Setembro Amarelo: é preciso quebrar o silêncio

Setembro Amarelo é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015. O mês de setembro foi escolhido porque o dia 10 desse mês é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, instituído pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Desde então, escolas, universidades, entidades do setor público e privado se envolveram neste movimento. E por que falar é a melhor solução? Para quebrar o tabu e o silêncio do suicídio. Para um programa de prevenção eficiente, a sociedade precisa de informação e conhecimento. Quais são as tendências das taxas de suicídio em diferentes partes do mundo e no Brasil? Quais são os fatores de risco e proteção? O que diz o último relatório da OMS sobre prevenção? Nesse texto pretendo trazer o tema e falar um pouco sobre essas questões. Mostrarei os resultados de um artigo recém-publicado, e farei uma breve discussão sobre o assunto.

O suicídio é um conhecido problema de saúde pública. Anualmente, mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio no mundo, sendo a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos (1). De acordo com o relatório da OMS, de junho de 2021, nos últimos 20 anos a taxa global de suicídio ajustada por idade diminuiu 36%. O suicídio diminuiu na região do Mediterrâneo Oriental, no Pacífico Ocidental, no Sudeste da Ásia, no continente Europeu e Africano, a única exceção foi a região das Américas onde houve aumento (Figura 1). O Brasil contribuiu nessa estatística, dado que houve aumento significativo das taxas de suicídio de 2000 a 2017 para ambos os sexos (2). Vale lembrar que essa é a média do país. Um estudo avaliou as tendências estratificadas por sexo e quatro faixas etárias, por estados do Brasil, de 1997 a 2015. Os resultados mostraram que 9,4% do total apresentaram tendência de diminuição, 48,2% permaneceram estáveis e 42,4% apresentaram aumento (3).

 

Figura 1 – Taxas de suicídio ajustadas por idade (por 100.000 habitantes) ao longo do tempo nas regiões da OMS, ambos os sexos (1)

O suicídio é um fenômeno complexo, multifatorial e a sua ocorrência varia em diversas escalas, no tempo e no espaço. O gráfico a seguir apresenta as tendências seculares das taxas de suicídio na cidade de São Paulo, de 1904 a 2017 (Figura 2). Os pontos representam as taxas observadas e as linhas correspondem às tendências derivadas das análises de regressão. Nota-se que a razão homem/mulher variou de 2 a 4, e nas últimas três décadas permaneceu por volta de 3, seguindo o padrão da maioria dos países do mundo. Alguns fatores ajudam a explicar essa diferença, como o comportamento agressivo dos homens e a utilização de métodos letais.

VPN: Variação Percentual Anual
#população de referência da Organização Mundial da Saúde
*estatisticamente diferente de zero
Fonte: adaptado de Bando et al., 2021 (4)
Figura 2 – Tendência secular das taxas de suicídio na cidade de São Paulo por sexo, 1904 a 2017

 

 

Nota-se também um pico na primeira metade da década de 1910 para ambos os sexos. É difícil dar uma explicação para os pontos de inflexão, bem como para as tendências. A cidade de São Paulo, que tem em 2021 uma população estimada em 12,4 milhões de habitantes, em 1910 contava com cerca de 402 mil habitantes, ou seja, uma população 30 vezes menor (5). A maior dispersão dos pontos no início do século XX (Figura 2), em parte deve-se ao tamanho da população e ao fato do suicídio ser um fenômeno relativamente raro. Houve também uma melhora na qualidade da informação no decorrer do período. Com relação ao pico, um possível fator associado seria o processo de imigração.  São Paulo recebeu diversas correntes migratórias desde o final do século XIX, primeiramente da Itália, seguido por Portugal, Espanha, Alemanha e Japão. O pico da população imigrante foi em 1893, quando representava mais da metade do todo (54%), sobretudo de países europeus (6). A condição de imigrante está associada a barreiras linguísticas, separação de famílias, perda de status e de vínculos sociais, considerados fatores de risco ao suicídio. Um estudo de revisão sobre imigrantes e suicídio, identificou uma relação positiva entre as taxas de suicídio dos imigrantes com as taxas de suicídio dos respectivos países de origem dos mesmos (7). Considerando que no início do século XX, muitos países europeus tinham taxas de suicídio relativamente altas, isso poderia explicar em parte o pico de suicídio nesse período em São Paulo. Para complementar, um estudo com dados de 2002 a 2008 da cidade de São Paulo, demonstrou que os imigrantes apresentaram de fato maior risco ao suicídio, sendo cerca de 2,7 vezes maior em relação aos paulistanos brasileiros. Em ordem decrescente os maiores riscos foram dos imigrantes provenientes da Ásia (3,0 vezes), Europa (2,8) e América Latina (2,2) (8).

Em meados da década de 1930, houve um fluxo migratório de pessoas de outros estados brasileiros para São Paulo, em decorrência da necessidade de mão de obra no processo de industrialização paulista. Com base na teoria de Durkheim (9), Stack identificou uma associação do processo de modernização com o aumento do suicídio na Finlândia entre os séculos XIX e XX. A modernização, moderada pela urbanização, industrialização e secularização, foram vistas como rompimento dos laços entre o indivíduo e a sociedade, aumentando assim as taxas de suicídio (10). São Paulo na década de 1930 tornou-se o maior polo industrial do país. As décadas de 1940 e 1950 foram os períodos de maior intensificação do desenvolvimento do país (11). Portanto, o aumento da taxa de suicídio a partir da década de 1920 para os homens, e da década 1930 para mulheres (Figura 2), poderia estar relacionado ao processo de modernização da cidade.

Tendências de longa duração também podem encobrir tendências específicas em recortes temporais menores. Embora em São Paulo a análise tenha detectado tendência de diminuição para mulheres de 2,7% ao ano a partir de 1953, e estabilidade para homens a partir de 1976 até 2017 (Figura 2), na década de 2000 houve aumento significativo das taxas de suicídio em homens e estabilidade em mulheres (8). No estado de Minas Gerais, no período de 1996 a 2012, para os homens, 54% das macrorregiões do estado apresentaram tendência de aumento, para mulheres, 62% das macrorregiões apresentaram aumento (12). Na cidade de Alfenas (MG), de 1996 a 2012, também houve aumento significativo das taxas de suicídio de 8% ao ano (13).

Evidências na literatura revelam que restringir o acesso aos meios letais são estratégias eficazes de prevenção ao suicídio. Por exemplo, a disponibilidade de arma de fogo nas residências aumenta o risco ao suicídio (14). Portanto, no caso do Brasil, além do genocídio dos quase 600 mil mortos pela COVID-19, pagaremos o preço também dessa necropolítica do atual governo, que tem facilitado a aquisição e o porte de arma de fogo no país. A própria história nos ensina, na década de 1960 o aumento do suicídio por arma de fogo em São Paulo foi em decorrência da facilidade com que se compravam as armas, no crediário e sem dificuldades (15). Dentre os fatores protetores, destacam-se também os programas de conscientização em escolas e universidades, tratamentos psiquiátricos e psicológicos de doenças mentais como a depressão (14).

Qual seria o impacto da Pandemia nas taxas de suicídio no mundo? A literatura ainda não traz evidencias de uma possível associação, considerando-se o suicídio como desfecho principal. No entanto, resultados de uma metanálise sobre comportamento suicida durante a pandemia, sugeriram aumento nas taxas de eventos para ideação suicida (10,81%), tentativas de suicídio (4,68%) e automutilação (9,63%) (16). E no Brasil? Os dados oficiais de mortalidade do Ministério da Saúde não permitem avaliar as tendências, pois o último ano disponível é de 2019. Mas o cenário é preocupante: crise política e econômica, desemprego, fome, má gerencia dos serviços de saúde. No lançamento do último relatório da OMS sobre o suicídio, de junho de 2021, o diretor geral da OMS, Tedros Adhanom, sintetizou o quadro da crise mundial que estamos vivendo: “Nossa atenção à prevenção do suicídio é ainda mais importante agora, depois de muitos meses convivendo com a pandemia de COVID-19, com muitos dos fatores de risco para suicídio – perda de emprego, estresse financeiro e isolamento social – ainda muito presentes” (17). A OMS também lançou o guia LIVE LIFE (18) com orientações e aspectos práticos para implementação de programas de prevenção do suicídio. A implementação bem-sucedida precisa, como pré-requisito, de seis pilares fundamentais: analise da situação; colaboração multissetorial; conscientização e suporte; capacitação; financiamento; e vigilância, monitoramento e avaliação. O guia também destaca quatro intervenções chave para prevenção do suicídio:

  • limitar o acesso aos métodos de suicídio, como pesticidas e armas de fogo altamente perigosos;
  • educar a mídia sobre a cobertura responsável do suicídio;
  • promover habilidades socioemocionais para a vida em adolescentes;
  • identificação precoce, avaliação, gestão e acompanhamento de qualquer pessoa afetada por pensamentos e comportamentos suicidas.

E para finalizar e trazer um pouco de esperança, o guia da OMS inclui 53 estudos de caso, de exemplos de intervenções de prevenção do suicídio em todo o mundo, e o Brasil é citado em dois exemplos (18). O primeiro é a Rede de Proteção à Vida (http://www.precisodeajuda.org) que teve a sua origem num município do interior do estado de São Paulo que apresentava altas taxas de suicídio. O grupo multidisciplinar é composto por profissionais ligados à saúde mental, espiritual e física, educação, esporte, mídia, entre outros, cujo objetivo é a valorização da vida, promoção da saúde e prevenção do suicídio. O segundo é a implantação do Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes pelo Ministério da Saúde em 2006. O objetivo é sistematizar as informações oriundas das notificações de violências como a doméstica, sexual, contra mulher, criança e as violências autoprovocadas, fundamentais para o monitoramento e avaliação. E não poderia deixar de citar o CVV – Centro de Valorização da Vida (https://www.cvv.org.br) que oferece apoio emocional, gratuitamente, a todas as pessoas que querem conversar sobre qualquer assunto, sob total sigilo por telefone (número 188 para todo Brasil), e-mail e chat 24 horas todos os dias.

Algumas pessoas criticam a duração da campanha Setembro Amarelo no Brasil, por ocupar o mês inteiro, porém eu discordo. Nas palavras do amigo suicidologista, geógrafo e professor Archanjo da Mota (UFGD): “pior que os excessos da campanha é o silêncio que impera nos outros meses do ano” (19). De fato, a indiferença ao suicídio só aumenta o tabu desse fenômeno que faz parte da condição humana, presente em todas esferas da sociedade e que pode ser evitado. É preciso quebrar o silêncio e falar sobre o suicídio.

Referências

  1. WHO. World Health Organization. Suicide worldwide in 2019: global health estimates 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240026643
  2. McDonald K, Machado DB, Castro-de-Araujo LFS, Kiss L, Palfreyman A, Barreto ML, et al. Trends in method-specific suicide in Brazil from 2000 to 2017. Social psychiatry and psychiatric epidemiology. 2021;56(10):1779-90. doi: 10.1007/s00127-021-02060-6.
  3. Rodrigues CD, de Souza DS, Rodrigues HM, Konstantyner T. Trends in suicide rates in Brazil from 1997 to 2015. Braz J Psychiatry. 2019;41(5):380-8. Epub 2019/02/21. doi: 10.1590/1516-4446-2018-0230.
  4. Bando DH, Mello Jorge MHP, Waldman EA, Volpe FM, Lester D. Secular Trends of Suicide in the City of São Paulo, 1904-2017. Crisis. 2021. Epub 2021/09/16. doi: 10.1027/0227-5910/a000816.
  5. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 2021. Disponível em: https://www.ibge.gov.br
  6. SEADE. Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados – SEADE. 2017.
  7. Forte A, Trobia F, Gualtieri F, Lamis DA, Cardamone G, Giallonardo V, et al. Suicide Risk among Immigrants and Ethnic Minorities: A Literature Overview. International journal of environmental research and public health. 2018;15(7). doi: 10.3390/ijerph15071438.
  8. Bando DH, Brunoni A, Fernandes T, Bensenor IM, Lotufo PA. Suicide rates and trends in São Paulo, Brazil according to gender, age and demographic aspects: a joinpoint regression analysis. Rev Bras Psiquiatr. 2012;34(3):286-93. doi: 10.1016/j.rbp.2012.02.001.
  9. Durkheim E. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes; 1897/2004.
  10. Stack S. The Effect of Modernization on Suicide in Finland: 1800–1984. Sociological Perspectives. 1993;36(2):137-48. doi: 10.2307/1389426.
  11. Singer P. São Paulo. In: Szmrecsányi T, editor. História econômica da cidade de São Paulo. São Paulo: Editora Globo S.A.; 2004. p. 146-217.
  12. Bando DH, Souza FD, Rodrigues DO, Barrozo LV. Taxas de suicídio e tendências nas macrorregiões de saúde do estado de Minas Gerais, 1996 a 2012. In: Mota AA, Roma CM, Guimarães RB, editors. VIII Simpósio Nacional de Geografia da Saúde Dourados: Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD); 2017. p. 1691-8.
  13. Souza FD, Silva HLR, Bressan VR, Silva SA, Bando DH. Tendência das taxas de suicídio no município de Alfenas (MG), 1996 a 2012. In: Porto GCS, editor. 4ª Jornada Científica da Geografia Alfenas: Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL); 2016.
  14. Zalsman G, Hawton K, Wasserman D, van Heeringen K, Arensman E, Sarchiapone M, et al. Suicide prevention strategies revisited: 10-year systematic review. Lancet Psychiatry. 2016;3(7):646-59. doi: 10.1016/s2215-0366(16)30030-x.
  15. Mello Jorge MHP. Mortalidade por causas violentas no munícipio de São Paulo, Brasil. III-mortes intencionais. Rev Saude Publica. 1981;15:165-93.
  16. Dubé JP, Smith MM, Sherry SB, Hewitt PL, Stewart SH. Suicide behaviors during the COVID-19 pandemic: A meta-analysis of 54 studies. Psychiatry Res. 2021;301:113998. doi: 10.1016/j.psychres.2021.113998.
  17. OPAS. Organização Pan-Americana da Saúde. Uma em cada 100 mortes ocorre por suicídio, revelam estatísticas da OMS 2021. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/17-6-2021-uma-em-cada-100-mortes-ocorre-por-suicidio-revelam-estatisticas-da-oms
  18. WHO. World Health Organization. Live life: an implementation guide for suicide prevention in countries 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240026629
  19. Mota AA. Suicídio no Brasil e contexto geográfico. II Congresso Brasileiro: Setembro Amarelo nas Pesquisas Científicas: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_SufsEnFSug&t=266s

 

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