A deterioração da renda no Brasil: uma leitura da inflação nos últimos dois anos

Danilo Moraes Nascimento
Débora Juliene Pereira Lima

A pobreza e a desigualdade são questões centrais nas discussões sobre o desenvolvimento econômico. A persistência desses problemas no Brasil é um fato histórico, consolidado por meio das relações econômicas e sociais estabelecidas entre as diferentes classes produtivas. Essa percepção da realidade nos conduz a uma conclusão fundamental: a economia, tal como conhecemos, se estruturou sobre a fragmentação social. Ora, isso fica evidente observamos a concentração da renda e da riqueza no país ao longo de toda a sua História.  

Analisar a situação da população economicamente vulnerável de um país é uma tarefa difícil; os componentes analíticos ultrapassam o escopo da economia, pois alcançam as ciências sociais e políticas, e tangenciam o imensurável. Apesar dessa complexidade na observação dos fatos, podemos utilizar alguns indicadores macroeconômicos para o melhor entendimento desses problemas.

O componente mais aparente da pobreza é a renda[1]. Contudo, a renda, por si só, não explica o fenômeno, pois ela apenas indica as diferentes porções quantitativas de poder aquisitivo entre os indivíduos. Logo, para o entendimento da pobreza em seus múltiplos aspectos, deve-se investigar de forma mais aprofundada as diferentes fontes de renda (emprego forma e informal, transferências de programas sociais, aposentadorias, pensões, dentre outros.).

Mesmo que a origem e o nível dos rendimentos sejam cruciais para se analisar a fragilidade social, nos concentraremos aqui na estabilidade da renda, principalmente no que se refere ao poder de compra desses recursos[2]. Esses recursos monetários, analisados apenas de forma nominal, podem ludibriar pelos números, por isso, é importante ressaltar que o aumento generalizado dos preços afeta o dinamismo de variáveis macroeconômicas como a produção e o câmbio. Porém, o impacto mais direto da inflação se dá sobre a renda, via corrosão do poder compra. 

A inflação, que é mensurada pelos indicadores sintéticos (IPCA, INPC, IGP-M, etc.), não impacta de forma homogênea o poder de compra de todos os indivíduos, pois, mesmo que os índices sejam medidas do comportamento geral do nível de preços, os consumidores são afetados de maneira distinta. Tal diferença de impacto se deve à variabilidade na elevação dos preços dos diferentes bens de consumo. Se, por exemplo, o indicador de inflação for fortemente puxado pelo encarecimento dos bens de luxo, os mais afetados serão aqueles que pertencem às classes sociais mais privilegiadas. Mas, infelizmente, o que observamos no Brasil é um aumento do nível de preços de produtos como alimentos, que compõem a maior parte das cestas de mercado das classes mais pobres. 

A inflação, assim como o desemprego, tem agravado o problema da insuficiência de renda dos brasileiros. A nossa interpretação é que a inflação atual é consequência dos choques de oferta (causados pelas restrições pandêmicas) e das contínuas depreciações cambiais. No ano de 2020, o IPCA[3] (Índice Nacional de Preços do Consumidor Amplo) se manteve abaixo dos 0,5% até julho. No entanto, após esse período, o índice começou a aumentar, subindo em média 1 ponto percentual por mês até o final do ano, chegando a 4,52% no mês de dezembro. No início de 2021, os resultados foram melhores (em janeiro o IPCA foi de 0,25%) mostrando-se relativamente controlado. Contudo, com o passar dos meses os resultados foram se deteriorando. Entre fevereiro e novembro de 2021, o IPCA aumentou em média 1 ponto percentual ao mês, chegando em 9,26% no mês de novembro.

No entanto, é imprescindível observar os dados com mais profundidade, segregando-os pelos seus componentes, para que assim possamos ter uma ideia mais exata da deterioração do consumo das classes mais pobres. Para isso, vamos especificar aqui o aumento dos preços de alguns bens, aqueles que julgamos como os mais essenciais, ou bens de subsistência: alimentação domiciliar, habitação, combustível para veículos e serviços de saúde.

O ano de 2020 foi caracterizado pela alta progressiva dos preços dos alimentos (com aumentos médios de quase 2 pontos percentuais mensais durante o ano), alcançando seu ponto máximo em dezembro, com 18,15% de inflação. A alta dos preços desses produtos em 2021 foi mais controlada, visto que os aumentos mensais médios foram menores que 1 ponto percentual. Todavia, o aumento foi significativo, pois em janeiro o indicador apontava para 1,06%, enquanto em novembro o mesmo indicava um percentual de 7,4% – um aumento de mais de 6 pontos percentuais em 11 meses.

Para especificar de forma alternativa a inflação dos alimentos, objetivando dimensionar o impacto sobre a renda da população mais carente, é importante observamos a variação de preço das cestas básicas. Dados da DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) nos informam que, em média[4], os gastos com cestas básicas aumentaram em 34% entre janeiro de 2020 (R$ 445,95) e novembro (R$ 599,85) – um aumento de R$ 153,90. Vemos com mais clareza a exorbitância deste aumento quando olhamos a evolução do salário mínimo real no período, que se reduziu em R$ 86,65 (-7,25%) entre janeiro de 2020 e outubro de 2021[5]. O IPCA dos bens de habitação, por sua vez, apresentou um comportamento similar ao índice geral. A variação média desse indicador para 2020 foi de menos de 0,5 ponto percentual ao mês (com 0,55% em janeiro e 5,25% em dezembro). Em 2021, a inflação dos bens e serviços para a habitação foi maior que em 2020, aumentando em média 1,3 ponto percentual a cada mês, passando de -1% – em janeiro – para 12,22% em novembro.

Sem dúvidas, a alta de preços mais importante entre 2020 e 2021 ocorreu no setor de combustíveis (gasolina, etanol e diesel). Nesse último ano, os preços dos combustíveis alcançaram valores exorbitantes, aumentando, em média, 5 pontos percentuais a cada mês. A inflação desses produtos, que era de 2,13% em janeiro, passou a ser de 50,43%, um dos maiores aumentos dos últimos tempos. Tal fato explica boa parte do aumento generalizado dos preços no período recente, pois o transporte dos bens de consumo (assim como também os de capital e os insumos) depende dos combustíveis citados. Assim, parte dos custos causados pelo aumento dos preços dos combustíveis são repassados para o consumidor final.

Por fim, temos a inflação sobre os gastos com serviços de saúde, que comparada com alguns outros tipos de bens e serviços, foi relativamente estável no período observado. No ano de 2020, o nível dos preços destes tipos de serviços aumentou em média 0,20 ponto percentual por mês (de 0,5% em janeiro, chegando a 2,64% no mês de dezembro). Para 2021, os resultados foram semelhantes aos do ano anterior: 0,57% em janeiro e 2,79% em novembro (aumento médio de 0,20 ponto percentual mensal). Essa relativa estabilidade dos gastos em saúde pode parecer estranho, visto que a pandemia ainda está em pleno vigor. Porém, isso pode ser explicado pelo fato de que, no Brasil, boa parta da população depende exclusivamente dos serviços públicos, o que faz com que os gastos privados com saúde sejam complementares.

Os dados abordados apresentam uma realidade amarga; muitos brasileiros passam fome, o desemprego é massivo e a miséria alcança níveis exorbitantes. A marcante desigualdade se aprofundou na pandemia, os mecanismos econômicos e sociais se apoiam sobre as ruínas. Muitos economistas afirmam que caminhamos para uma profunda estagflação[6]. Contudo, o que vemos não é uma simples estagnação, mas sim uma recessão desestruturadora.

É fato que os Estados mais bem estruturados, política e economicamente, responderam melhor aos impasses da pandemia – basta olharmos, comparativamente, por exemplo, para alguns países do Norte da Europa (como Noruega e Finlândia). Mesmo que a pandemia da Covid-19 tenha aprofundado a crise, a causa dos problemas sociais e econômicos no Brasil é a ausência de atuação do governo brasileiro em questões centrais que afetam a atividade econômica, o emprego e a estabilização macroeconômica (representada pela garantia do poder de compra das classes sociais mais vulneráveis).

[1]     A pobreza, como muitos autores indicam, é um fenômeno multifacetário, envolvendo vários fatores condicionais – além da renda – como saneamento básico, qualidade da moradia, acesso à educação e saúde, participação política, entre outros.

[2]   Quando muitos economistas falam sobre a “estabilização da economia”, eles se referem diretamente aos meios de controle inflacionário.

[3]     IPCA acumulado ao ano (%). Dados retirados do IBGE.

[4]     Foi realizada uma média desconsiderando os valores nulos de cada região metropolitana nos meses observados.

[5]     Salário Mínimo Real retirado do Ipeadata (abatido o percentual de inflação mensal).

[6]     Situação em que há estagnação econômica (representada pela atividade econômica, medida pelo comportamento do PIB) e inflação, ao mesmo tempo.  

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