/Cetesb_Saude_FINAL_4_WEB.pdf>. Acesso em: 10 Abr. 2020.

[3] NAVAS, M. E. Coronavírus: como o mundo desperdiçou a chance de produzir vacina para conter a pandemia. BBC News Brasil. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52238530?fbclid=IwAR1Eg-2cswpaS2I2ADgWU0K0bUQlX41goCdql0cAEdudoDpR-exg4XQvRnM>. Acesso em 13 Abr. 2020.

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