Acompanhamento psicológico auxilia estudantes da UNIFAL-MG a superarem ansiedade e estresse causados pela rotina universitária

O medo do futuro e a pressão para manter um bom desempenho acadêmico tem deixado muitos universitários com a saúde mental vulnerável. A 5ª edição da Pesquisa do Perfil Socioeconômico dos Estudantes de Graduação das Universidades Federais, realizada em 2018, revelou que sete em cada dez alunos de instituições federais no Brasil sofrem com algum tipo de transtorno psicológico, como ansiedade ou depressão. E na UNIFAL-MG a estatística não é diferente: dos 1555 alunos que contribuíram ativamente para a pesquisa, 77,3% informaram sofrer com ansiedade.

De acordo com a psicóloga da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis (Prace), Crislaine Luisa Araújo, a ansiedade está relacionada a um desequilíbrio dos neurotransmissores, como a serotonina, dopamina e norepinefrina, mas, também, a uma rotina de estresse, fatores genéticos e qualidade de vida. “Preocupações com um acontecimento, uma viagem, ou resultado de um teste são naturais, fazem parte do cotidiano do ser humano, gerando certo nível de ansiedade que não chega a ser considerada como patológica. Ela se torna um transtorno, quando causa distúrbios físicos e psicológicos, como preocupação em excesso, medo ou sensação de incapacidade, interferindo na realização de atividades cotidianas, como estudos e trabalho”, explica.

Sudorese, taquicardia, tremores nas extremidades, distúrbios no trato digestivo (vômitos, náuseas, diarreia, cólicas, constipação), dores e tensão muscular (dores de cabeça, na mandíbula, bruxismo) e dificuldade para dormir são os principais sintomas de que a pessoa está ansiosa. “É fundamental no momento de detecção dos sintomas que se busque acompanhamento psicológico, pois o psicoterapeuta poderá analisar o caso e ajudar o paciente a identificar o fator desencadeador da ansiedade, bem como a manejar os sintomas, encontrando formas de lidar com as questões diárias que podem ser ansiógenas”, esclarece Crislaine.

(Foto: Dicom/UNIFAL-MG)

Além do acompanhamento profissional, a psicóloga reforça que “é importante mudanças no estilo de vida, de forma a reduzir o estresse e combater a ansiedade”. Essas mudanças incluem a realização de atividades físicas no mínimo três vezes por semana, organização da rotina de forma a existir espaço para momentos de lazer, criação de uma rede de apoio com família e amigos, ter uma alimentação rica e balanceada, incluindo verduras, legumes, sementes e grãos.

No entanto, nem sempre tais ações são suficientes. “Em casos em que o psicoterapeuta percebe a necessidade não só de intervenção psicológica, mas medicamentosa, é feito um encaminhamento ao psiquiatra, que trabalha conjuntamente com o psicólogo. É necessário salientar que o uso da medicação deve ser acompanhado o tempo todo pelo psiquiatra, sendo que o paciente não deve se automedicar, nem retirar a medicação por conta própria, sem orientação médica”, alerta Crislaine.

 

Superando o problema

Estudar, prestar o Enem e entrar na universidade. Para muitos estudantes, a ansiedade pode terminar por aí, com a aprovação e o ingresso no ensino superior. Mas, não foi o que aconteceu com a estudante de Medicina, Lithany do Monte Carmello, de Jundiaí/SP, que após iniciar o curso encontrou dificuldades por precisar ficar longe da família e dos amigos, e não conseguia lidar com a pressão que passou a exercer em si mesma devido aos estudos. “Sempre fui ansiosa, mas isso não costumava me prejudicar, creio que foi no 2º ano de faculdade que começou a me fazer mal. Eu passei a comer excessivamente, estudar muito sem conseguir aprender ou armazenar conteúdo, minhas notas despencaram e comecei a não conseguir ficar sozinha ou com muitas pessoas, passei a me isolar socialmente”, contou.

Há um ano e meio em tratamento psicoterápico, a discente revela que as sessões estão surtindo efeitos positivos: “elas me ajudam a focar no que preciso e também a desabafar. Sinto que a minha cabeça fica mais leve e consigo estudar melhor. Desde que comecei a psicoterapia meu coeficiente acadêmico subiu quase um ponto, melhorando o meu rendimento e disposição para as atividades”. Hoje, Lithany compreende que procurar ajuda é essencial: “nós não somos obrigados a segurar o peso de tudo o que acontece, podemos conversar com algum profissional para que nos auxilie a lidar com isso de um jeito que não nos faça mal”.

“Nós não somos obrigados a segurar o peso de tudo o que acontece, podemos conversar com algum profissional para que nos auxilie a lidar com isso de um jeito que não nos faça mal”, desabafa discente da Faculdade de Medicina.

Já o estudante do 8º período de Biotecnologia, Igor Pereira Godinho, sofria com a necessidade de querer controlar ações e atitudes diárias. Para ele, a sobrecarga de compromissos e a alta expectativa por desempenho acadêmico foram alguns dos fatores que contribuíram para o desenvolvimento do transtorno de ansiedade: “o 3º período de qualquer curso, acredito eu, é um momento em que você toma muitas responsabilidades. Não é mais o ‘destaque’ que ser calouro te oferece, e é responsável por tomar partido de muita coisa, como já pensar em iniciação científica, se envolver com os órgãos do curso, lidar com um horário mais fechado e, principalmente, ter matérias mais pesadas na grade. Os prazos apertam, a mente exaure e até o sono desregula quando a cabeça fica cheia com as obrigações”.

Em outubro de 2017 o discente viu sua vida se transformar ao iniciar o acompanhamento psicológico na Universidade e sua rotina se tornou mais leve. “A terapia tem me ajudado a lidar com medos e inseguranças. Se conhecer, acima de tudo, foi o que me fez querer ir em frente, tratar a ‘zona de conforto’ que eu tinha ao querer fazer menos coisas, sair menos de casa, me entregar menos para o mundo. E, sem dúvida alguma, meu amadurecimento e muito de quem sou é graças a terapia, que me ajuda a humanizar todas as coisas que eu tentava raciocinar”, revela.

Igor dá ainda um conselho para quem está passando por algo parecido: “a solidão não é solução. Conversar com as pessoas, saber se os problemas são os mesmos, ou então até mesmo saber se é um mal-estar coletivo, isso é o melhor remédio. Ter empatia, saber ouvir e poder ser ouvido.”

 

O projeto “Prosa em roda” possibilita que os participantes compartilhem as angústias e ansiedades do dia a dia (Foto: Arquivo do Projeto “UNIFAL-MG Sem Estresse”)

 

Iniciativas de apoio psicológico da UNIFAL-MG

Para a psicóloga da Instituição, uma questão a ser discutida e ainda pouco estudada no Brasil é sobre o desenvolvimento humano na idade adulta e, principalmente, o desenvolvimento psicossocial do estudante universitário. “A expansão universitária ocorrida no país após os anos 2000 requer um olhar a respeito de como vem se construindo as vivências acadêmicas, principalmente em como este estudante vem estabelecendo suas relações, em busca de equilíbrio entre a vida pessoal e acadêmica”, afirmou.

Outro fato importante mencionado por Crislaine é a maior demanda por atendimento psicológico do público feminino e da população LGBT. “O adoecimento psicológico nas universidades ocorre com os estudantes em geral. No entanto, estamos em processo de coleta de dados no Departamento de Apoio e Acompanhamento da Prace para fundamentar futuras pesquisas, e o que podemos falar a respeito é que temos uma demanda maior do público feminino e LGBT, correspondendo a estimativa do país com relação a grupos mais vulneráveis dentro dos determinantes históricos e sociais, somado a fatores econômicos e raciais, que contribuem como agravantes ao processo de integração e adaptação ao universo acadêmico”, contou.

“Temos uma demanda maior do público feminino e LGBT, correspondendo a estimativa do país com relação a grupos mais vulneráveis dentro dos determinantes históricos e sociais”, afirma Crislaine.

Uma das iniciativas da equipe de psicologia da Universidade é o projeto “Prosa em Roda”, que integra o programa de extensão “UNIFAL-MG Sem Estresse” e acontece nos campi de Alfenas, Poços de Caldas e Varginha. Com a metodologia da Terapia Comunitária Integrativa (TCI), o projeto tem como premissas o acolhimento, o respeito e a inclusão, possibilitando que os participantes compartilhem as angústias e ansiedades do cotidiano, seja da vida familiar, do trabalho ou da vida acadêmica, constituindo um espaço de crescimento pessoal e coletivo. (Saiba mais aqui!)

A UNIFAL-MG oferece também acompanhamento psicológico e pedagógico aos discentes, por meio das pró-reitorias de Assuntos Comunitários e Estudantis e de Graduação. Os interessados podem preencher um instrumento online, criado com o objetivo de levantar as demandas em relação às dificuldades pedagógicas, sociais e relacionais vivenciadas no contexto universitário. As respostas do questionário são analisadas e categorizadas de acordo com a necessidade de intervenções, que prioritariamente são coletivas, e em determinados casos demandam uma escuta individualizada, com acompanhamentos e, até mesmo, encaminhamentos para outros setores.

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