Especial Abelhas: Estudo desenvolvido por pesquisadores da UNIFAL-MG aponta a restauração ecológica como estratégia para a conservação de polinizadores e maior produtividade agrícola

O Jornal UNIFAL-MG encerra a série “Especial Abelhas” desta semana, abordando uma pesquisa que mostra a importância da polinização — interação entre as flores e seus animais polinizadores — para o bem-estar humano e para nossa segurança alimentar. O projeto Síntese sobre Intensificação da polinização: Biodiversidade e Agricultura Sustentável (SPIN) conta com a professora Marina Wolowski, do Instituto de Ciências da Natureza (ICN), pesquisadora de temas como reprodução de plantas e interações planta-polinizador, como uma das autoras.

Marina Wolowski – pesquisadora e professora do Instituto de Ciências da Natureza (ICN) da UNIFAL-MG. (Foto: Arquivo Pessoal)

Além de Marina Wolowski, o grupo envolvido no projeto é formado por pesquisadores com atuação em diferentes especialidades e por representantes do setor agrícola e do terceiro setor. Todos com o mesmo objetivo: fornecer evidências científicas sobre a polinização agrícola no Brasil, de forma a embasar iniciativas de restauração ecológica visando a conservação da natureza aliada à agricultura.

“No Brasil, 76% dos produtos agrícolas dependem em algum grau dos polinizadores. No entanto, a extensiva conversão de habitats naturais em áreas agrícolas e pecuária, e a intensificação da agricultura por meio do uso de insumos químicos afetam as populações de polinizadores e, consequentemente, a própria polinização das culturas agrícolas”, explica a pesquisadora.

Para contextualizar a pesquisa, que recebe apoio do Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (Programa SinBiose), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a professora Marina Wolowski explica que diversas culturas agrícolas dependem da polinização por animais para a produção de alimentos e outros produtos agrícolas.

“Nossa sociedade depende de processos e produtos providos pela natureza para sua manutenção e sobrevivência. Estes processos e produtos têm sido reconhecidos como contribuições da natureza para as pessoas, abrangendo diferentes dimensões, tais como ambiental, econômica e cultural. A polinização é uma dessas contribuições para o bem-estar humano e para nossa segurança alimentar, além de ser fundamental para a manutenção e a estabilidade dos ecossistemas”, comenta.

As abelhas predominam a polinização, participando de 80% das culturas agrícolas que dependem da visita de polinizadores. (Foto: Banco de Imagens/Canva)

Marina Wolowski é também responsável pela coordenação do primeiro diagnóstico brasileiro de diversidade biocultural, o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, lançado em 2019, fruto da parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, da sigla em inglês) e a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP). Acesse aqui notícia sobre relatório divulgado pelo Portal da UNIFAL-MG

O documento aponta, por exemplo, que das 289 plantas cultivadas ou silvestres, utilizadas direta ou indiretamente na produção de alimentos no país, existe conhecimento disponível sobre a polinização de 191 (66%). Os serviços prestados por esses animais, especialmente as abelhas à agricultura brasileira, foram estimados em R$ 43 bilhões, em 2018. Os cultivos de grande importância agrícola apontados, foram: soja, café, laranja e maçã.

De acordo com o relatório, as abelhas predominam a polinização, participando de 80% das 114 culturas agrícolas que dependem da visita de polinizadores, sendo responsáveis pela polinização exclusiva de 65% delas. Porém, os pesquisadores alertam para fatores que ameaçam a ação dos polinizadores, tais como a perda de habitat, mudanças climáticas, poluição ambiental, agrotóxicos, espécies invasoras, doenças e patógenos. Foi essa preocupação que levou cientistas à elaboração do documento como base para a tomada de decisão por gestores públicos.

De acordo com a pesquisa, a polinização representou US$13 bilhões de ganhos econômicos para o Brasil em 2017. (Foto: Banco de Imagens/Canva)

Em consonância com a preocupação apontada no relatório, o projeto de pesquisa “Síntese sobre Intensificação da polinização: Biodiversidade e Agricultura Sustentável” também propõe uma interlocução entre cientistas e gestores públicos numa tentativa de proteger polinizadores.Nossa expectativa é promover o diálogo com as partes interessadas para tradução e coprodução de conhecimentos necessários para subsidiar políticas públicas voltadas para proteção de polinizadores e do serviço de polinização em agroecossistemas no Brasil”, enfatiza Marina Wolowski.

Iniciado em 2019, o estudo apresenta o mapeamento da importância dos polinizadores para a agricultura em cada um dos municípios brasileiros e a demanda de restauração de áreas naturais para garantir a presença de polinizadores nos cultivos agrícolas. “Nossas primeiras análises, baseadas na produção agrícola de 2017, reforçam a importância dos polinizadores, indicando que a polinização representou US$13 bilhões de ganhos econômicos para o Brasil. Esse conjunto envolve 90 culturas agrícolas diferentes que vão desde a abóbora e o cacau, cuja produção aumenta até 100% com a presença dos polinizadores, até a uva — aumento de até 10% —, passando pela soja, laranja e café, cuja produção pode aumentar entre 10 e 40%”, detalha a pesquisadora.

O projeto SPIN também mostra a demanda por polinização — grau de dependência das culturas agrícolas — para cada município no Brasil. “Identificamos regiões com alta produção de culturas agrícolas com dependência de polinizadores associada a alto déficit de vegetação — isto é, a diferença entre a quantidade de vegetação natural existente e as áreas exigidas por lei —, o que permite indicar áreas prioritárias para ações de restauração visando a intensificação da polinização”, salienta a professora Marina Wolowski.

Em Alfenas, os pesquisadores identificaram alto déficit de vegetação e nível intermediário de demanda por polinização, dada a presença de cultivos de café, soja e feijão que representam 75% da produção agrícola do município. (Foto: Banco de Imagens/Canva)

Em relação à cidade de Alfenas, os pesquisadores identificaram alto déficit de vegetação e nível intermediário de demanda por polinização, dada a presença de cultivos de café, soja e feijão que representam 75% da produção agrícola do município — R$ 193 milhões de R$ 256 milhões. “Isto representa, para Alfenas, a recomendação de alta prioridade para restauração de suas áreas de vegetação natural tendo como foco o aumento da polinização e, portanto, de sua produção agrícola”, assinala a docente.

Segundo Marina Wolowski, o estudo não para por aí. O grupo pretende ainda entender a configuração da paisagem nos municípios mapeados para estimar a potencial contribuição da polinização, definida como a dependência em função da distância entre a área cultivada e a vegetação nativa. “Iremos incorporar dados dos polinizadores como riqueza, potencial abundância e atributos como distância de voo para estimar a potencial provisão de polinização agrícola de cada município”, explica.

A partir de dados de interação planta-polinizador, conforme a pesquisadora, será possível produzir recomendações de espécies ideais para ações de restauração visando a promoção da polinização nas áreas cultivadas. “Com isso, ambicionamos prover elementos para auxiliar o planejamento espacial dos esforços de restauração visando a intensificação da polinização”, conclui.

O trabalho “Síntese sobre Intensificação da polinização: Biodiversidade e Agricultura Sustentável (SPIN)” ganhou repercussão em artigo divulgado na revista Environmental Science & Technology em agosto deste ano. Confira aqui


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