“Amor pra recordar, de Gaby Amarantos ft. Liniker, é um clipe sociobiográfico”, por Elias Evangelista Gomes

No último final de semana antes de começar a quarentena brasileira, decorrente da pandemia do coronavírus, em março de 2020, estávamos lá na cidade de Contagem. Todos nós, irmãs, sobrinhas, filhas, netas, bisnetas, noras, genros, amigas, vizinhas e irmãs da igreja, fomos nos despedir do corpo de minha avó materna.

Ao redor de Therezinha, alguns discursos a lembravam como uma pessoa de fé. Naquele ato de recordação, propus-me falar de uma mulher periférica, mãe de doze filhos, forjada no êxodo rural do interior de Minas Gerais para o Alto Vera Cruz, bairro popular em Belo Horizonte. Uma mulher engraçada e divertida, que fazia as netas rirem de suas brincadeiras. Ao tecer essas palavras, pretendia memorizar o amor gestado não somente por nossa avó, mas que nos ligava às nossas mães, tias, irmãs e primas, com quem seguiríamos ancorando o amor. 

Despedida de família bem-humorada, houve até quem sugerisse, mesmo sem ter consciência do terror que assolaria o país, que ela teria feito uma saída estratégica para não ver o que o que estava por vir. De fato, ela não precisou acompanhar a agonia imposta nas bandas de cá.

Findado aquele momento de choros e sorrisos saudosos em família, porém gratos pela partida inesperada, após uma noite leve de sono de nossa avó, as semanas, os meses e o ano que se seguiram no Brasil nos saquearam a paz e qualquer resíduo de tranquilidade.

Ao longo dessa passagem coletiva e na solidão do distanciamento social, é na arte que tenho buscado inspiração, para seguir fazendo o crochê do passado, presente e futuro. Na apreciação da arte, procuro extravasar os limites do meu apartamento. Através da cultura, tenho pensado e falado sobre o amor que me liga aos meus e ao mundo.  

Recentemente, assisti ao clipe Amor pra recordar, do novo single de Gaby Amarantos em um feat com Liniker, dirigido por João Monteiro. A canção é de autoria de Gaby Amarantos, Jaloo e Tonny Brasil e compõe seu segundo álbum, intitulado Purakê, em referência ao peixe elétrico amazônico Poraquê e aos nexos entre natureza e tecnologia. Parte significativa das cenas se passa na comunidade do Piriquitaquara, em Belém – Pará.

O clipe de Gaby Amarantos é uma homenagem à mãe da artista. Nele, entre as marés do rio, Gaby, no papel de mãe, contracena com seu próprio filho na vida real e também com sua sobrinha e irmã. Feito para tocar, envolver e embalar os amores que parimos, criamos e deixamos para seguir com seus novos amores, o filme faz alusão à biografia da própria artista e a muitos de nós espectadores.

A trajetória artística de Gaby Amarantos é marcada pelo hibridismo e por um capital social relevantes na produção da cultura no Pará e no Brasil. Filha do Jurunas, bairro da periferia de Belém, ela mobiliza diferentes estilos musicais, tais como o tecnobrega, o tecnomelody, a guitarrada, o carimbó e a MPB paraense. Além das letras e melodias de sucesso, promove expressivas composições de performance e design de moda que ligam a Amazônia às culturas pops mundializadas.

Em seu percurso, fez importantes parcerias musicais com Dona Onete, Duda Beat, Jaloo, Ney Matogrosso, Seu Jorge, Urias, e é protagonista de um dos hits que agitaram a copa do mundo de 2014, Todo Mundo, em colaboração com o Monobloco.

Agora, em Amor para Recordar, faz um leve e impactante dueto com Liniker, uma das vozes mais destacadas da atual MPB paulista. Nesse novo clipe, é possível pensar que Gaby Amarantos esteja falando acerca de sua transição do Pará para São Paulo, sobre manter fortes as suas raízes e ensinar ao restante do país acerca dos saberes musicais paraenses. Nessa obra, a artista da vida real seria interpretada pelo seu próprio filho, deixando uma mensagem audiovisual para ele de que é possível e é preciso recordar o seu amor.

Cantora, compositora, apresentadora, atriz, Gaby Amarantos articula arte contemporânea e entretimento com as responsabilidades políticas de seu tempo. Primorosa, faz da cultura uma potente declaração negra, periférica, feminista, ambientalista e defensora dos direitos humanos.

“Amor Pra Recordar” integra o álbum “Purakê”, previsto para lançamento ainda neste mês. (Foto: reprodução/Youtube

Falar de si na arte também é politizar a vida coletiva, é conectar-se à multidão que somos nós. Em suas produções, arte é ofício para retratar as delícias e os dissabores da vivência social, fazendo-nos ter esperança em uma cultura viva, diversa e transformadora.

O novo clipe da artista estampa modos de ser, estar, existir e resistir no mundo. Fala de maternidade solo e amores que atravessam o rio, a floresta e a cidade. A obra recorre à rede como um símbolo de que o amor nos acalenta, move e protege, do nascimento ao deslizar para a eternidade.

Em uma inteligente sequência de imagens, as velas não apenas criam uma coesão visual, mas rompem a escuridão da floresta ao afável apartamento urbano, iluminando as memórias e lembranças que nos guiam na experiência humana do amor.

No país em que tantas pessoas têm sido levadas à saudade tão cedo e que milhões de outras sequer podem se despedir de seus amores, recordar o carinho, a afeição, o bem-querer, as alegrias, as tristezas, os dilemas e os desafios vividos em comunhão é falar a respeito de estarmos juntos, acerca da dureza e da ternura, provadas ao longo da vida.

Por isso, a indignação necessária para mudar as coisas frente aos crimes e às ameaças ambientais, culturais, econômicas, políticas e sociais também pode ser combinada com recordações sobre os amores que nos enlaçam.

Permita-se assistir ao clipe Amor pra recordar. Se for para chorar, mergulhe nessas águas como um peixe em um rio amazônico ou pantaneiro. Seu sentimento tem dignidade. Se precisar falar sobre sua saudade para alguém, saiba que, como versara o Emicida feat. Pastor Henrique Vieira, Fabiana Cozza e Pastoras do Rosário, na música Principia, “tudo, tudo, tudo que nóiz tem é nóiz”. O clipe sociobiográfico de Gaby Amarantos com Liniker traduz isso em um belo conjunto de imagens, melodias e versos.

Por isso, em um tempo de devastação, desejo que a arte siga contribuindo para a memória social e a cura do mundo, de modo que façamos do luto a luta pelo amor e pela vida digna. Sigamos nos embalando e nos iluminando em comunidade, para conquistarmos as mudanças que sonhamos.

Assista:

 

 

 

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