Economia e Marketing: ao mesmo tempo próximos e distantes

Quarta-feira, 01 de julho de 2020

Por Marçal Serafim Cândido (doutorando em Contabilidade pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto – USP, professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UNIFAL-MG)

Há algum tempo, como hobby, tenho estudado a área de marketing. Um conceito interessante em marketing é o da percepção, qual seja, o produto vencedor no mercado não é necessariamente o melhor produto, mas sim aquele que é percebido como melhor na mente dos prospects, para usar a linguagem do marketing[1]. Mais interessante ainda é o fato de que este conceito pode ser aplicado às teorias econômicas: nem sempre a boa teoria é a vencedora, pois esta pode mostrar alguns pontos que não são “novos” e, portanto, o “novo” acaba por conquistar mais a mente dos prospects. Entretanto, o que pode parecer novidade já foi testado em momentos diferentes da história e levaram a resultados desastrosos.

Desde o início da pandemia do COVID-19 ganhou espaço no debate econômico uma discussão acerca do papel das políticas fiscais (gasto governamental, principalmente)[2] e monetária (emissão monetária, por exemplo)[3] durante e após o período da pandemia. Apesar de haver diversas opiniões com relação à condução da política econômica neste momento, meu propósito neste texto é mostrar que aqueles que advogam pelo aumento do gasto público e emissão monetária talvez devessem revisitar os clássicos, pois muito do que postulam já foram refutados em trabalhos anteriores (inclusive, em maior profundidade do que faço aqui) e, a evidência empírica reforçou tal refutação.

Com relação à política fiscal, o ponto que gostaria de discutir é o relacionado ao endividamento público. Há uma corrente de pensamento que voltou a manifestar sua opinião com relação ao aumento dos gastos públicos como uma, talvez “a única” forma de o governo conseguir responder satisfatoriamente à crise. Ora, vejamos os pressupostos dessa afirmação. O primeiro é de que o governo possui capacidade de endividamento em qualquer situação que ele se encontre. No caso do Brasil, um endividamento que marcha para 100% do PIB. Poucos países no grau de desenvolvimento que se encontra o Brasil possuem um endividamento neste patamar, mas caso queiram um exemplo, Argentina está com endividamento acima de 90% do PIB. Ao leitor, deixo a tarefa de verificar a situação econômica da Argentina atualmente e quais suas perspectivas[4]. O segundo pressuposto daqueles que são favoráveis ao gasto público neste momento é o de que ogovernante de plantão (ou seus comitês, comissões ou qualquer outro órgão coletivista) teria condições de avaliar quais as áreas necessárias para os gastos públicos. No entanto, o “velho” Friedrich Hayek, sim aquele mesmo ganhador do Nobel de Economia e autor de um dos 20 artigos mais importantes dos 100 primeiros anos da American Economic Review[1], mostrou que há uma pretensão do conhecimento[2] daqueles que aludem o gasto público como mecanismo de ação governamental. Isto porque, quando há uma decisão de gasto público, inevitavelmente deixa-se de fazer o gasto em outra opção e, como sabe-se que recursos governamentais são escassos, qual o critério de decisão a ser adotado? Como lembra Hayek, o critério pode ser aquele conveniente para o governante de plantão e, cujas decisões podem, inclusive, serem prejudiciais no longo prazo (não nos esqueçamos da Argentina!).Já com relação à política monetária, uma das defesas que têm sido feita atualmente é da emissão monetária. Argumenta-se que, dado o baixo nível de atividade econômica, tal emissão seria “não inflacionária”. No entanto, tais postulantes desta “teoria”, que foi batizada de Modern Monetary Theory (MMT) furtam-se às discussões e demonstrações lógicas, quando possível empíricas, das consequências dos pressupostos da MMT[3]. No entanto, por ironia do destino, estive em um encontro de pesquisadores e participei de um painel de discussão, em que um pesquisador demonstrou alguns resultados estimados caso a MMT fosse aplicado a um país com grau de desenvolvimento semelhante ao do Brasil. Dentre os resultados (segurem-se nas cadeiras!), foi estimado um nível de endividamento público próximo aos 400% do PIB[4]. Até hoje nenhum país no mundo chegou a tanto, mas quem sabe podemos testar por aqui, o que acham?

Não sei se topariam este teste, pois diferente do marketing, em que as consequências de um produto que não atende às expectativas são sofridas apenas a quem o comprou e, mais importante, o consumidor pode deixar de comprar o produto (e rapidamente é desfeita a visão de melhor produto), nas políticas econômicas não há como descartar (deixar de adquirir, para usar a linguagem do consumo) de imediato um governante ou, no limite, um país. Ou seja, em economia, as consequências dos erros governamentais não são recusáveis e, portanto, paga-se um preço alto por ações de indivíduos que desconhecem como decisões econômicas são realmente tomadas[5].

Referências:

[1] Ver por exemplo “As 22 Consagradas Leis do Marketing” de Al Ries e Jack Trout.

[2] Armínio Fraga discute esse tema na entrevista deste link: https://iepecdg.com.br/artigos/arminio-ve-com-preocupacao-situacao-das-contas-publicas/

[3] Um interessante debate pode ser acompanhado neste link: https://www.youtube.com/watch?v=IPvSJl49CG4

[4] Thomas Sowell no livro “Economia: Fatos e Falácias” mostra como a Argentina passou de uma das mais altas rendas do mundo (3ª) para a situação que se encontra hoje num período de 100 anos e, especialmente, como tal resultado foi fruto de ação de gastos governamentais e intervencionismo.

[1] Para ver quais foram os 20 principais artigos dos 100 primeiros anos da American Economic Review, ver: https://www.aeaweb.org/articles?id=10.1257/aer.101.1.1

[2] Sobre a natureza inerente do desconhecimento da complexidade organizada em decisões econômicas, ver o discurso de Hayek quando do recebimento do prêmio Nobel de Economia em: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=222

[3] As propostas da MMT vão além da emissão monetária em si. Para uma discussão, ver: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2019/05/31/eduardo-loyo-diferencas-entre-a-moderna-teoria-monetaria-e-a-teoria-fiscal-do-nivel-de-precos.ghtml

[4] Para assistir à apresentação da pesquisa que demonstra alguns resultados da MMT, ver: https://www.youtube.com/watch?v=vW-RB2QAkuI

[5] Para uma compreensão da concepção da decisão econômica, consultar o livro “Ação Humana” de Ludwig Von Mises.

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