Caminhos, desafios e aprendizados na jornada de formação em Licenciatura: confira participação especial de três egressos da UNIFAL-MG para o Dia dos Professores

Quais inspirações movem a escolha pela docência? Para celebrar, neste 15/10, o dia das professoras e dos professores, a Diretoria de Comunicação da UNIFAL-MG perguntou O que o/a motivou a escolher ser professor?” a três egressos de Licenciatura da Universidade, dos cursos de Ciências Sociais, Letras e Matemática. Desde a influência positiva de professores da Educação Básica até os desafios enfrentados pela profissão, os professores formados relembram momentos e trajetórias em prol da educação. Confira: 

O que o/a motivou a escolher ser professor?

O egresso Carlos José dos Reis destaca a influência de professores éticos e sérios para a escolha da profissão. (Foto: Arquivo Pessoal)

Carlos José dos Reis, graduado em Matemática-Licenciatura: A minha escolha por um curso de licenciatura se deu de forma semelhante ao que conduz muitos a escolherem esse tipo de curso. Desde criança, eu sempre manifestei um forte apreço por uma vida de estudos, por uma vida intelectual. Em casa, ouvia de meus pais que, para me tornar alguém na vida, seria necessário estudar. Esse pensamento me marcou ao ponto de jamais abandoná-lo.

A minha graduação em Matemática-Licenciatura pela UNIFAL-MG iniciou-se em 2009, mas costumo afirmar que começou muito antes, no ano de 2003. Nesse ano, eu ainda era um aluno do Ensino Fundamental, com 13 anos. Nessa fase, eu dividia o meu dia entre estudar no período da manhã e, à tarde, trabalhar em uma lavoura de tomate que ficava bem próxima à fazenda onde eu morava. Mesmo sendo muito dedicado aos estudos, eu não tinha noção alguma sobre universidades e muito menos sobre cursos de Graduação, mas pouco a pouco fui sendo naturalmente conduzido ao ambiente acadêmico.

No ano de 2006, a UNIFAL-MG selecionava alunos do ensino médio com bom desempenho em algumas matérias para o Programa de Iniciação Científica Júnior (PROBIC-Jr). Na época, esse Programa oferecia 30 bolsas para os alunos do município. Como eu possuía um bom aproveitamento em Matemática, acabei sendo agraciado com uma bolsa de iniciação científica, que, na época, somavam 100 reais a minha renda.

No dia da reunião em que seriam escolhidos os orientadores para cada bolsista, acabei sendo escolhido para ser orientado pelo professor Luiz Alberto Beijo, que atualmente é professor do Departamento de Estatística na UNIFAL-MG. Ele foi uma pessoa fundamental na minha decisão por um curso de licenciatura. Depois de um ano e quase concluindo o projeto de pesquisa, um certo dia ele me perguntou sobre qual curso eu tinha interesse em fazer. Nessa fase, o meu desejo de continuar estudando estava ainda mais intensificado com a experiência que eu adquirira após desenvolvermos o projeto de iniciação científica júnior. Percebi o quanto eu gostava do ambiente acadêmico.

Mesmo com a inclinação a continuar estudando, eu não sabia qual curso fazer. Na conversa que eu mencionei anteriormente, o professor Beijo me sugeriu que eu fizesse Matemática-Licenciatura. Ocorreu que eu segui o conselho dele e, no fim de ano de 2008, fiz o vestibular para a UNIFAL-MG. Sobre o que me levou a escolher um curso de licenciatura, além da boa influência do professor Beijo em me orientar nesse sentindo, eu acrescentaria também a influência de todos os meus professores ao longo de minha formação escolar. Como mencionei no início, a minha escolha por um curso de licenciatura se deu de forma semelhante ao que conduz muitos a escolherem esse tipo de curso, que é a influência que recebemos de professores éticos e sérios em suas missões de ensinar.

“Não caminhei e não caminho sozinho, mas junto aos meus familiares, minha companheira, colegas professores e milhares de estudantes”, relata o professor Gabriel Barreto. (Foto: Arquivo Pessoal)

Gabriel Barreto Lopes, graduado em Ciências Sociais (Bacharelado e Licenciatura), mestre em Educação e graduando de Pedagogia: A profissão docente em nosso país é repleta de desafios e obstáculos, que se referem a aspectos objetivos, como as condições de trabalho inadequadas, projetos de ataque por gestores públicos, desvalorização profissional, mas também aspectos subjetivos, como o adoecimento psíquico, a insegurança nos primeiros anos de docência, entre outros.

Nesse contexto, são muito significativas as memórias sobre os meus processos de formação inicial e continuada na UNIFAL-MG. No espaço da Universidade, tive contato com educadores(as) que se tornaram referências pessoais e profissionais, além de experiências em estágios supervisionados, em cursinhos populares (Emancipa Sul de Minas e Cursinho Popular “Êxito”, da UNIFAL-MG) e no Museu da Memória e Patrimônio da UNIFAL-MG.

Além de ter minhas primeiras experiências como professor de Sociologia, refletindo criticamente sobre os desafios da docência e dos processos de ensino-aprendizagem, foram nesses espaços não formais que passei a compreender de forma mais latente a função política da educação em um país fortemente marcado por desigualdades sociais e a necessidade de lutar cotidianamente pela escola pública, gratuita e de qualidade.

Essas experiências fazem parte dos meus primeiros passos na docência e somam-se às marcantes vivências em uma ocupação secundarista, que considero como centrais para me inspirar e para me construir como professor. Na ocupação de uma escola pública de Alfenas, tive o contato próximo e direto com uma forma distinta de viver a relação educacional, marcada pelo afeto cotidiano, que impactou significativamente no meu posicionamento frente aos enfrentamentos vivenciados atualmente, como docente. Por tudo isso, deixo aqui os meus agradecimentos aos “Ocupas”.

Dito isso, conforme apresentam as discussões do campo da formação de professores, vários são os desafios enfrentados no início da docência. No meu caso, apesar de vivências muito significativas, apresentadas anteriormente, esse processo não foi diferente. Foi e é um desafio cotidiano, que envolve a dimensão individual, mas também coletiva.  Não caminhei e não caminho sozinho, mas junto aos meus familiares, minha companheira, colegas professores e milhares de estudantes.

Dito isso, reafirmo que não é fácil ser educador nesse país e sei que outros desafios permanecerão e nos desafiarão, como trabalhadores(as) em educação… Ataques, descaso e a desvalorização do poder público, as dificuldades da Escola em estabelecer relações mais horizontalizadas e democráticas, os currículos distantes das realidades vivenciadas pelos estudantes, os processos seletivos excludentes e as dificuldades para acesso ao mercado de trabalho e à Universidade.

Entretanto, educar é uma tarefa política e afetiva. Por isso, finalizando de forma lúdica, conforme apresenta o músico Gonzaguinha (CD, 1980), “Eu vou à luta é com essa juventude, que não corre da raia à troco de nada. Eu vou no bloco dessa mocidade que não ‘tá’ na saudade e constrói a manhã desejada”.

Para a egressa Giovanna Galelli, bons professores podem inspirar e muito alunos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Giovanna Manfrinato Vicente Galelli, graduada em Letras – Língua Portuguesa: Na maior parte das memórias que tenho das brincadeiras de infância, estou na garagem da casa dos meus pais com uma lousa, cadeira, mesa e giz brincando de escola com meu irmão mais novo. Acredito que, apesar da dúvida que tive anos mais tarde, sempre soube e quis ser professora. Fui uma criança apaixonada pela escola e que encontrou nos estudos uma forma de lidar com a depressão na infância.

Dessa forma, ser professora sempre fez parte de mim, porém o que me fez ter certeza foram todos os grandes professores e professoras que tive em minha trajetória escolar. Sempre acreditei que um professor poderia influenciar positivamente ou negativamente as escolhas de um aluno, e foi isso que aconteceu comigo. Apesar de gostar de estudar e gostar muito da escola, tinha minhas matérias preferidas e outras nem tanto, e Língua Portuguesa, nessa época, não estava entre as que eu mais vibrava quando tinha aulas.

Porém, tudo mudou quando tive um professor chamado Álvaro, a partir do 7º ano do Ensino Fundamental. Álvaro era um professor carismático e que conseguiu mudar meu olhar sobre a Língua Portuguesa através das aulas de leitura e redação. No começo foi difícil, pois confesso que preferia as aulas de Matemática, mas ele sempre tinha um jeito especial de incentivar e mostrar que Português era legal e que nós sabíamos usar e falar, só precisávamos ter mais atenção e coragem de tentar. Foi ele quem me apelidou de “Rainha dos Parágrafos”, porque, no começo, minhas redações eram cheias deles. Gosto de dizer que o professor Álvaro foi o começo de tudo e também foi quem me levou até professora responsável por confirmar minhas escolhas: Marília.

Marília foi minha professora durante todo o Ensino Médio. Foi ela quem me mostrou que ser professor é ter sabedoria para lidar com todos os alunos, independente dos problemas deles e, também, saber seu valor e sua posição dentro de uma sala de aula. Ela foi uma das professoras mais jovens que tive e, com seu jeito meigo, encantava todos os alunos. Era o oposto do que se tem como visão de professor; ela não era de levantar a voz, tratava todos com gentiliza e foi quem me fez, mesmo sem saber, escolher minha área de pesquisa durante a graduação. Álvaro me fez gostar de escrever, Marília me fez amar Literatura Brasileira. Ambos foram, direta ou indiretamente, responsáveis por mudar minha visão sobre a Língua Portuguesa e escolher licenciatura em Letras.

Hoje, como professora recém-formada, carrego o desejo e a meta de ser para os meus alunos e futuros alunos o mesmo que Álvaro e Marília foram para mim: grandes inspirações para escolher o meu caminho. A docência é árdua, não existe um dom para isso, mas existe boa vontade, humildade e gentileza que, para mim, são características básicas para ser um bom professor. Escolhemos essa luta para formar cidadãos conscientes de seu papel social, mas também pessoas mais humanas, que saibam olhar o próximo com mais gentileza e afeto, porque todo aluno é importante e deve ser estimulado da melhor forma possível e, acima de tudo, valorizado dentro de suas habilidades.

A todas as professoras e professores do Brasil, a UNIFAL-MG registra um fraterno agradecimento pela dedicação, força e luta diária para transformar realidades. 

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