Um caso sui generis de édipo textual, por Eloésio Paulo sobre o livro “Armadilha para Lamartine”

Um rapaz de 21 anos cuja crise existencial desemboca na internação em hospício, instituição que se revela terrivelmente opressiva e capaz de destruir alguém por meio do seu “tratamento”. A semelhança do enredo com o do filme Bicho de sete cabeças não é mera coincidência: Armadilha para Lamartine (1976) é contemporâneo do livro Canto dos malditos (1975), que deu origem ao belo filme de Laís Bodanzky com Rodrigo Santoro no papel principal. O autor do romance assina como “Carlos & Carlos Sussekind”, fazendo justiça a seu pai, cujo diário íntimo seria, segundo Carlos Sussekind de Mendonça Filho, a base material do texto ficcional.

O enredo é composto por dois subconjuntos, as “Duas mensagens do Pavilhão dos Tranquilos” e o “Diário da varandola-gabinete”. No primeiro, Lamartine se faz passar por um colega do hospício Três Cruzes e narra sua própria estada de dois meses nessa instituição. Destaca-se a participação do protagonista no jornal O ataque, que culmina com sua transferência para a ala dos internos merecedores de cuidados “especiais” como a eletroterapia.

O diário de Espártaco M., pai de Lamartine, ocupa um espaço bem maior e esclarece as verdadeiras razões da crise existencial do filho. Espártaco é uma figura demissionária de sua função de chefe da família, um promotor de justiça preocupado com questões miúdas do cotidiano e ao mesmo tempo com a crise política que antecedeu a posse de Juscelino Kubitschek como presidente em 1956. A crise pessoal e familiar do memorialista tanto é penetrada pelo panorama político-econômico do Brasil naquela época como explica em boa parte o surto psicótico de Lamartine. Hélio Pellegrino, do privilegiado mirante de psicanalista do escritor, prefaciou a primeira edição da obra de Sussekind, deixando clara a condição de drama edípico do romance.

Mas falamos de um édipo especificamente textual: a escrita do pai revela um sujeito inseguro e incapaz de servir como figura de autoridade por meio de cuja contestação alguém possa individuar-se. Nesse sentido, a escrita do livro talvez possa ser vista como vingança simbólica do escritor pessoa-física.

Além de muito bem escrito do ponto de vista estilístico, o romance tem uma estrutura narrativa magistral, cuja aparente fragmentação, de fato, formaliza a profunda e trágica solidariedade entre as crises do pai e do filho. Armadilha para Lamartine é um dos pouco numerosos romances pós-modernos que não fazem feio quando comparados a Graciliano Ramos ou Machado de Assis.

Onde encontrar:
Editora Companhia das Letras 

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